Um conjunto de amigos tem-me perguntado a opinião sobre para onde vai a universidade (se é que a minha opinião vale alguma coisa). Se ficamos no online e em trabalho remoto ou se voltamos ao presencial. Se continuamos a ensinar da forma que temos vindo a fazer – síncrona ou assíncrona online, vídeos, MOOCs (Massive Open Online Courses) e outros ou se, depois da pandemia, voltaremos à normalidade. Vou então estruturar a opinião em pontos.

1 Bom, quando nasceu a universidade?

A escola de escribas sumérios nasceu cerca de 3500 anos A.C.. A Academia de Platão, mais próxima do conceito atual de universidade, nasceu no ano 387 A.C.. A Universidade de Nalanda, Índia, de filósofos budistas, nasceu no século V D.C..  Nesta última eram já frequentes os currícula de filosofia, teologia, astronomia, matemática, alquimia e anatomia. Formalmente, a primeira universidade dita moderna e reconhecida pela UNESCO, como tal, foi a Universidade de Karueein fundada em Fez, Marrocos, em 859 D.C.. Em 1088 nasceu a Universidade de Bolonha, na Europa.

Dito isto, a universidade, como a conhecemos, tem pelo menos 1000 anos de existência.

2 E, já agora, o que é e para que serve a universidade?

A universidade é uma organização, é um sistema. E até agora aberto ao exterior e conectando pessoas, redes e criando ligações a outras escolas e universidades. Grande objetivo, minha opinião: fazer andar o mundo, tornando-o melhor. Não se trata apenas do conhecimento formal (e informal) ou da lecionação ou da investigação. Trata-se também de contacto humano, de rede (ou redes), de aproximação de grupos e pessoas, do estabelecimento de relações e de linhas de pensamento, de liberdade de criação e, diria eu, sobretudo de crescimento humano e de desenvolvimento de condições e perspetivas de vida melhores a todos os níveis.

3 O que ganhámos com a pandemia?

Ganhámos muitas coisas. Não as vou enumerar todas, obviamente. Mas pelo menos a noção de que somos adaptáveis e podemos, todos, lecionar a partir de qualquer lado e participar em aulas, literalmente, a partir de qualquer lugar. Um PC ou um telemóvel e uma ligação à rede são e podem ser os mínimos para lecionar e participar em aulas. A noção de que reuniões, júris, encontros, entre tantos outros, podem ser feitos online. A noção de que podemos continuar a crescer, a contribuir para o desenvolvimento de outros e da criação de espaços e linhas de pensamento e relações – não iguais às que estamos habituados mas, em todo o caso, relações. Finalmente e longe de esgotar o que podia ser dito, a noção de que somos muito mais criativos, todos, do que alguma vez pudemos supor.

4 Para onde vamos, universidade?

Há quem queira ficar em casa e continuar a perpetuar o que a pandemia nos trouxe de positivo. E trouxe. É legítimo, diria eu, mas isso não é a universidade. Há quem julgue que com um PC e uma ligação consegue desenvolver-se e desenvolver outros e criar igual riqueza àquela que criávamos se com relações presenciais, com proximidade física, com socialização. É legítimo, mas não é nem a universidade que se quer nem a verdade. Há quem julgue que o futuro da universidade está online. É legítimo e algumas universidades assim são, mas isto não é mais que um subproduto de uma universidade que considero ser ou querer ser a sério.

Não vamos, minha opinião, virar as universidades para os MOOCs (Massive Open Online Courses), nem vamos passar a viver de pílulas de e-learning ou de pequenos vídeos que substituam as aulas presenciais. Tudo isto pode ser complementar mas não é o core. Não é e não será.

Qualquer pessoa de bem que saiba o que é uma universidade e que tenha pelo menos visitado algumas pelo mundo fora saberá que há dinâmicas, redes, relações, proximidades, equipas, pensamentos e críticas e tanta coisas mais que se criam, apenas e só, com proximidade física.

Desengane-se, pois, quem acha que vai para o interior do país para ensinar em Lisboa. Desengane-se quem acha que vai viver como ermita para dar aulas na cidade do Porto, em Coimbra, em Guimarães ou Faro. Desengane-se quem acha que as relações físicas e próximas estarão comprometidas. E sim, estarão, enquanto a pandemia estiver ativa. E sim, algumas destas questões poderão ocorrer, mas apenas em tempo de pandemia. E não, a universidade que conhecemos não vai morrer com a pandemia e o online não vai tomar conta de tudo.

5 Porquê?

Porque para fazer andar o mundo, tornando-o melhor, as pessoas precisam de ser pessoas e de se desenvolver social e humanamente em espaços de proximidade física que ajudem e propiciem e instiguem o mundo a tornar-se melhor. Não há, e voltando à minha opinião, lugar a universidades (exceção para projetos pontuais) que sejam decentes e que contribuam, de facto, para o progresso sem que haja proximidade humana, sem que haja adjacência material, sem que haja relações pessoais, redes, partilha, risos, lágrimas, tudo isto de forma física, entre tantas outras coisas boas da vida.

Ou seja, se não há homem (a sério) que queira ser homem sem ser um ser social (ou contribuir para), da mesma forma, não há universidade que se proponha ser universidade a sério que não possa permitir a socialização próxima, humanização, risos, lágrimas, e bem assim o sentido partilhado das vitórias e das derrotas, os abraços, e tudo o que é real, enfim tudo o que o homem transporta enquanto homem e ser social e próximo de outros homens.

Tudo o resto pode durar enquanto dura a pandemia. Mas, de futuro, só há um tipo de universidade a sério (sublinho a exceção para projetos particulares): a universidade presencial com proximidade física e que permita expandir todo o potencial humano. Só assim, repito e sublinho, é possível fazer andar o mundo de forma sustentada, tornando-o melhor.

Disclaimer: Nada tenho contra o online e nada tenho contra a sua implementação em alguns casos onde não seja possível de outra forma. Mas esse não é, não será, o futuro a sério da universidade. Minha opinião.