Nos planos nacional e mundial vivemos hoje um tempo muito complexo com profundas divisões entre blocos de países e, não poucas vezes, nos próprios países individualmente como é o nosso caso. Divisões entre as democracias e as autocracias, divisões entre esquerdas e direitas, em que os extremos de ambos os lados da equação se afadigam em tornar os países ingovernáveis e de onde parece terem desaparecido as lideranças com alguma qualidade.

Para comparação, recuo aos tempos do após guerra de 1939-1945, quando a unidade na acção entre as democracias do Ocidente e do Oriente faziam o dia e quando a autocracia soviética se contentou então com os louros ganhos pela sua participação na vitória. Foi um tempo quando apenas três homens se juntaram para decidir o futuro do planeta, decididos a consolidar o método democrático vencedor da guerra e a construir uma paz para sempre. Não se contentaram apenas a decidir qual o futuro, mas decidiram também criar as instituições que pudessem garantir esse futuro, assim como os meios necessários. Foi um tempo a partir do qual nasceu a Organização das Nações Unidas, os Direitos Universais do Homem, o Tribunal de Nuremberga e o seu equivalente no Japão, ambos destinados a condenar os criminosos das duas guerras. Mais tarde, as democracias deram origem à NATO e ao Tribunal Penal Internacional, como a forma de prevenir que o mesmo pudesse repetir-se no futuro. Foi o tempo que deu origem na Europa à Organização do Carvão e do Aço, ponto de partida para a criação do que é hoje a União Europeia. Foi um tempo de visionários, portadores de um ideal capaz de olhar o futuro e de promover a paz e o progresso dos povos.

Foi também o tempo dos grandes estadistas, como Winston Churchill, Franklin Roosevelt, Charles de Gaulle, Conrad Adenauer, Robert Schumann e tantos outros que se seguiram e que mantiveram bem vivo o ideal democrático e a paz durante meio século.

Tudo isso mudou e vivemos hoje novas guerras provocadas pelos mesmos autocratas de sempre, com as democracias na defensiva e, principalmente, sem os equivalentes estadistas do passado. Pior, vivemos sob a ameaça da guerra nuclear e da possibilidade sempre presente de que um qualquer louco possa destruir o planeta em que vivemos. Um tempo em que os governantes se mostram incapazes de olhar o futuro e, por consequência, de prevenir as suas consequências, como é o caso das imigrações, da reforma do Concelho de Segurança da ONU, dos poderes financeiros sem controlo dos paraísos fiscais, a venda de armas e a existência de exércitos privados, além do aparecimento de grupos extremistas urbanos e religiosos.

São estas algumas das consequências da incapacidade dos governos em olharem o presente sem paixões e sem o desejo de vitórias vagas e se mostram incapazes de dialogar com a aceleração da mudança, a qual impõe uma visão educada sobre o futuro e a antecipação das suas consequências. O resultado desta realidade é particularmente doloroso e resulta da divisão introduzida por grupos e partidos extremistas da esquerda e da direita, que estão a colocar em risco a sobrevivência dos regimes democráticos.

Recordo um pequeno exemplo do final do século passado de olhar o futuro, quando previ com dois amigos as consequências das imigrações em direcção à Europa de povos desesperados, o que nos levou a apresentar uma comunicação ao XII congresso do PS, destinada à sua reapresentação  na Internacional Socialista, para a criação de um fundo universal de tornar a ONU independente do financiamento dos Estados, fundo destinado também ao investimento na educação e na saúde dos povos do Sul, com vista a criar as condições de fixação das populações nos seu países de origem O resultado foi apenas o de ter sido amplamente gozado pelos meu camaradas de criar a utopia de uma “Taxa Neto”, semelhante à então conhecida “Taxa Tobi.” Bem tentei explicar que uma utopia semelhante tinha sido criada por outros muitos anos antes de nós, com o objectivo de colocar em debate o fim da escravatura e com os bons resultados conhecidos. Recordando que as boas ideias levam o seu tempo a serem compreendidas. Infelizmente, de nada valeu e mal pensava então que António Guterres viria a ser Secretário-Geral das Nações Unidas, a quem, mais tarde, enviei uma carta com as mesmas propostas e com igual resultado.

Infelizmente, as imigrações são hoje um dos factores que mais contribuem para as divisões existentes nas sociedades europeia e americana e para o recente crescimento dos partidos da extrema-direita, desejosos da obtenção de poderes autocráticos, no que são muito ajudados pelas estratégias das extremas esquerdas de usar as instituições democráticas para criarem o caldo revolucionário que conduza a um ideal do tipo soviético.

Um bom exemplo fácil de conhecer passa-se na nossa própria Assembleia da República, onde os senhores deputados utilizam todo o seu tempo a atacar-se e a criar divisões, frequentemente pelas razões mais absurdas e mais ignorantes, quando os falsos interesses imediatos de todos os partidos se sobrepõem diariamente à governabilidade e, arrisco-me a dizer, aos mais profundos interesses do futuro do País.