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Talvez uma casa, enquanto organismo funcional, possa ser considerada um objeto simples. Mas o conceito de casa é algo muito mais complexo que não se restringe apenas ao espaço e ao físico. Mais do que um objeto com materialidade, a casa alcança uma dimensão superior, carregada de conexões afetivas ligadas a memórias, imagens e sonhos, cheia de passado, presente e futuro. A casa é também o local onde construímos e consolidamos grande parte das nossas relações pessoais e dos valores em que acreditamos.

A personalidade e a individualidade de cada pessoa são transportadas para a sua casa, que é muitas vezes idealizada e construída a partir do seu próprio imaginário. Muitas vezes não é possível intervir em termos da estrutura da casa, pois esta é uma consequência de muitas condicionantes, mas é sempre possível intervir no espaço interior, personalizando-o. A casa é a representação da identidade do seu habitante e estando o ser humano em constante desenvolvimento, a construção do seu lar nunca será um processo fechado. A casa desenvolve-se com a vivência do seu espaço.

Uma casa sem as condições mínimas de habitabilidade é um espaço onde as pessoas se fecham, onde se tendem a esconder, por vergonha, e onde não se sentem bem nem integradas na comunidade. Mas reconstruir uma casa e dar-lhe condições de habitabilidade não pode ser apenas uma questão logística e financeira. Pelo contrário, o que a experiência nos mostra é que os resultados são tanto melhores quanto mais as pessoas que nela habitam estiverem envolvidas no processo.

Um exemplo deste envolvimento pode ser observado no projeto que Alejandro Aravena desenvolveu no Chile, no início da década de 2010, e que constitui um dos maiores exemplos de habitação social e design participativo a nível mundial.

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Foi-lhe pedido para criar casas para 100 famílias que estavam a ocupar ilegalmente meio hectare no centro da cidade de Iquique, no Norte do Chile, com um orçamento de apenas 10 mil dólares por família. Esta verba incluía comprar o terreno, providenciar as infraestruturas e construir as casas que, no melhor dos casos, teriam 40 metros quadrados cada uma.

Devido à complexidade do projeto, foi decidido incluir as famílias na avaliação dos constrangimentos existentes, dando-se início a um processo de design participativo. Uma família de classe média vive razoavelmente em 80 metros quadrados, mas havendo restrições orçamentais, foi necessário reduzir o tamanho da casa para 40 metros quadrados.

Não sendo possível entregar casas maiores, nem evitar que as famílias crescessem com o passar do tempo, a solução encontrada foi efetuar um desenho habitacional que permitisse ampliações futuras, feitas pelas famílias, de uma forma controlada e ordenada.

Devido a restrições orçamentais, foi apenas possível construir metade de uma casa para cada família (uma unidade autónoma com cozinha, casa de banho, quarto e zona comum), acreditando-se que, à medida das necessidades e da melhoria das condições financeiras dos seus habitantes, estes iriam gradualmente construir a outra metade da casa (novos quartos, salas, etc.).

Estas eram, assim, casas flexíveis, com um design que era algo entre uma casa e um edifício, mas que precisavam do envolvimento dos seus habitantes para serem terminadas. Em vez de pensarem em 40 metros quadrados como uma casa pequena, as pessoas consideravam que esta área era apenas metade de uma boa casa, que seria concluída à sua medida, com o seu esforço e trabalho.

Este modelo já se encontra replicado noutras partes do mundo e, embora com diferentes designs, o princípio mantém-se: providenciar uma estrutura base e, a partir daí, fazer com que as famílias assumam a conclusão das suas casas. Isto não só permite que as pessoas possam personalizar as suas habitações, como também lhes dá responsabilidade para as terminar e cuidar.

Em Portugal, o envolvimento das pessoas na construção e reabilitação das suas casas é também uma preocupação das organizações que se dedicam ao combate à pobreza habitacional, como a Habitat for Humanity, a Housing First e a Just a Change.

Nos projetos de reabilitação realizados pela Associação Just a Change, cujo lema é “Reabilitamos Casas/Reconstruímos Vidas”, os beneficiários são envolvidos desde o início na reconstrução da sua casa – isto é, desde a fase de levantamento até ao final da execução. A responsabilidade que é dada aos beneficiários, tornando-os parte fundamental da solução, constituiu uma componente fundamental na sua transformação, aumentando a sua autoestima, satisfação e cuidado pela nova habitação.

Não se trata apenas de dar uma nova casa, mas da dinâmica gerada na própria reabilitação. É preciso educar: ensinar a cuidar, a estimar a casa. Muitas das casas que são reabilitadas pela Associação Just a Change não foram devidamente cuidadas e, por diversos motivos (depressão, exclusão social, alcoolismo, etc.), chegaram a um estado que não se explica só pela pobreza. Um estado de desarrumo, desleixo, sujidade, que acabam por ser uma reflexão dos problemas físicos e mentais que os seus habitantes atravessam. Deste modo, é fundamental o trabalho com psicólogos, assistentes sociais, de uma estratégia global que vai para além da casa, incluindo também os seus habitantes.

Uma arquitetura focada na reabilitação deve ter como filosofia envolver a comunidade no processo. Ir ao encontro das pessoas onde elas estão e não onde nós estamos, ou onde nós achamos que elas deveriam estar. Deve entender-se que o maior desafio é lidar com questões exteriores à arquitetura – como a pobreza, a poluição, o congestionamento, a segregação, o isolamento – e aplicar-lhes as melhores práticas disponíveis. Os projetos de habitação social com recurso a tipologias progressivas e desenho participativo têm mostrado resultados muito animadores e são um campo a explorar com imenso potencial em Portugal.

Que saibamos aproveitar todo o investimento que tem sido direcionado à habitação para melhorar a vida das pessoas como um todo, e não apenas a sua casa.

Sara Oom Sousa, 28 anos, é arquitecta no atelier VLMA. Em 2010, juntamente com cinco amigos, fundou a Just a Change, uma associação que combate a pobreza habitacional em Portugal através do voluntariado jovem. É também co-fundadora da marca de mobiliário portuguesa Fuschini e da Solo Ceramic (uma marca de cerâmica feita à mão). Juntou-se aos Global Shapers Lisbon Hub no final de 2019.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.