Ah, a Geração Z. Nascidos entre 1997 e 2012, conectados 24/7, multitarefas natos, com  mais cursos online do que horas de sono, e, segundo a Randstad, os mais móveis de sempre.  O estudo The Gen Z Workplace Blueprint revela que ficamos, em média, 1 ano e 1 mês em  cada emprego nos primeiros cinco anos de carreira. Para comparar, os Baby Boomers  aguentavam quase três anos, a Geração X cerca de dois anos e oito meses. Resultado?  Enquanto eles construíam vidas, nós construímos CVs com rodinhas e playlists de Spotify  que nos ajudam a sobreviver às reuniões de Zoom que poderiam ter sido emails.

Não pensem que esta mobilidade é capricho ou “espírito de aventura”. É pura  sobrevivência. Entre contratos precários, estágios não pagos e side hustles que parecem  hobbies mas são a diferença entre comer ou morrer de fome, nós aprendemos a ser  multitarefas antes mesmo de saber cozinhar arroz decente. Segundo o estudo da Randstad:

  • 52% da Geração Z está ativamente à procura de novo emprego;
  • Apenas 11% planeia permanecer muito tempo no atual;
  • 79% aprendem novas competências rapidamente, mas 41% não confiam que vão  encontrar colocação;
  • Só 45% têm emprego a tempo inteiro, o resto vive entre biscates, freelances e  microempresas.

E Portugal, claro, não facilita nada. Aqui, a realidade é digna de um documentário de  sobrevivência:

  • Taxa de desemprego jovem: 20,7%, quase três vezes a média nacional; • Três quartos dos jovens até aos 29 anos ainda vivem com os pais;
  • 850 mil portugueses entre os 15 e os 39 anos vivem no estrangeiro, muitos sem  intenção de voltar;
  • Salários médios que mal dão para pagar uma renda de 400–500€, quanto mais  comida, transporte, internet e café hipster. 

Portanto, quando nos dizem que somos “a geração da aventura”, pergunto: a aventura de  quem? É a aventura de decidir se conseguimos pagar a renda ou se comemos macarrão  instantâneo durante mais uma semana. É a aventura de fazer 3 empregos para sobreviver  enquanto os líderes falam de “flexibilidade” e “modernização do Código do Trabalho”.  Modernização, neste caso, é apenas sinónimo de precariedade disfarçada de inovação.

Enquanto na Alemanha ou na Suécia um jovem com dois anos de experiência consegue comprar um carro e, eventualmente, uma casa, em Portugal o melhor que conseguimos é  um contrato temporário, salário de trotinete e frustração garantida. Um amigo meu fez três  entrevistas de emprego no último mês: uma era estágio não remunerado, outra era  contrato de 3 meses a ganhar metade do salário mínimo, e a terceira oferecia subsídio de  transporte mas “experiência internacional garantida” — traduzindo: trabalhe de graça e  faça networking enquanto chora no metro.

E a ironia é deliciosa: ainda somos criticados por “não querer trabalhar”. Somos criticados  por ambicionar mais. Mas a verdade é que queremos crescer, aprender e contribuir, e  Portugal insiste em oferecer a mínima sobrevivência possível, enquanto nos olha com cara  de espanto: “Vocês querem estabilidade? Mas… já não é moda?”

A Randstad mostra que 79% da Geração Z aprende novas competências com facilidade.  Verdade. Aprendemos Excel avançado, Python, marketing digital, edição de vídeo, gestão de  redes sociais, design gráfico e ainda sabemos fazer pão sourdough para as stories do  Instagram. Mas o país não paga por isso. Aprendemos rápido para receber pouco ou nada. E  mesmo assim, somos pressionados a ser “empreendedores”, porque trabalhar de graça é  moderno, e a palavra “resiliência” é o nosso mantra.

O estudo também destaca que os jovens valorizam objetivos de longo prazo ao considerar  mudar de emprego, e Portugal? Portugal não oferece percursos de carreira. Cada emprego é  um contrato de 3 meses, cada “plano de carreira” é uma piada. A Geração Z é ambiciosa,  mas é impossível ambicionar quando o país te segura com uma mão e te empurra com a  outra.

Então, o que precisa Portugal para reter esta geração?

1. Salários dignos — não, 850€ não é salário digno, é “sobrevivência em modo beta”.

2. Habitação acessível — sim, queremos pagar renda sem vender um rim.

3. Planos de carreira reais — não contratos de 3 meses, não estágios intermináveis, não  side hustles como requisito para a subsistência.

4. Oportunidades de crescimento concretas — queremos aprender e crescer, não  apenas acumular micro tarefas e skills que nunca serão valorizadas.

Até lá, nós continuamos a ser a geração da mala pronta. Sempre a aprender, sempre a  crescer, sempre prontos para sair. Porque a aventura que nos deram é esta: sobreviver num  país que não nos dá espaço, e escapar para qualquer lugar que nos trate como talentos e  não como números num gráfico da Randstad.

Chamem-nos nómadas digitais, aventureiros ou rebeldes. Nós sabemos a verdade: somos  estrategicamente voláteis. E se nada mudar, cada CV com rodinhas será uma mala pronta, cada skill adquirida será uma passagem de avião comprada, e cada contrato temporário será  mais uma etapa na fuga organizada.

Portanto, caros políticos, patrões e chefes de recursos humanos: podem continuar a falar de  flexibilidade, inovação e modernização. Nós continuaremos a aprender rápido, crescer  rápido… e sair ainda mais rápido. Aventureiros? Sim. Mas a aventura mesmo, essa, é fazer a  mala e procurar um país que realmente nos pague pelo que valemos.

Porque, sejamos sinceros, a Geração Z já não espera. Ela age.