Nas eleições autárquicas deste fim de semana, a política voltou a caber no nome próprio. Mais do que as retóricas partidárias e as lógicas de fação – que continuam a ter, ainda assim, o seu peso – os eleitores valorizaram os perfis dos candidatos, mostrando que a vitalidade da política feita em proximidade recompensa muito mais a marca pessoal do que a ideologia e as bandeiras partidárias.

O PSD fez um grande esforço por apresentar bons candidatos e, graças a isso, volta a mandar no poder local. Venceu em cidades adversas como Lisboa e Porto, recuperou Gaia, conquistou Sintra e manteve Braga (à tangente). Ganhos assim valem por dois. E se há vitórias que são importantes, por serem nas maiores metrópoles do país, outras há que valem pelo simbolismo: cidades como Guimarães, Beja ou Nazaré, há poucos anos conquistas que seriam impensáveis, hoje mostram-nos que já não há muros eleitorais eternos.

Os socialistas perderam a noite, mas José Luís Carneiro terá ido dormir satisfeito. O PS segurou alguns bastiões e travou a cavalgada local de um Chega que não foi capaz de repetir os resultados das legislativas. Pelo caminho, recuperou cidades importantes, como Coimbra, e ainda teve como bónus a cidade de Viseu, onde a recusa do PSD local se coligar com o CDS-PP e com a IL foi suficiente para abrir espaço para o resultado mais surpreendente do passado domingo. Acresce que algumas das vitórias eleitorais mais expressivas dos socialistas – como as de Ricardo Leão, em Loures, Ana Abrunhosa, em Coimbra, ou João Azevedo, em Viseu – tiveram na base a recusa de um discurso de aproximação da extrema-esquerda, antes assentando numa abordagem moderada e de grande escuta das populações locais. A esse título, vale a pena enfatizar que criou mais problemas a Pedro Duarte o posicionamento de Manuel Pizarro, que se candidatou sem o apoio do Bloco de Esquerda, CDU ou Livre, do que a flotilha liderada por Alexandra Leitão, que não conseguiu beliscar um Carlos Moedas a quem tudo parecia correr mal nos meses anteriores à eleição. Seguramente José Luís Carneiro preferiria ter ganho as duas principais cidades do país, mas as derrotas poderão, ironicamente, ajudar mais à sua liderança, a prazo.

O Chega, por seu lado, ficou prisioneiro das próprias metas. Prometeu dezenas de câmaras e ficou-se por três. Ainda assim, há que elogiar o esforço de mobilização que o partido fez, lançando para o combate as suas principais figuras. A verdade é que o Chega cresceu, ganhou câmaras, entrou em executivos, multiplicando por quatro o número de votos. A verdade também nos diz que a onda encolhe quando o boletim não diz “Ventura”, numa eleição onde, das figuras nacionais, apenas Rita Matias conseguiu resultados em linha com os votos em legislativas. O Chega está a ter as normais dores de crescimento e a sentir as dificuldades de quem ainda não se enraizou no país, sendo muito mais voz de protesto, mas há que dizer que a estratégia é claramente ambiciosa e bem estruturada, mostrando que há uma visão de longo prazo que explica os resultados eleitorais mais recentes.

Foi com gosto que vi o CDS manter todas as câmaras que detinha e ainda somar mais uma, que liderou em coligação. O CDS reforça ainda o seu peso nas coligações que fez com PSD e IL, onde negociou posições de relevo na governação das maiores cidades. Em presidências, é o quarto partido. Entre o renascimento e o canto do cisne, por agora ficou provado: o CDS está vivo e recomenda-se. Logo veremos se o partido recupera ou se está apenas a ter o seu último sopro de vida, o que é certo é que a certidão de óbito que muitos passaram ao partido está a revelar-se bastante prematura.

Inversamente, a CDU prossegue, na linha do materialismo histórico, a sua superação dialética rumo ao desaparecimento. A perda de relevância tem sido persistente e aparentemente irreversível. Nesta eleição, mais uma vez a CDU perdeu terreno, perdeu câmaras-chave, confirmando a sua lenta agonia. A antiga máquina local já não é infalível, sendo os resultados dos comunistas o óbvio espelho da decadência política e social da sua mensagem, que nem o bom resultado de João Ferreira, em Lisboa consegue disfarçar.

Perante a queda da CDU, a Iniciativa Liberal decidiu ocupar o lugar tradicionalmente reservado aos comunistas na hora de cantar “vitória”.  Mariana Leitão, sorridente, garantiu que o partido atingiu todos os objetivos. A frase é factualmente verdadeira, mas esquece de nos avisar que a fasquia colocada foi baixíssima. Acresce que o crescimento da IL assenta, sobretudo, nas prebendas mal negociadas das coligações em que participou. É certo que elegeu os primeiros vereadores em listas próprias e somou lugares em executivos partilhados. E onde apresentou nomes fortes (Braga, Castelo Branco), ultrapassou os dois dígitos. No grosso do país, porém, abundam resultados muitas vezes abaixo dos 2%. Ao contrário do Chega, que se declarou derrotado por ter sonhado alto, a IL canta vitória porque definiu para si uma ambição que tornará os liberais relevantes algures por volta de 2143, quando a Pátria festejar mil anos de existência.

Em relação ao Bloco de Esquerda e ao Livre, pouco há a dizer, porque a sua participação autárquica mostrou a sua atual inexistência. E se no caso do BE, tal deverá ser a confirmação de que o partido estará próximo da falência (algo fácil de percecionar, quando a mensagem mais disruptiva que o BE conseguiu apresentar nestas eleições vem de um candidato no Porto que criticou a “francesinha”), no caso do Livre, só o tempo nos revelará se há ou não espaço para afirmação do partido fora das grandes malhas urbanas.

As eleições de domingo mostraram-nos algo que há muito deveria ser claro para todos: os partidos já não são donos dos seus votos. Os eleitores premeiam cada vez mais trabalho e rostos (Isaltino Morais que o diga). Quem se reforça, joga; quem confia no crachá, fica na bancada, a festejar alegremente vitórias que não são as suas.