Coloquei os auriculares, numa tentativa de me abstrair do ruído lá de fora. Do outro lado, surgiu a voz de Sérgio Godinho. Numa coincidência, começava a tocar a música “Cuidado com as Imitações” – a história do Casimiro, um homem com olho, que desconfiava das promessas fáceis -, enquanto lia que o Presidente Trump prometeu cinco mil dólares a cada americano, caso o Partido Republicano vença as eleições intercalares de novembro e consiga aprovar legislação. Ora, não é preciso ser “Casimiro” para se desconfiar.  Enquanto a tensão se acumula na economia, as yields das obrigações do Tesouro a dez anos têm subido de forma persistente, arrastando consigo as taxas de juro dos empréstimos, num país onde a habitação já pesa desproporcionadamente no orçamento das famílias. A dívida federal, por seu lado, conta uma história que dispensa grandes análises: aproxima-se dos quarenta biliões de dólares, ou cerca de 125% do PIB. A despesa pública não pára de crescer, e nenhum dos dois partidos parece disposto a travá-la.

Historicamente, existem três formas de se sair de uma crise de dívida desta magnitude: inflacionar a moeda, subir impostos ou impor cortes severos na despesa. Nenhuma delas parece politicamente apetecível nos Estados Unidos.

Resta, como alguns têm sugerido, uma espécie de quarta via: crescer mais depressa do que se gasta. Para isso, Washington aposta na produtividade gerada pela inteligência artificial. Kevin Warsh, presidente da Reserva Federal, tem defendido que a IA será uma força desinflacionária, capaz de reduzir custos em larga escala, e que os EUA podem estar no limiar de um boom de produtividade. O raciocínio é sedutor, mas têm surgido avisos sérios, principalmente dentro da própria comunidade de inteligência artificial, sobre os perigos desta corrida e as suas consequências para a humanidade.

Os centros de dados, infraestrutura essencial para o avanço da inteligência artificial, tornaram-se também um dos temas centrais da atualidade americana. Enquanto Trump os defende sem reservas, vários americanos ficam cépticos perante os impactos ambientais que representam.

Por último, com as “midterms” à porta, os Republicanos correm o risco de perder poder no Congresso. Estas eleições são historicamente desfavoráveis ao partido no poder, sobretudo quando o presidente se encontra com índices de aprovação na casa dos 33 a 35%, como é o caso.

Resta pouco tempo a Trump para unir o partido e reconquistar o terreno perdido. Porém, independentemente dos resultados de novembro, como diz a música, não é preciso serem o Casimiro para não se deixarem enganar.