É manifesto que todos aqueles que, de forma imparcial, acompanham a política norte-americana conhecem bem a capacidade de Donald Trump para influenciar a opinião pública através de agendas premeditadas de populismo, segregação e polarização, com o intuito de obter dividendos políticos e, desse modo, consolidar a sua posição como estadista. É igualmente evidente que se trata de uma figura atípica e invulgar, no sentido negativo do termo: um político marcado pela polarização, pelo radicalismo e pela arrogância. Ainda assim, mobiliza estes atributos, de forma ardilosa, para atrair o eleitorado americano sob o lema “Make America Great Again” (MAGA), conseguindo fazê-lo com assinalável eficácia.
Sob esta máxima de “tornar a América novamente grande”, Trump tem resvalado, de forma infundada, para posições que suscitam sérias interrogações quanto ao respeito pela Constituição dos Estados Unidos, procurando, assim, reforçar e impor a sua agenda política. Ao longo de uma presidência conturbada, implementou inúmeras políticas – tanto a nível interno como internacional – que, em larga medida, ultrapassaram aquilo que o mais arguto analista político poderia antecipar. Excedeu limites políticos e institucionais, bem como princípios básicos de bom senso e de convivência saudável entre os Estados da comunidade internacional, recorrendo a uma prática governativa assente na intimidação, na coação, no nacionalismo e no revanchismo.
Por conseguinte, neste percurso de crescente radicalização, dificilmente se anteciparia que pudesse arrogar-se uma dimensão de natureza divina. Nunca imaginei que ultrapassasse de tal forma os limites do domínio espiritual ao ponto de se representar publicamente como o Todo-Poderoso Deus, sobretudo considerando que se assume como cristão. No entanto, foi precisamente isso que ocorreu. A imagem que publicou recentemente na sua conta oficial na plataforma Truth Social – alegadamente gerada por inteligência artificial –, na qual se apresenta equiparado ao Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, a Deus, ultrapassa todos os limites do bom senso e da razoabilidade.
Não é a primeira vez que Trump recorre a uma retórica que o aproxima de uma figura providencial. Em diversas ocasiões, apresentou-se como instrumento de uma missão superior, destinado a restaurar valores e a “salvar” a nação. Esse discurso encontrou eco em sectores significativos da comunidade cristã norte-americana, que nele viram um defensor de princípios tradicionais. Ainda assim, a passagem de uma retórica messiânica para uma representação visual que sugere equivalência com o divino marca um ponto de rutura.
Todos os cristãos reconhecem que o Senhor Jesus Cristo é Deus (Jo 1:1). Assim, qualquer pessoa que, na sua soberba, se faça passar por Deus comete uma blasfémia grave, passível de condenação (Lv 24:16). Com efeito, é por meio de Jesus Cristo que “foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por Ele e para Ele”, como afirma o apóstolo Paulo (Cl 1:16), razão pela qual Ele é “o nosso grande Deus e Salvador” (Tt 2:13).
Considero que o presidente Donald Trump tem conhecimento desta verdade bíblico-teológica; ainda assim, movido pela soberba, coloca-se ao nível de Deus, insinuando-se como salvador do mundo – papel que, segundo a fé cristã, pertence exclusivamente a Jesus Cristo (Jo 3:16; At 4:12; 1 Tm 1:15).
Apesar da evidente falsidade dessa pretensão, apresentou-se como alguém enviado por Deus para restabelecer a ordem nos Estados Unidos e no mundo. Talvez por isso, e por diversas circunstâncias, muitos cristãos americanos se tenham deixado influenciar por esse discurso, na medida em que afirmava defender valores tradicionais cristãos que, alegadamente, teriam sido abandonados por administrações anteriores. Ainda assim, poucos – ou nenhuns – imaginariam que chegaria ao ponto de se equiparar a Deus. Contudo, dominado por um orgulho exacerbado e por uma postura autoritária, acabou por revelar a verdadeira dimensão dessa pretensão.
Donald Trump não foi o primeiro, nem será o último, a arrogar-se uma condição divina. As Escrituras Sagradas relatam diversos casos de homens que, julgando-se poderosos, se elevaram ao nível de Deus, como o rei Nabucodonosor II (Dn 4:30-33), o faraó do Egipto (Ex 5:2) e Herodes Agripa I (At 12:21-23). Todos foram severamente punidos por essa blasfémia, conforme relatam os textos sagrados.
Entre estes exemplos, apenas o rei Nabucodonosor II foi poupado à morte, ainda que tenha sido profundamente humilhado, isto é, “foi afastado dos homens, passou a comer erva como os bois, o seu corpo foi molhado pelo orvalho do céu, até lhe crescer o cabelo como as penas da águia e as unhas como as das aves” (Dn 4:33). Permaneceu nesse estado até reconhecer a sua insignificância perante Deus, sendo então restaurado. O próprio Nabucodonosor declarou: “louvo, exalto e glorifico o Rei do céu, porque todas as suas obras são verdadeiras e os seus caminhos justos; e pode humilhar os que andam na soberba” (Dn 4:37).
Espero, sinceramente, que o presidente Donald Trump não venha a ter o mesmo destino trágico das figuras supramencionadas e que reconheça publicamente o seu grave erro, procurando o perdão divino. Só assim poderá alcançar o verdadeiro perdão de Deus; caso contrário, terá de responder por esta blasfémia, pois “horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10:31).