O espaço mediático em Portugal foi tomado de assalto. Hoje, por vários motivos e tragédias, ter pensamento crítico e debater ideias parece não ser bem-vindo. Se ousarmos pensar demasiado, fora do molde do “politicamente correto”, arriscamo-nos a ser rotulados com o libelo mais assustador para um verdadeiro democrata: o de “fascista”.
Tanto alguns políticos, como comentadores, socorrem-se frequentemente deste palavrão com peso histórico para fazer valer as suas posições. Fazem-no para prevenir, e até impossibilitar, o confronto de algumas ideias que fujam às boas correntes doutrinárias dos media (o exemplo mais recente é o debate sobre imigração). O problema está, essencialmente, na maneira como o termo foi esvaziado do seu significado original e transformado numa arma de arremesso contra todos aqueles que não partilham do iluminismo moral e ético desta classe de eruditos. É também a forma como misturam o imiscível no mesmo saco e colam o centro aos extremos.
Aliás, testemunhámos isso recentemente na sequência da operação policial no Martim Moniz (que, como qualquer outra situação, pode ser alvo de debate, crítica e escrutínio). Valeu de tudo: desde insinuações de que o Estado de direito foi comprometido até comparações à Alemanha Nazi. O objetivo era simples: quem com eles concorda é um guerreiro anti-fascista; quem deles discorda é uma espécie de Hitler embrionário, que representa uma ameaça à nossa forma de viver.
Quando se fala do fascismo muitos pensam em fardas militares, grandes desfiles coordenados, e suásticas. Contudo, é muito mais do que um conjunto de símbolos e adereços. Trata-se de um sistema político autoritário, marcado pela centralização do poder, pelo silenciar de opiniões divergentes e pelo despojamento de liberdades individuais (entre outras características). Este termo foi, graças à falta de bom-senso, diluído pela forma leviana como é usado.
Muitos dos que denunciam o fascismo em cada esquina parecem ser cegos às características totalitárias e repressivas das suas respetivas famílias políticas. O mais irónico é que, frequentemente, são estes autoproclamados antifascistas, donos do 25 de Abril, que adotam comportamentos semelhantes aos dos regimes totalitários. Vejamos: apoiam partidos com pouco ou nenhum debate interno; veneram regimes com democracias, no mínimo, duvidosas; quando (raramente) há transferência de poder interno, as sucessões na liderança são escolhidas a dedo. Tal como repetem a palavra “democracia” para enganar os mais desatentos aos seus comportamentos, assombram todos os verdadeiros democratas com o insulto de fascista.
Estas acusações fáceis e desconectadas da realidade não só empobrecem o debate político, como desrespeitam a memória das vítimas reais de regimes fascistas e totalitários. Não é sério comparar uma operação policial no Martim Moniz ao que aconteceu na Alemanha nazi. Há um ponto onde as hipérboles ultrapassam a desonestidade e se tornam uma afronta à História. O fascismo e o totalitarismo não podem ser banalizados por aqueles que procuram uma acusação fácil. Devem ser estudados para serem compreendidos e não repetidos.
Nos 50 anos do 25 de abril, que se pense na liberdade de ideias e de expressão, não só como direito absoluto, mas também como uma responsabilidade. Que se reflita sobre o passado, as suas vítimas, e as suas lições. Que os momentos mais negros da História sirvam de exemplo e não de fantasma para fazer política frouxa e enganadora.
Quem fala de Abril fala, sem medo, de Novembro. Não tenta monopolizar e chamar a si os louros de algo que é de todos: a liberdade. Democratas são aqueles que praticam a democracia, dentro e fora dos seus partidos. São os que debatem opiniões, respeitam divergências e convidam ao pluralismo. São aqueles que testam novas ideias e renovam lideranças quando necessário. São aqueles que podem não concordar com o que dizes, mas vão defender até à morte o teu direito de o dizer. E são as ações, e não as palavras desidratadas de significado, que definem o verdadeiro democrata.