Caro leitor, se clicou neste título pensando (erradamente, já vai perceber porquê) que esta crónica é sobre futebol, então desengane-se. Não é. Não prosarei sobre táctica, nem sobre técnica, nem sequer sobre capacidades físicas. A si, que está a ler (espero eu), quer seja ou não um apaixonado pelo desporto, digo-lhe que isto que vou escrever é do seu interesse.

Não sei se sabe, mas, no dia 25 de Junho, além das novas medidas de combate à pandemia, aconteceu em Liverpool uma pequena revolução. Se em 1961, os Beatles apareceram oriundos do submundo, numa pequena caverna escura e sombria, em 2020, Jurgen Klopp, o treinador do principal clube da cidade, ergueu o título de campeão inglês. (Caro leitor, confie em mim, já lhe disse que não irei falar de futebol. Não desespere, pelo menos por agora, dê uma oportunidade a estas palavras).

O Liverpool venceu a Premier League e esse acontecimento é da maior importância para o mundo inteiro. O tema passou despercebido, ocultado pelas medidas preventivas da Covid-19, e, infelizmente, os telejornais não abriram com a notícia: “Habemus Líder”. Mas podiam ter aberto, não fosse a maldita pandemia.

Caro leitor, se está indignado pela perda de tempo ao ler este pequeno texto, vou agora explicar-lhe a razão pela qual este acontecimento é relevante. Não é relevante pela vitória em si, não é relevante pelos jogadores fantásticos, nem é relevante por ser futebol (sim, uma mera notícia futebolística não pode, nem deve abrir um jornal nacional). Mas há excepções e esta é uma delas.

Se for a uma livraria, de máscara, em direção à prateleira do Top de vendas, rapidamente vai verificar que os livros mais vendidos são aqueles das receitas para a felicidade. Se for ao Google e pesquisar por “liderança”, o motor de busca entregar-lhe-á um conjunto de notícias que apelam à necessidade de bons líderes. Ou seja, andamos meio perdidos no interior da bruma misteriosa à procura de preencher um vazio, bradamos por pessoas que nos guiem, que nos indiquem o caminho e estamos no meio do nada e sem saber para onde caminhar. É verdade que precisamos de líderes competentes, mas, acima de tudo, urge o aparecimento de pessoas com um caminho belo e verdadeiro, pessoas que inspirem!

E eis se não quando, em Liverpool, aparece um homem alemão, de barba, de boné e de óculos, esgrouviado e desalinhado com o padrão da normalidade. É extremamente inteligente e emocional, sabe como vencer, sabe perder e vive inteiramente aquilo que faz, com alegria. Os seus jogadores fazem tudo por ele e, acima de tudo, por um bem comum – correm, divertem-se, esfolam-se, ajudam-se uns aos outros e vão até ao limite, até que o suor se transforme em sangue. Jurgen Klopp contagia como só um mestre sabe fazer, encaminha e aponta ao caminho do bem e da vitória, mesmo quando não vence. Tem defeitos, é certo, mas impressiona ver como ele faz, a forma como, humilhando-se e não se levando muito a sério, pede desculpa.

Jurgen Klopp é um trabalhador incansável e obstinado, é competitivo, sem se mover pela excessiva violência e fanatismo da alta competição, e entrega-se com todas as suas fragilidades. Aliás, é nessa fragilidade e nessa humanidade, oriundas das mais profundas entranhas, que o coração dele e dos seus subordinados se vinculam. O que o move é um imenso amor à humanidade de cada um dos seus jogadores, arriscando uma amizade séria e verdadeira, olhando para eles de coração escancarado, sem se escudar em medos ou inseguranças. É pai e educador daqueles que se zangam, que riem às gargalhadas, que abraçam e, num abraço forte sufocam, que exigem dedicação máxima e esforço absoluto dia após dia, e que querem o bem do outro.

O mundo de Klopp é inspirador, porque foge à concepção natural dos preconceitos e das regras do futebol e da sociedade em geral. Foge às coisas más e vai ao encontro do sentido das coisas boas, ao olhar para os seus jogadores, não com medo e desconfiança, mas com a certeza de que lhe foi confiado um dom, um dom para cuidar, iluminar e fazer renascer o desejo de ver alguém cumprir uma vocação. A sua genuinidade e bondade eleva cada uma das pessoas que convive com ele, e, por essa razão, cumpre todo o seu dever: tornar alguém melhor.

Para terminar, conto uma pequena história que revela bem o espírito deste homem:

O Liverpool e o Chelsea defrontavam-se em 2019 e, durante o jogo, ao ver a sua equipa perder por 2-1, Jurgen Klopp olhou e riu-se para Maurizio Sarri, treinador do Chelsea. Irritado, mas contente por estar a vencer, o treinador rival respondeu:

– “Estás a olhar para onde, pá? Porque te ris?”

– “Não te estás a divertir?” Perguntou Klopp.

– “Sim, muito.” Disse Sarri, intrigado, ao ver o colega a sorrir e a perder o jogo simultaneamente.

Mas Klopp, desafiando as leis que vigoram no futebol e que impedem um treinador de esboçar qualquer sorriso quando é derrotado, disse: “Também eu me estou a divertir!”

São estas as razões que me levam a crer que este treinador é mais do que um mero homem do futebol e que me dão alento numa sociedade que implora urgentemente por mais exemplos assim.

É por isso que qualquer notícia a contar um trajeto humano desta dimensão pode abrir um telejornal.

E pronto, é isto, caro leitor. Espero que tenha valido a pena chegar até aqui. No pior dos cenários, foram apenas dez minutos perdidos.