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Em época de eleições presidenciais ouvimos cada coisa… Atrevo-me a dizer que é aí que as pessoas se revelam realmente. Não interessa se tiveram a mesma educação que nós, se foram nossos colegas de escola, se são nossos amigos, se têm a mesma religião… Os ideais não podiam ser mais diferentes.

Sei perfeitamente, que discutir política é o primeiro passo para perder amigos e que muitas vezes ouvimos opiniões que não gostamos, mas aqui vai a minha, ciente das repercussões que possa ter.

Falo como mulher que não é radical, mas estamos no século XXI! Podemos orgulhar-nos de ter uma vida e uma liberdade diferente das nossas avós. Podemos votar, trabalhar. Podemos ser empreendedoras, olhar para os nossos maridos com igualdade e, o melhor de tudo, eles podem ver-nos dessa mesma forma! O tempo em que ficávamos em casa a costurar e a cozinhar já era e, apesar de saber que muitos homens ainda não aceitam isso, vou, desta vez, focar-me nas mulheres.

É inaceitável que nos dias de hoje as mulheres se desprezem desta forma e que apoiem políticos que tenham esta mentalidade. Como assim, não podemos vestir o que quer que seja? Como assim, não nos podemos maquilhar como queremos? O nosso gosto reflete-se de alguma forma no nosso desempenho profissional? Porque se sim, adoraria saber em que circunstâncias é que tal acontece. Como assim, há mulheres que aceitam estas opiniões, que concordam com elas e, em vez de se insurgirem, até partilham as mesmas com as amigas? “Também, veem mal em tudo!”, “Com um decote daqueles? Claro que não pode ter um cargo político”, “Qual é o problema do que ele disse? Eu também acho que não é muito digno de uma profissional apresentar-se assim”. Há problema, e bem grande. O problema é que isto abre precedentes.

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A partir do momento em que nós, mulheres, achamos aceitável e nos sujeitamos a que alguém faça reparos quanto ao que vestimos ou usamos e que isso ponha em causa o nosso emprego, está tudo mal. Porquê? Porque custou muito às nossas avós chegar até aqui. Mas o pior é quando usamos esse trunfo para nos humilharmos e nos diminuirmos umas às outras. Devemos apoiar a evolução, não o início do retrocesso.

Volto a repetir: não sou fundamentalista, mas não fui educada desta forma. Tive sorte, é verdade, sempre vi os meus pais a funcionarem como uma equipa e não como presidente e vice, que só surge em caso de ausência. As conquistas de ambos eram igualmente celebradas e isso fez-me ter um orgulho imenso nos dois. Desde pequena que me ensinaram que somos todos iguais e que devemos ser todos tratados da mesma forma, mas obviamente isso não acontece, ainda para mais quando são as mulheres a humilhar-se e a pisar-se umas às outras. Ou, pior, quando são as mulheres as primeiras a assumir que são os homens que devem ter um papel preponderante na sociedade. A que custo? É este o exemplo que queremos dar aos nossos filhos?

Uma outra questão é o facto de muitas mulheres acharem completamente desnecessária a luta pela igualdade de direitos, uma vez que já consideram que essa mesma igualdade existe: “vocês, feministas, gostam sempre de vitimizar a mulher”, “eu estou ao mesmo nível do que qualquer homem”, “as oportunidades são as mesmas”. Não são e isso é grave. É grave, porque para além de uma demonstração  de ignorância e desinformação, demonstra sobretudo uma ideia machista enraizada. Enfatiza que nós, mulheres, gostamos de nos fazer de vítimas, de nos sentirmos menores do que os homens e que temos este complexo de inferioridade.

Volto a salientar que o papel masculino é importantíssimo, mas isso não significa que o nosso seja menor. Não sei que época é esta, onde as mulheres, em vez de se apoiarem, fazem de tudo para passarem despercebidas. Que termine rapidamente, por favor. Quero ensinar às minhas filhas que merecem tanto como os meus filhos e que as oportunidades não olham ao género.