Olhando para a evolução dos casos em Portugal, estamos a seguir o padrão exponencial da Itália. Se não aprendermos nada com os erros dos italianos estaremos condenados a ficar, a curto prazo, numa situação pior que a deles. Porque temos ainda menos recursos. Neste momento a prioridade das prioridades é combater o vírus, é dar todos os meios aos profissionais de saúde. Tomar conta da economia virá a seguir. Vamos ter, pelo menos, um ano muitíssimo difícil. Que pode ser de catástrofe.

O artigo que Jorge Buescu escreve é bastante elucidativo quanto ao que nos pode esperar. Um vírus, com um padrão de contágio exponencial, num país pouco organizado e sem meios na saúde, será devastador. Se não temos meios, como não temos nem o Governo fez nada para se antecipar na compra, e se queremos que o coronavírus provoque a menor destruição possível de vidas humanas, a limitação quase absoluta de movimentos, um “encerramento” à italiana já devia ter acontecido.

Percebe-se que o Governo queira tomar as medidas à medida que as pessoas compreendam que elas são necessárias. E, desse ponto de vista, está a consegui-lo. As limitações e decisões chegam quando já algumas empresas, entidades ou pessoas as praticam. Por exemplo, no caso do encerramento das escolas, o Governo decide quando já algumas escolas e universidades tinham decidido encerrar.

Será esta estratégia a mais eficaz para moderar o crescimento do vírus? Talvez não. Compreende-se e dá-nos segurança a mensagem do primeiro-ministro no fim de tarde de domingo. É racional tudo o que diz e conforta-nos, porque não queremos dar ao Estado demasiado poder. Estando as pessoas a cumprir voluntariamente as orientações dadas pelas autoridades sanitárias e policiais porque ir mais longe?  Serenidade e proporcionalidade é a regra geral.  Só que, neste caso, actuar em excesso, ser desproporcionado em relação ao que se vê, mas agindo de acordo com o que se adivinha, é capaz de ser mais aconselhável. São vidas humanas que estão em risco.

O encerramento das fronteiras sem qualquer coordenação europeia revela o outro lado desta crise: o “salve-se quem puder” em que a Europa parece querer entrar. Esperemos que o bom senso impere. As fronteiras que se poderiam fechar não são as políticas. Levando o disparate ao limite, o Alentejo devia proibir a entrada de pessoas, por não ter caso nenhum.

O que todos deviam fazer na UE era limitar os movimentos das pessoas ao estritamente necessário, exactamente como cada um está a fazer no seu país. Com essa regra não há fronteiras e atinge-se o mesmo objectivo. Recuperar a regra das fronteiras é um precedente grave no actual ambiente de tentações nacionalistas e protecionistas. O problema é que a Europa não parece conseguir cooperar.

Um caso como o do cruzeiro que, como não era permitido o desembarque em Lisboa, atracou em Cadiz e trouxe os turistas de autocarro seria impossível se Espanha tivesse a mesma proibição que Portugal. O que precisamos não é de fronteiras, mas de medidas iguais para todos, de cooperação, de uma União Europeia que funcione para além do Banco Central Europeu.

É impressionante como os bancos centrais se conseguem entender no fim-de-semana, numa acção concertada de injecção de dinheiro, e os governos não conseguem colocar de pé um conjunto de medidas que limitem a mobilidade das pessoas ao mínimo, nos países da União Europeia. Não podemos ficar admirados, em face disto, com o sucesso dos populismos de direita ou de esquerda. A mensagem subjacente é que para os mercados financeiros entendem-se, para moderar a contaminação das pessoas e salvar vidas humanas é cada um para o seu lado, quando sabem bem que isso não resulta.

Se as decisões recuadas do Governo em matéria de limitação da mobilidade podem perceber-se, mesmo que se discorde, já é muito difícil perceber o que se andou a fazer na área da Saúde. Depois do que se viu na China primeiro e depois em Itália, o Governo devia ter reforçado a linha SNS24 há mais tempo, devia ter comprado máscaras e equipamento de protecção dos profissionais de saúde e devia ter adquirido ventiladores. Só este domingo o SNS24 teve o reforço prometido e quanto ao resto esperemos que aconteça. Não se consegue perceber do que estiveram à espera para agora estarem sujeitos a não conseguirem comprar nada, face à escassez desses produtos e ao açambarcamento que alguns países estão a fazer.

Se na mensagem do primeiro-ministro encontra-se racionalidade, concordando ou não com ela, o mesmo não de pode dizer do que tem sido a actuação do Presidente da República que teve na comunicação ao país, que classificou como “pessoal”, o último episódio. Assistimos a uma gravação péssima, pelo que se via nas televisões, com o Presidente a falar sem que se conseguisse perceber bem o que dizia, acabando por não transmitir a mensagem de serenidade que se precisa neste momento.  O primeiro episódio foi ter sido testado para avaliar se estava contaminado, quando não tinha tido contacto com ninguém infectado, usando recursos que são escassos.

A situação que estamos a viver é grave e vai ser ainda mais grave. Depois do sofrimento que vamos ter pela passagem do vírus corona, que na realidade não sabemos a dimensão que terá nem o tempo que durará, enfrentaremos um país com a economia praticamente destruída. Tanto mais destruída quanto menos formos capazes de controlar a disseminação do vírus. E isso não depende apenas de cada um de nós, como nos querem fazer crer. Depende muito da capacidade dos serviços de saúde – que outras prioridades deixaram degradar e a desatenção, no mínimo, não equipou em devido tempo para o que estava a chegar – e de medidas mais duras na limitação dos movimentos das pessoas.

Este não é o tempo de olhar para as escolhas que o Governo fez no passado em relação ao dinheiro do Orçamento do Estado. Este é o tempo de o Governo fazer as melhores escolhas neste momento. As suas escolhas e as nossas determinarão a dimensão da destruição económica e o esforço que vamos ter de fazer para recuperar a economia. Porque as medidas até agora apresentadas para a economia não vão chegar. Aproximam-se tempos que nos podem recordar a era da troika como bons tempos, de tão maus que estes vão ser.

A prioridade das prioridades tem de ser sector da saúde e o apoio imediato ao rendimento das pessoas e empresas mais afectadas, ao mesmo tempo que se tomam medidas para moderar a velocidade de contágio do vírus, com a limitação de movimento, sem exageros. A seguir temos de recuperar a economia. Convém não desperdiçar medidas, sejam elas de contenção sejam económicas. Portugal vai ser seriamente afectado, estamos apenas no início da batalha.