Por vezes não é fácil traçar a fronteira ideológica entre uma pessoa de direita e outra de esquerda. Pelo menos aqui, na nossa sociedade, muito pouca gente considera-se de extrema-esquerda ou de extrema-direita. Muitos consideram-se de centro-direita, centro-esquerda, ou do centro. Alguns consideram que a distinção ideológica entre direita e esquerda não faz sentido no século XXI e dizem-se nem de direita, nem de esquerda, nem do centro.

Tentando ser prático, vou considerar que uma pessoa de direita, que não é nem de extrema-direita nem do centro-direita, espécie em extinção entre nós, prefere a ideia da primazia do indivíduo na sociedade, rejeitando o coletivismo; valoriza as liberdades, nomeadamente de expressão e de imprensa, económica, individual e religiosa; ao invés de defender o igualitarismo, porque considera uma discriminação inaceitável tratar de forma igual o que é diferente, defende a igualdade de oportunidades; defende a existência de um Estado, porém com funções muito bem definidas e apenas na medida em que as suas intervenções gerarem benefícios superiores às desvantagens que causará, devendo o Estado ser forte onde deve atuar e inexistente onde não deve. O Estado deve administrar a justiça de forma célere e eficaz, cobrar impostos leves, garantir a segurança, promover a igualdade de oportunidades e a paz entre os povos, ser reformista e regulador, e pouco mais do que isto.

A primazia do indivíduo, abordada com distinção e com diferentes perspetivas desde o século XIX por escritores, filósofos, juristas e sociólogos tão prestigiados como Benjamin Constant, Émile Durkheim, Fiódor Dostoiévski, Max Weber, Søren Kierkegaard, está na base da abertura para a modernidade.

A liberdade é um valor que não se resume à ausência de totalitarismo. Liberdade é um termo vago para um conjunto de liberdades muito concretas. As liberdades só devem ser restringidas na medida em que a atuação irresponsável de um prejudique com alguma gravidade o outro.

A igualdade de oportunidades consiste na compensação dos indivíduos que, pela sua natureza ou origem, encontram-se diminuídos no acesso a uma vida digna, compensação essa que deve ser providenciada na medida das suas necessidades para a sua integração plena na vida em sociedade.

O papel do Estado é algo que deve ser ponderado, discutido e definido, em vez de ser cada vez mais presente em todos os aspetos da vida coletiva e até individual, como acontece atualmente.

Perante este quadro ideológico, talvez seja quase consensual que um indivíduo de direita pode ser um cidadão comum razoável e com bom senso.

O dilema que se coloca a um indivíduo com esta ideologia até 30 de janeiro é o seguinte: como votar? O Bloco de Esquerda, o Livre, o Partido Comunista Português e o Partido Socialista são partidos de esquerda. O Partido Ecologista “Os Verdes” e o Pessoas-Animais-Natureza têm comportamentos predominantemente de esquerda. O Partido Social Democrata, diz o seu líder, não é um partido de direita. O CDS – Partido Popular concorre, pelo menos numa parte dos círculos eleitorais, aliado ao tal partido que não é de direita, para além de conter na sua declaração de princípios a expressão “Abrindo-se a todos os democratas do centro-esquerda e do centro‑direita que se sintam solidários nas tarefas que será necessário levar a cabo para a construção de tal sociedade”, ou seja, auto rotula-se como um partido de centro. A Iniciativa Liberal é um partido que se assume como não sendo nem de direita nem de esquerda, havendo até dirigentes que se consideram liberais sociais, sendo na prática um partido de direita para uns assuntos e de esquerda para outros. O Chega é um partido de direita radical. A questão que se coloca ao direitista não radical é: o que sobra? Há alguma opção viável para um eleitor da direita não radical?