Há dias dei por mim a ouvir um podcast, uma conversa aparentemente inofensiva sobre medicina estética, que me pôs a pensar. Entre entusiasmo com botox, preenchimentos e lasers começou a falar-se do papel da medicina estética na saúde mental das pessoas. Confesso que o meu primeiro impulso foi parar o episódio (apesar de este até nem ser dos piores sobre este tema, longe disso), mas, como psiquiatra que já viveu o suficiente para saber que o mundo não é preto e branco, continuei a ouvir. Afinal, as nuances são coisas escassas no discurso contemporâneo, embora seja com elas que trabalho diariamente, com o sofrimento emocional de pessoas reais, que não se medem em simples “antes e depois”.
Sim, é verdade que em alguns casos a medicina estética pode aliviar o sofrimento psíquico. Já escrevi, enquanto médica psiquiatra na Alemanha, um parecer a favor de uma cirurgia para uma paciente que, depois de uma perda de peso drástica, sofria com o excesso de pele abdominal ao ponto de se sentir impedida de ter intimidade. O impacto na sua autoestima e vida emocional era significativo. Neste caso, o procedimento não era um capricho nem fruto de uma doença mental, era sim uma necessidade. Mas não é com estes casos que me preocupo. O que me assusta, e o que parece estar a escapar à consciência coletiva, é a escalada astronómica e desenfreada de intervenções estéticas que estão a ser vendidas como sendo “equivalentes” a saúde mental, quando muitas vezes são apenas “pensos rápidos” para problemas emocionais e psicológicos profundos.
Um “folhear” da literatura médica (há vários artigos, por exemplo, na revista Aesthetic Surgery Journal Open Forum, para quem se interessar) mostra-nos que os procedimentos estéticos podem trazer melhorias no bem-estar psicológico, mas os resultados não são universalmente positivos. Em certos casos podem até agravar distúrbios já existentes, como depressão, ansiedade ou dismorfia corporal. Ou seja, é erróneo acreditar no marketing da medicina estética como panaceia para os nossos males.
Vivemos numa sociedade que nos empurra constantemente para a “melhoria”, seja ela física, emocional ou espiritual. O corpo, em particular, tornou-se uma espécie de projeto em constante fase de otimização. A medicina estética continua esta tradição contemporânea prometendo mudar tudo (ou quase tudo) o que se quiser, desde que haja dinheiro e coragem de aguentar a dor ou sangrar um pouco. O problema é que, quando a autoestima é instável, qualquer “melhoria” torna-se apenas num novo patamar de autocrítica. Hoje corrige-se o nariz, amanhã é o contorno mandibular que já não parece tão simétrico. Afinal, se há possibilidade de melhorar, por que não fazê-lo? Esta espiral acaba com culpa, frustração e, muitas vezes, um sofrimento psicológico ainda maior: a sensação de nunca ser o suficiente.
A medicina estética, se desregulada nos seus princípios éticos, corre o risco de se tornar um ritual moderno de purificação, onde tentamos exorcizar a insegurança, a solidão ou a falta de amor-próprio através de seringas de ácido e lasers de última geração. Não, não sou contra a medicina estética. Sou, sim, contra a ideia de que o seu uso deve ser rotineiro, normalizado e até incentivado como substituto da verdadeira saúde mental, que é um processo complexo, que precisa de tempo e não é de todo linear e, por isso, é mais difícil de “vender” com estratégias de sale e marketing virais. Uma das consequências mais tristes desta tendência é a homogeneização progressiva das pessoas. Estamos a apagar as assinaturas únicas que nos tornam humanos.
A questão de ética não pode ser posta de lado. Médicos e “profissionais de estética” (que algumas vezes não têm quaisquer qualificações para fazer o que fazem e, volta e meia, aparecem nas notícias depois de fazerem lipoaspirações e injeções num vão de escada) que colocam o ganho financeiro acima do dever de cuidarem dos seus pacientes são a parte mais vergonhosa de tudo isto. Quando se anestesia a ética, a falta de competência para aplicar anestesia local parece um detalhe técnico menor.
Importa também falar do modelo de saúde mental que esta lógica estética promove, um modelo que é baseado no alívio rápido, na resolução visível, na validação externa. É a antítese da psicoterapia, onde muitas vezes o processo é invisível, os ganhos são internos, e o resultado final é menos “glow up” e mais “sentir paz na própria pele”. A pergunta que devíamos estar a fazer não é se a medicina estética melhora a saúde mental, mas sim por que estamos tão dispostos a acreditar que tem de melhorar. O que é que isto diz sobre o nosso desconforto com o envelhecimento, a diferença, o corpo real? Sobre a nossa intolerância e impaciência crescente com a imperfeição, em nós e nos outros? Se me sinto ansiosa? Preencho. Se me sinto insegura? Harmonizo. Se me sinto invisível? Volumizo. É uma rampa deslizante que poucos querem reconhecer.
A verdadeira saúde mental não se constrói em consultórios de medicina estética, por mais agradáveis e in que estes sejam. Constrói-se com tempo, relação humana, confronto com o que dói, aceitação do que não se pode mudar e mudança daquilo que pode (e se quer!) mudar. De dentro para fora. Celebrar a diferença, a rugosidade, a não-simetria, é hoje um ato de resistência. Uma aposta, quase romântica, na ideia de que sermos únicos, em vez de perfeitos, ainda é desejável. E que a nossa alma não tem um filtro nem precisa de uma harmonização facial.
Há um tipo de beleza que não se perde com o tempo, nem precisa de manutenção trimestral. É a que nasce de habitar plenamente aquilo que já somos com todas as suas histórias e imperfeições. Afinal se a felicidade fosse medida em mililitros de ácido hialurónico, já viveríamos todos num paraíso emocional.
Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.
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