Estamos em fase de mitigação desde o dia 26/03/2020, a terceira e mais grave fase de resposta à doença Covid19. Segundo a DGS, nesta fase está preconizado que “os doentes ligeiros ficam em casa, os moderados vão aos centros de saúde, os graves, mas não críticos, são encaminhados para os hospitais e os críticos são internados. Centros de saúde e hospitais terão de dispor de áreas dedicadas à doença covid-19.

Nos hospitais com serviços de pediatria, «poderá ser adequado a reorganização dos serviços» para «dedicar unidades hospitalares exclusivamente ao tratamento de doentes com Covid-19 em idade pediátrica, após ser esgotada a capacidade de resposta dos hospitais de referência identificados para o tratamento dos doentes Covid-19 em idade pediátrica».

Em Janeiro de 2020, antes do Covid-19 surgir em Portugal, lancei em conjunto com um colega uma Petição pelo reconhecimento da Profissão como sendo de Desgaste Rápido e de Alto Risco. Essa petição atingiu cerca de 15000 assinaturas em menos de 5 dias, e como tal foi encerrada e entregue na Assembleia da República.

Em Fevereiro, fomos ouvidos com interesse em comissão Parlamentar na Assembleia da República.

Em Março surgiu o Covid-19 em Portugal e como tal todas as iniciativas ficaram suspensas na Assembleia da República.

Serve o presente artigo para relembrar alguns conceitos que foram defendidos com a Petição e para compreender com esta Pandemia o porquê de os Enfermeiros serem de uma vez por todas reconhecidos oficialmente como profissão de Desgaste Rápido e Alto Risco.

Com esta Pandemia depressa se percebeu que de entre os vários profissionais de Saúde, os Enfermeiros encontram-se na linha da frente. Foram estes os escolhidos para trabalhar num momento em que se pede ao país para se parar… foram estes os escolhidos para se cancelarem férias, apresentarem-se todos ao serviço e defender honrosamente um país numa guerra invisível que tende a prolongar-se por muitos meses.

Foram os escolhidos para realizar turnos de 12 horas, muitas das vezes espelhados, em família de forma a se fazer em 15 dias os turnos que deveriam ser realizados durante 1 mês.

É também a estes que se pede agora que se deixem as crianças em escolas desconhecidas, em famílias onde ambos os pais são profissionais de saúde, por exemplo.

É ainda a estes profissionais que se pede para se lutar contra uma guerra altamente contagiante sem equipamentos de proteção individual ou com uma grave deficiência nos mesmos. Alguém conhece alguma guerra que se tenha travado sem armas ? As armas dos Enfermeiros são os Equipamentos de Proteção Individual… não nos retirem também estas, por favor…

Começou por dizer-se que existiam 30 profissionais de Saúde infectados, sendo que 18 deles eram médicos. Uma semana depois foi referido que Portugal tinha 165 profissionais de saúde infectados, dos quais 82 eram médicos e 37 eram Enfermeiros. Constatou-se um crescimento de ​135 casos em 7 dias​.

Foi referido que cerca de 750 profissionais de saúde já se encontram infectados, com um valor percentual de 14% dos casos totais contabilizados. Desta vez já não foram diferenciadas as classes profissionais.

Hoje (30/03/2020) sabe-se que estão 853 profissionais de saúde infectados, dos quais 209 são médicos e 177 são Enfermeiros.

O que sabemos atualmente é que em 4 dias houve um aumento de 585 casos nos profissionais de Saúde… e que ​nos últimos 2 dias houve um aumento de 103 casos​… e este é um dado preocupante, a um ritmo altamente preocupante também.

Seguindo a corrente Europeia, e como em todas as guerras, sabe-se de antemão que existirão perdas no futuro, que muitos profissionais ficarão infectados, doentes, e quiçá acabarão também por falecer, como já em tantos outros casos se sucedeu.

São os Enfermeiros da VMER que vão buscar doentes instáveis em primeira instância aos locais. São os Enfermeiros dos Serviços de Urgência que fazem triagem aos doentes suspeitos de COVID São os Enfermeiros do Serviço de Urgência que lidam com os doentes suspeitos e confirmados de COVID São os Enfermeiros do Serviço de Urgência que realizam testes de Covid-19, lidam e acondicionam amostras biológicas. São os Enfermeiros do Serviço de Urgência que numa primeira abordagem realizam técnicas invasivas necessárias ou colocam dispositivos de ventilação invasiva ou não invasiva… estando na primeira linha da abordagem da via aérea. São também os Enfermeiros dos internamentos que lidam com os doentes infectados com COVID São os Enfermeiros dos Cuidados Intensivos que lidam com o doente ventilado e não ventilado, no seu estadio mais grave e dependente. São ainda os Enfermeiros dos Cuidados de Saúde Primários que nesta fase realizam testes e lidam com doentes suspeitos e infectados com COVID São os Enfermeiros dos Lares que têm que assegurar os cuidados aos doentes infectados até serem evacuados para os respectivos sítios.

De uma forma geral, TODOS os Enfermeiros neste momento estão mobilizados em todas as valências para lidar com o doente com COVID e aqui se encontra um mínimo múltiplo comum — ​É NECESSÁRIO EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL PARA O FAZER​.

Mas a petição que foi criada em Janeiro não foi criada a pensar no Covid-19 … esta pandemia neste momento só serviu para se compreender a necessidade urgente de definir a Profissão dos Enfermeiros como profissão de Desgaste Rápido e Alto Risco.

Assim, de forma sucinta volto a recordar a necessidade do reconhecimento deste estatuto na profissão pelos seguintes motivos:

  • Os Enfermeiros trabalham com citoestáticos
  • Existem acidentes comprovados com agulhas e outros materiais pontiagudos;
  • A tuberculose é uma doença profissional reconhecida e os riscos inerentes a lidar com esta patologia estão comprovados;
  • Existem outros riscos biológicos na profissão, tais como ​hepatite A, giardia, shigela, campilobacter, enterovírus e rotavírus, citomegalovirus, varicela, rubéola e o parvovírus B19, bem como resistências bacterianas;
  • Radiações ionizantes e não ionizantes estão presentes na profissão e são um factor contributivo para o alto risco profissional;
  • Stress, Bullying, Violência, Burnout, Alterações cronobiológicas e Alterações cronobiológicas associadas à nutrição são elementos intimamente associados e comprovados cientificamente na profissão;
  • Existem variadas alergias associadas ao contexto profissional (por exemplo aos materiais das luvas, aos desinfectantes, entre outros);
  • Estão comprovadas as lesões musculo esqueléticas no exercício profissional;
  • Sabe-se que as dotações não são seguras na maioria dos serviços, contribuindo para um alto risco de vida dos doentes.

De uma forma genérica e sucinta é referido na petição que “Somos uma profissão que obriga a um elevado nível de foco e concentração e a lidar diariamente com uma elevada responsabilidade, a responsabilidade de lidar com vidas humanas… o stress de lidar com a doença, o nascimento, o envelhecimento e a própria morte! A pressão de trabalhar em contexto de emergência, urgência, cuidados intensivos, bloco operatório… onde a linha que separa a vida da morte muitas vezes não existe e o stress torna-se brutal! Mas é também no contexto dos cuidados de saúde primários, onde a prevenção e a atuação têm que ser uma constante que os Enfermeiros se sentem pressionados a dar o seu melhor… os cuidados continuados e os internamentos hospitalares são ainda valências onde se lida diariamente com a morte… em suma…

Os Enfermeiros trabalham sem dúvida alguma em stress… e a Pressão e o cansaço aumentam os riscos de erro na medicação e limitam a própria prestação de cuidados. Desenvolvemos atividades cujas condições de trabalho são precárias e cuja remuneração pode e deve ser atualmente considerada baixa, podendo induzir-se assim um forte desgaste emocional. Somos uma profissão de grau de complexidade 3, mas presentemente o ordenado mínimo já é superior a metade do nosso vencimento mensal! Temos um horário de trabalho preenchido, trabalhando sob forma de turnos, diurnos e noturnos com consequências além de emocionais, também elas físicas.

Trabalhamos em condições de trabalho adversas: trabalhamos por turnos, trabalhamos muitas vezes de noite para dormir de seguida de dia, sem padrão de sono regular. Muitas das vezes somos poucos… o absentismo aumentou exponencialmente na profissão e com ele a necessidade de seguir turno fazendo se muitas vezes turnos consecutivos de 16 horas aumentando a carga horária e a insatisfação profissional… Sabe-se ainda que os Enfermeiros são os profissionais mais agredidos no setor da Saúde bem como 60,2% já foram agredidos fisicamente e 95,6% verbalmente no seu local de trabalho.”

Esta é a máxima que levou à criação da petição e esta é também a máxima que não pode ser negligenciada ou esquecida com o tempo…

Estamos em guerra… lutamos contra um inimigo desconhecido. Somos valorizados e reconhecidos pela população, não sabemos o futuro, mas sabemos que no final de toda esta batalha, quando a situação acalmar e tivermos contabilizado as perdas… não pedimos palmas e cumprimentos… dispensamos notas de louvor publicadas em Diário da República… pedimos apenas o reconhecimento da Profissão como de Desgaste Rápido e de Alto Risco.