A 27 de Janeiro de 1964 a França reconheceu a República Popular da China. A iniciativa valeu a Paris protestos de Washington que Charles de Gaulle recebeu com satisfação. De uma assentada, a França da Segunda Guerra Mundial ficava para trás e a França verdadeira, a França eterna estava de volta. Na conferência de imprensa que teve lugar dias depois, de Gaulle explicou ao mundo as suas razões: primeiro, que a China era um grande povo e uma grande civilização que precisava de se integrar no mundo moderno e, em segundo, que a ideologia comunista não apagava as rivalidades entre a Rússia (URSS) e a China. O presidente francês foi o primeiro a ver essa realidade e os EUA precisaram de tempo para assentarem a fúria e, também eles, seguirem Paris e reconhecerem Pequim.
De todos os motivos que de Gaulle tinha para reatar relações com a República Popular da China há um que não consta da conferência de imprensa que mencionei em cima: a necessidade de marcar posição face aos EUA. Sempre que podia, de Gaulle não perdia a oportunidade para o fazer. A ideia de grandeza que tinha da França obrigava-o e a inexistência de uma União Europeia (a CEE da altura só contava com seis estados) dificultava-lhe a vida. Por vezes teve de se conter; por outras, como foi o caso com a China, fez o que queria.
O que faria de Gaulle se fosse vivo, se fosse presidente da França e se tivesse de lidar com Trump? Muito provavelmente iria a Pequim. Não a Moscovo, que ataca a Europa, mas a Pequim que está longe e é a principal ameaça aos EUA, que negligenciam a Europa. Basicamente, concluiria que se a Europa precisa dos EUA e estes se afastam, a melhor forma de os europeus se fazerem valer será aproximarem-se dos chineses, adversários dos norte-americanos.
Quando Kissinger visitou secretamente Pequim, em 1971, o seu objectivo era ajustar as relações entre os estados à realidade internacional e dar início a uma diplomacia triangular. Em vez de dois blocos (Ocidente vs. Bloco comunista) teríamos três: Ocidente, URSS e China. Apesar de pioneira, a iniciativa de Gaulle foi engolida pelo EUA. Em 2025, e depois do cisma de Trump, passaram a existir não três, mas quatro polos: EUA, Rússia, China e UE. O estabelecimento de uma diplomacia quadrangular torna-se natural com o afastamento dos EUA face à Europa. Se fosse vivo é provável que de Gaulle visse aqui uma oportunidade: a de, finalmente, fazer alianças livre dos interesses e imposições dos EUA. Emmanuel Macron sabe, com certeza, disto. O novo chanceler alemão também e uma nova coligação com o SPD é capaz de dar uma ajuda nesse sentido.
Nesta crónica não faço a defesa do quer que seja, até porque uma aproximação dos europeus à China comporta riscos para a segurança europeia. Refiro tão só o que pode acontecer. Desde 20 de Janeiro que entrámos numa nova realidade que implica decisões e riscos. O certo é que a política não é tão simples como Trump a pinta. E se a forma como os norte-americanos negligenciam a Europa é compreensível numa perspectiva de mera medição de forças, uma possível reacção do lado mais fraco da equação não deixa de ter antecedentes históricos.