Há alguns dias, numa espécie de tertúlia em que participo há muitos anos, o orador foi o José Ribeiro e Castro, que ali tratou o tema da desagregação que parece hoje caracterizar, de um modo geral, o nosso mundo. Notável orador, tratou muitíssimo bem o tema, que dividiu em três partes:

Começou por lembrar que vivemos num tempo de crise, que é hoje diversa mas permanentemente referida como crise económica, crise financeira, crise política, crise das instituições, crise de identidade, crise de valores, crise sanitária, crise ambiental, etc.

Explicou, depois, como daqui resulta a desagregação que hoje experimentamos no mundo, sobretudo a um nível político – nas ideias, nos códigos, nos discursos, nas condutas –, desagregação essa tanto mais estranha para quem viveu o anterior tempo de agregação que se seguiu à Segunda Guerra Mundial (com a criação da ONU, da NATO, da União europeia, etc.) e que este novo tempo parece querer destruir.

Analisou, por último, a luta que daqui resulta, extremada entre wokistas, de um lado, os quais pretendem levar esta desagregação cada vez mais para diante, para lá do fim definitivo desse tempo de agregação, e tradicionalistas ou nacionalistas, do outro, os quais pretendem levá-la cada vez mais para trás, até antes do próprio início desse mesmo tempo agregador.

Este pequeno resumo da intervenção de Ribeiro e Castro tem, para mim, a enorme vantagem de estabelecer corretamente a ordem dos fatores, contrariando, assim, uma opinião comum que parte das práticas e dos discursos extremados de wokistas e de tradicionalistas para depois explicar a desagregação, primeiro, e a crise, depois.

É da crise, portanto, que temos de partir para analisar este tempo em que vivemos. É o que aqui brevemente farei, tentando não só mostrar, primeiro, aquilo com que, por meio dela, se pretende romper, mas também, depois, aquilo que, por meio dela, de algum modo já se anuncia (a palavra crise, com efeito, deriva do grego krísis, que significa propriamente um juízo ou uma decisão, isto é, uma cisão relativa a algo, a qual, rompendo com o passado, abre diante de nós um caminho).

É importante dizer, ainda antes disso, que esta crise não é uma crise acidental ou passageira, à maneira de um ajuste numa trajetória que se mantém. É uma crise estrutural, que acontece na passagem de um tempo histórico longo para outro, à qual tem sempre correspondido, na História, um período de guerras terrível e prolongado. Deveríamos talvez hoje considerar, por isso, a hipótese de que aquele período agregador da segunda metade do século XX se constitui como uma interrupção significativa, mas extemporânea, de um período mais prolongado de guerra que se iniciou no início século XX e continua agora no século XXI. Voltarei mais à frente a este ponto.

À nossa primeira pergunta, entretanto, é fácil responder: esta crise é uma crise do Ocidente. Aquilo com que ela pretende romper, portanto é o Ocidente, o que, aliás, foi atempadamente visto e assinalado logo desde o início do século XX. Oswald Spengler, com efeito, publicou em 1918 e 1922, em dois volumes, o seu famoso livro A Decadência do Ocidente: Esboço de uma Morfologia da História, no qual se opõe a uma visão eurocêntrica da História e, consequentemente, à sua divisão em Idade Antiga, Medieval e Moderna. Para ele, de facto, a cultura ocidental estava na sua fase de declínio final, devendo agora surgir na História uma outra cultura ou culturas que originalmente se afirmassem e constituíssem como tal.

A compreensão desta decadência como crise coube depois a Edmund Husserl, que nos artigos que publicou na revista Kaizo, em 1923 e 1924, sobre a crise e a renovação da Europa, e sobretudo numa conferência que proferiu em Viena, em 1935, sobre A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia (à qual se seguiram depois outros escritos sobre este tema), afirmava claramente que esta crise provinha do sentido irracionalista (e, portanto, a-filosófico) que tinha sido seguido pela Europa por meio das ciências físicas e históricas e do consequente esquecimento ou desistência da sua missão teleológica profunda, que é a de realizar na História a ideia de Humanidade, por via, não de uma dominação, mas de uma universalização espiritual da razão.

Ao contrário de Spengler, portanto, Husserl acreditava na possibilidade de uma renovação europeia. Para renovar-se, porém, a Europa teria – ou terá – de se lembrar quem é. Ora, se há momento em que os europeus se podem pôr diante de si mesmos, olhando-se, é aquele seu início nas Guerras Médicas ou Greco-Persas, que entre cerca de 500 a. C. e 450 a. C. opuseram os persas, desde então símbolo das sociedades orientais, e os gregos, desde então símbolo das sociedades ocidentais.

O Oriente e o Ocidente, com efeito, enfrentaram-se – e separaram-se – aqui pela primeira vez. Ora, os persas, ou os orientais, no que diz respeito à organização das sociedades, tinham governos despóticos, cujo poder emanava diretamente da divindade para um só homem, o imperador, em relação ao qual todos os restantes homens eram servos ou escravos. Os gregos, ou os ocidentais, pelo contrário, organizavam as suas sociedades a partir de um princípio, não cosmológico nem teológico, mas antropológico, pelo que o poder emanava diretamente da razão para os governos, sendo, como tal, comunicável. O seu exercício, deste modo, deveria idealmente fazer-se por meio do discurso e do diálogo e todos os homens que participavam da razão eram ou, pelo menos, poderiam ser cidadãos.

Aquilo que constitui os gregos como princípio do Ocidente e da Europa, assim, é esta ideia de uma Humanidade aberta ao outro por via de uma razão espiritualmente universalizável, tendo sido justamente o esquecimento ou a desistência desta ideia, segundo Husserl, que desencadeou a atual crise do Ocidente, com a sua inexorável corrupção interna e o consequente aparecimento de uma ameaça imperialista ou despótica. A verdade, porém, é que em todas as anteriores épocas da História a Europa passou por estas mesmas duas fases de afirmação e de esquecimento de si mesma, pelo que temos de perguntar-nos porque é que o atual tempo de crise nos parece ser tão diferente dos anteriores períodos de crise estrutural da Europa.

Comecemos pela fase de afirmação. Os gregos, na verdade, ganharam a guerra. A Polis Grega, apesar de ser grega, impôs e desenvolveu ideias espiritualmente universalizáveis no que diz respeito ao governo das sociedades, as quais se encontram hoje presentes e vivas em quase todos os países do mundo. O mesmo se passou, porém, com todos os outros tipos ocidentais de sociedade que fomos experimentando depois dela, como abaixo resumidissimamente mostro:

Da Polis Grega, com efeito, temos as ideias de: (i) autarquia, isto é, a capacidade de se governar a si mesmo; (ii) razão, discurso e diálogo, aplicáveis à teoria (na metafísica e na ciência) e à prática (na ética e na política); e (iii) igualdade e cidadania, isto é, a possibilidade de participação de todos na organização da cidade.

Da República Romana temos as ideias de: (i) divisão de poderes, nomeadamente o poder dos cônsules, do senado e das assembleias e tribunos da plebe; (ii) direito natural, já não isolado ou em ilhas, como no caso das poleis gregas, mas continuamente presente no território; e (iii) cidadania, agora extensível a diversas gentes com diferentes religiões e culturas.

Da República Cristã temos as ideias de: (i) liberdade, embora ainda não política, mas enquanto resposta íntima e original dada por cada um, individualmente, diante da graça de Deus; (ii) duas espadas ou dois poderes, isto é, uma relação essencialmente diferenciada entre os poderes temporal ou político e espiritual ou religioso; e (iii) povo, enquanto origem do poder, pacto, por meio do qual o poder se constitui e se transfere, e limite do poder dos reis, decorrente daquele pacto instituidor originário.

Do Estado moderno, por fim, temos as ideias de: (i) autonomia, isto é, o governo de si mesmo a partir de si mesmo; (ii) democracia, enquanto único regime que é dado pelo direito natural; e (iii) soberania, definida, desde Jean Bodin, como o poder absoluto e perpétuo de uma República sem poder superior na ordem externa nem poder igual na ordem interna.

Cada uma destas épocas, na verdade, se constituiu a partir de novas ideias que foram surgindo por via das tentativas de adaptação e de transformação das ideias das épocas anteriores às novas condições impostas por uma realidade social e política diferente. Não se trata, portanto, de uma verdadeira rejeição das ideias anteriores, mas da sua síntese (como dirá Hegel) com uma nova realidade social, a qual transporta consigo a força das ideias anteriores. É decisivo ter isto em conta quando dizemos que o que está hoje em causa, ou em crise, na organização das nossas sociedades, são as ideias modernas de autonomia, que degenerou em individualismo, de democracia, que degenerou em populismo, e de soberania, que, tal como foi inicialmente definida, já não se aplica ao nosso tempo.

É importante notar, por outro lado, passando à fase de esquecimento, que se todas estas épocas começaram por uma afirmação feita em face de um inimigo externo, todas elas terminaram pela sua própria corrupção e pelo consequente esquecimento ou desistência de si mesmas em face de um inimigo interno, nomeadamente o despotismo ou o império. A Polis Grega, como vimos, teve como inimigo externo os persas; depois corrompeu-se e foi dominada pelo império de Alexandre. A República Romana teve como inimigo externo os restantes povos itálicos, que haveriam de estender-se até Cartago; depois corrompeu-se e o seu inimigo interno foi o Império. A República Cristã teve como inimigo externo os pagãos, na Europa, no Norte de África e em Jerusalém; depois corrompeu-se e teve como inimigo interno a luta entre as pretensões teocráticas dos papas e cesaropapistas dos imperadores. A Idade Moderna, por fim, teve como inimigo externo os turcos; depois corrompeu-se e teve como inimigo interno o absolutismo, primeiro, e o totalitarismo, depois.

O inimigo interno das sociedades ocidentais, deste modo, surge sempre sob a forma do imperialismo, o qual parece ser filho ou irmão do despotismo oriental. Se estendermos ao Ocidente a crítica que Marx fez ao capitalismo, ela parece-me, assim, ser certeira, ao dizer que o seu destino é o imperialismo, que certamente o levará ao colapso, teoria que, para os comunistas, foi confirmada pelas guerras do século XX, que agora parecem querer continuar. Falta ver, porém, porque é que para Hegel e para Marx, que são nisto seguidos por muitos autores nos nossos dias, esta crise, ao contrário das anteriores, constitui um fim da História. Tentarei mostrá-lo ao responder à nossa segunda pergunta: o que é que a atual crise nos permite já antever ou anuncia?

Começa hoje a ser possível, mais do que o era para Spengler ou para Husserl, vislumbrar por entre a crise aquilo que aí pode vir. Concretamente, com efeito, aquilo que antes de tudo aí vem – ou melhor, já aí está – é a possibilidade e mesmo a necessidade histórica de um reencontro original entre o Ocidente e o Oriente (termos que, é bom lembrá-lo, são relativos entre si). Eis o que torna esta crise diferente das anteriores. Porque este encontro ou reencontro, 2.500 anos depois, ainda que, numa primeira fase, pareça querer fazer-se apenas a Norte, far-se-á num mundo globalizado, no qual as fronteiras já não se identificam absoluta ou exclusivamente com os territórios dos Estados soberanos. Ora, isto implica não só uma recriação profunda da relação entre o Ocidente e o Oriente, mas também uma reinvenção da relação do Ocidente consigo mesmo, sentido que torna de algum modo inteligível o atual contexto político mundial.

Vejamos, em primeiro lugar, a estratégia norte-americana em relação à ordem internacional, cujo primeiro eixo é hoje a sua relação com a China, a partir da qual procura impor e construir um novo tipo de relação com a Rússia, primeiro, e com a Europa, depois. Por mais confusão que nos faça ver os Estados Unidos como amigos da Rússia e inimigos da Europa, a verdade é que a existência de um bloco sino-soviético representa para eles uma enorme ameaça no que diz respeito à sua relação com a China, ameaça que em nada seria para já contrariada por uma sua aliança com a União Europeia ou com a Europa. O que aqui importa perguntar, porém, é se, no âmbito da relação que os Estados Unidos têm tentado impor aos seus antigos aliados ocidentais (Canadá, Dinamarca, México, Panamá, Ucrânia, países europeus, União Europeia, Europa, etc.), poderá haver, para além de alguns aspetos económicos estratégicos, nomeadamente no Ártico, a tentativa de uma sua afirmação hegemónica enquanto Ocidente.

Esta pergunta é importante, porque, do ponto de vista das ideias que constituem a proposta espiritualmente universalizável das sociedades humanas historicamente feita pelo Ocidente, a América, na verdade, ainda não existe, pelo menos de um modo diferenciado. Spengler e Husserl, com efeito, nos livros que atrás citámos, referem-se sempre ao Ocidente enquanto englobando a Europa e os Estados Unidos da América, sendo que as ideias destes últimos são europeias e é somente a partir delas que eles podem substituir-se à Europa. Não sabemos, portanto, o que será o Ocidente americano, nem sequer se será Ocidente, num novo mundo global onde relativamente seremos o Oriente e o Ocidente uns dos outros. O mais provável, porém, é que num futuro quadro composto por dois blocos orientais e dois blocos ocidentais diferenciados, os dois primeiros sejam encabeçados pela China e pela Rússia e os outros dois pelos Estados Unidos e pela Europa. A América será então América, sem ser Europa; a Europa será então Europa, sem ser América; mas as duas serão Ocidente, agora de um modo concorrente ou partilhado.

Pode parecer, neste contexto, que a Europa parte em desvantagem, por ser a mais impreparada e indefinida dos quatro em relação ao atual momento de crise. O que é verdade. A ultrapassagem da crise, porém, consiste na criação de ideias novas que adaptem e transformem as ideias de autonomia, de democracia e de soberania no contexto da criação de uma nova ordem mundial, tarefa essa que caberá sobretudo à Europa, mais concretamente à União Europeia, justamente por ser, entre todos, atualmente a mais indefinida. A Europa, na verdade, terá ainda de afirmar-se a partir de um novo símbolo do poder e da ordem, que não poderá ser o Estado, como acontece nos Estados Unidos da América, nem a Federação, como acontece na Federação da Rússia, nem a República, como acontece na República Popular da China. Só a Europa, portanto, justamente por via da sua atual indefinição, será capaz de criar uma unidade política que permita imaginar e compreender uma nova ordem mundial, na qual seja possível combinar a autonomia com a influência do outro, a democracia com a globalização e a soberania com a partilha do poder.

Vale a pena aqui lembrar, aliás, o início da Idade Moderna, no qual, a partir da Península Ibérica, se procurou justamente restabelecer a relação entre o Ocidente e o Oriente. Aquilo de que, na verdade, tanto os portugueses como os espanhóis iam inicialmente à procura, era da China e do Japão. Não, porém, como inimigos, como era o caso dos muçulmanos, com que haveriam de encontrar-se e guerrear-se pelo caminho; mas como sociedades antigas e civilizadas, culturalmente fortes, importantes e respeitadas, com as quais se pretendia fazer comércio e estabelecer relações culturais. Ora, a grande surpresa, nesse percurso, foi justamente o descobrimento da América, com o qual se mudou radicalmente o sentido da viagem. Se quinhentos anos depois, contudo, chegou finalmente o tempo de o Ocidente e o Oriente se reencontrarem, poderemos muito bem pensar, para além da estratégia americana, como teria sido aquela viagem entre a Europa e a China se não tivesse havido – e mesmo não houvesse – América.

O novo ponto de partida, com efeito, parece ser hoje a construção da primeira Idade da História Global, na qual o Oriente, onde o poder nasce e se dá, e o Ocidente, para onde o poder se dirige e ganha sentido, terão agora de colaborar ativamente. Neste contexto, surgirão nos próximos tempos várias hipóteses de configuração do poder, de acordo com as afirmações de si mesmos que venham a ser feitas pelos líderes daqueles quatro blocos que parecem historicamente chamados a formar-se, nomeadamente a China, a Rússia, a América e a Europa. Estas afirmações serão certamente mais agressivas numa primeira fase, sobretudo a cargo da América e da Rússia, na qual o poder e o ideal não estarão ainda genericamente conformados. Paulatinamente, porém, a Europa e a China recomeçarão aquele seu antigo encontro, fazendo surgir, numa segunda fase, um tempo de agregação já de algum modo experimentado na segunda metade do século XX, agora adaptado e transformado às diferentes ideias e condições da nova ordem mundial.