Agora, por uns dias, somos todos nova-iorquinos outra vez. Há um novo herói da revolução. Jovem, democrata, imigrante, para liderar, muito mais do que a cidade, a esperança; a resposta a Trump e ao trumpismo, ao populismo em geral; aos ventos da História. Que importa se é uma mera cidade, por maior que seja, “contra” um país? Que importa se é a cidade mais obviamente democrata desse país e o resultado destas eleições o mais previsível possível? Que importa se nem sabemos grande coisa sobre Zohran Mamdani, 34 anos, muçulmano, natural do Uganda, além de que promete ir fazer a vida negra aos ricos e resolver o problema da habitação, ainda que ele próprio viva numa casa de renda acessível, sem que ainda tenha conseguido explicar bem porquê? O que importa é que é jovem, democrata e imigrante e isso dá-nos esperança de que seja o príncipe valente por quem tanto esperámos para liderar um volte-face qualquer de filme da Disney (já para não dizer que faz vídeos muita-giros nas redes sociais). Será que aprendemos alguma coisa?
Afinal, sentimo-nos todos tão próximos de Nova Iorque, Alexandria dos tempos modernos, feita aberta a todo o mundo, por gente vinda de todo o mundo. Conhecida e reconhecida de tantos filmes, tantas séries, tantos livros, tantas canções. Nova Iorque é nossa quando lá chegamos e antes sequer de lá termos ido, nossa mesmo que nunca cheguemos lá, não tenhamos como a pagar, nunca passe dum poster do Empire State Building na parede do quarto ou dum refrão de “Empire State of Mind”.
E, no entanto, Nova Iorque não faz a mínima ideia de quem somos, do que precisamos, de quais são os nossos problemas; não elege mayors para cuidar deles, nem responder aos nossos anseios, nem aplacar as nossas angústias. É apenas uma cidade fenomenalmente cara, cada vez mais exclusiva, cada vez mais ostensiva, cada vez mais fútil, cada vez mais “Sexo e a Cidade” e menos Woody Allen, menos Paul Auster, menos Martin Scorsese, menos Lou Reed, menos Charlie Parker, que expulsou cada vez mais para fora do seu centro os tais que vinham de todo o mundo para a construir. Nova Iorque é, caso nunca tenhamos dado por isso, a cidade de Trump e das Trump Towers e dos Jeffrey Epsteins e dos seus amigos. Será que aprendemos alguma coisa?
A atenção que damos à banal eleição do mayor de Nova Iorque ajuda a explicar muito do que está errado na política hoje: a fractura entre os eleitores das grandes cidades e os do país “real”. Os habitantes de Lisboa sentem-se mais próximos dos de Madrid, Paris, Londres ou Manhattan do que dos de Vendas Novas, quanto mais de Celorico da Beira ou Aljustrel. Uns e outros não se compreendem, não se falam nem se ouvem. Uns discutem ciclovias e os outros não têm sequer comboio; uns querem falar dos problemas das casas de banho para trans nas escolas e os outros só queriam uma escola, aberta, com miúdos, de qualquer género ou escolha. Por isso, os do país real não se sentem representados pela comunicação social feita nas cidades; por isso, os das cidades não se sentem representados nos resultados das eleições, por enquanto ainda decididas pelos do país real.
Nova Iorque fica a 5423 quilómetros de distância de Lisboa por avião; o Entroncamento a 117 quilómetros de carro. Que sabem de Nova Iorque os lisboetas e que sabem do Entroncamento? Dos seus problemas? Sabem ao menos o nome do novo Presidente da Câmara? Já terão percebido porque ganhou lá o Chega, ainda há dias? Ou acham mesmo que são mais importantes as autárquicas americanas do que as do país em que se vive? Que a revolução vai ser feita a partir de Lower Manhattan? Que é o Zohran que vai resolver isto, disparar raios laser contra os populistas, golpes de karaté na habitação, milagres sobre os problemas dos imigrantes, migrantes, criminalidade, sobrelotação dos serviços públicos e sentimento de desidentificação em geral?
Sabemos melhor o nome de Zohran Mamdani do que o de Nelson Cunha, falar melhor dos problemas de Nova Iorque do que dos que afectam o Entroncamento, e isso não só diz tudo sobre o estado simplista, maniqueísta, caricatural e profundamente arriscado a que chegámos nos regimes democráticos; diz-nos que, provavelmente, ainda não aprendemos nada. Que o pior, provavelmente, ainda está para vir.
“Neste momento de escuridão política”, disse Mamdani no discurso de vitória com a mais irritante cagança nova-iorquina, “Nova Iorque será a luz”. E por todo o mundo, de Moscovo a Pequim, do Texas ao Entroncamento, milhões bocejaram e carregaram no off.