As eleições presidenciais portuguesas de 2026 parecem destinadas a constituir a segunda exceção à regra histórica de o candidato vencedor triunfar à primeira volta. Não apenas pelo contexto de elevada fragmentação do voto, mas também pela incapacidade dos partidos em lançar figuras com notoriedade e aceitação pública suficientes para reunir uma base eleitoral que permita garantir a maioria absoluta à primeira. Como tal, o serão da primeira volta será marcado por curiosidades pouco habituais na nossa realidade, como a atenção a dar às orientações de voto dos candidatos derrotados para a segunda volta.

Estas declarações públicas de apoio são relevantes em dois planos. Primeiro, permitem uma clarificação ideológica dos diferentes candidatos e partidos, obrigados a posicionar-se perante duas opções que nem sempre lhes são evidentes. Esse exercício expõe, de forma nítida, onde residem as suas prioridades e limites, permitindo sinalizar ou afastar peremptoriamente alianças futuras. Por exemplo, a direita dita “moderada” costuma descartar declarar apoio a candidaturas à sua direita, preferindo muitas vezes um candidato de esquerda, algo que facilmente pode ser explorado pelos adversários da mesma tendência política. Já à esquerda, a dinâmica é diferente: existe maior abertura em apoiar candidatos de esquerda que defendem soluções de rutura. Em segundo lugar, oferecem uma referência de voto para o eleitorado que acaba de ficar órfão de um candidato, embora sem garantias de que este cumpra fielmente esse apelo. Basta recordar a segunda volta das eleições francesas em 2017 e 2022: apesar da instrução de Jean-Luc Mélenchon para “não dar um só voto a Marine Le Pen”, apenas cerca de 40% dos eleitores “insubmissos” optaram pelo voto em Macron, demonstrando os limites da transferência de voto entre candidatos.

É certo que os candidatos derrotados não são obrigados a comunicar indicações de voto. Contudo, apelar à abstenção ou optar pelo silêncio tende a ser percecionado como uma atitude pouco digna e pouco institucional, quase de retraimento do processo democrático. Além disso, ao indicar publicamente uma posição clara e firme, um candidato derrotado pode assumir o papel de “joker” do segundo sufrágio, uma influência difícil de ignorar. Se a maioria dos derrotados, acompanhados pelos respetivos aparelhos partidários, se unirem em torno de uma das duas candidaturas finalistas, é difícil imaginar que essa frente unida não exerça um peso determinante no resultado final.

Assim, pergunto-me que estratégias irão adotar, entre nós, os protagonistas derrotados na noite da primeira volta. Especulemos um pouco.

Ditando os resultados uma segunda volta entre Gouveia e Melo e António José Seguro, que orientações de voto dará o PSD e o próprio Marques Mendes, que não tem poupado nas críticas à impreparação do Almirante, mas cujo percurso político-partidário é diametralmente oposto ao de Seguro?

Num cenário de confronto entre Marques Mendes e Seguro, que posição assumiria a candidatura de Gouveia e Melo, que se escolheu apresentar aos portugueses convenientemente como se situando algures entre a social-democracia e o socialismo?

E se a segunda volta opuser Seguro a André Ventura, que escolhas fariam Marques Mendes e a liderança social-democrata, forçados a decidir entre uma candidatura do espaço socialista e outra de quem certamente não estarão ideologicamente mais distantes, mas de quem os considera como “o pior que o sistema tem”? E como descalçariam esta bota Cotrim de Figueiredo e a IL? Haveria algum candidato derrotado na primeira volta disposto a apelar publicamente ao voto no candidato apoiado pelo Chega?

Se a disputa final for entre Gouveia e Melo e Marques Mendes, que orientação de voto daria Seguro, que acusou o primeiro de querer atropelar a Constituição e o segundo de asfixiar a cidadania ao partidarizar eleições unipessoais? E o PS, cuja oligarquia tende a desprezá-lo, seguiria essa posição? E, no caso de nenhuma candidatura de esquerda se qualificar para a segunda volta, que indicações dariam Catarina Martins e António Filipe?

Uma coisa é certa: a noite eleitoral trará um suspense que transcende a contagem dos votos. Os candidatos afastados da corrida enfrentarão escolhas difíceis, conscientes de que os seus discursos não só irão influenciar o desfecho das eleições para Belém, como também poderão comprometer a sua imagem e a do partido que os sustenta para além das presidenciais. Quem não consegue antever um André Ventura (inevitavelmente) derrotado na segunda volta, a atirar eternamente à cara de dirigentes do PSD e IL acusações de terem apoiado um candidato à sua esquerda, recorrendo a slogans como “entendimentos entre partidos do sistema” e “defesa de lugares e interesses”? Por essa razão, Ventura surge como o único candidato para quem a ausência de apoio das forças políticas tradicionais poderá jogar a seu favor no futuro, permitindo reforçar a narrativa da oposição do Chega às elites políticas e estruturas de poder.