Os europeus , que depois de duas grandes ´guerras civis´ com efeitos planetários têm vivido um longo período de paz e prosperidade sob a proteção do guarda-chuva com as conhecidas estrelas e listras, não parecem ainda conscientes, na sua esmagadora maioria, de que a (excecional) situação bélica nos anos 90 nas Balcãs – após a dissolução da Jugoslávia de Tito – durante a qual nunca se sentiu o perigo de uma eventual projeção conflitual ao resto do continente -, difere substancialmente do contexto do conflito russo-ucraniano em curso: nas palavras duras e firmes recentemente proferidas por um alto dirigente militar francês , volta a ser atual a potencial morte de soldados de países da Aliança que venham eventualmente a participar no teatro de eventuais operações militares em defesa da martirizada Ucrânia. E numa perspetiva eminentemente política, o mesmo cenário foi indiretamente referido pelo Secretário-Geral da OTAN que, sem ambiguidades diplomáticas, disse em relação à ofensiva russa:  «nós somos o seu próximo objetivo» («next target»).

A Rússia, desta vez, e em comparação com o surto de violência da última década do passado século no Sudeste do continente, não só participa direta e brutalmente como potência interveniente numa situação bélica em chão europeu, como tudo parece indicar que os EUA não venham a estar interessados em continuar a oferecer o seu contributo a médio-prazo ao país beligerante invadido por decisão de Putin em total desprezo pelas regras internacionais em vigor quanto à inviolabilidade das fronteiras de um país soberano reconhecido pela comunidade internacional.

A anterior realidade russo-norte americana, que se caracterizou essencialmente por  uma séria divergência ideológica entre Moscovo e Washington ,ou, a título meramente circunstancial e efémero, por uma ousada aproximação entre o Ocidente e a Rússia-  recordemos os anos de Reagan e Gorbatchev, a criação na OTAN de um mecanismo permanente de consulta exclusivamente concebido para viabilizar uma quase-intimidade institucional com Moscovo, a participação de Putin em reuniões no Grupo informal dos 7 (que matematicamente passou a G8) –  , estará conhecendo neste final de 2025 – atente-se ao novo plano estratégico de segurança norte-americano – , uma etapa de grande transformação qualificativa  que é acompanhada por uma confessada hostilidade da administração americana no respeitante aos seus clássicos aliados liberais europeus.

A costumada linguagem de marcada prudência dos USA relativamente a Moscovo, tende aparentemente a ser substituída por uma postura de entendimento e cooperação mútua – em simultâneo com uma vontade de que essa ´bonne entente` não venha a ser interrompida ou sequer incomodada por uma Europa que, tanto a Rússia como os EUA desejariam ver , em última instância, redesenhada segundo as suas fronteiras nacionais, ou seja,  remetida a uma relativa insignificância enquanto player no tabuleiro de xadrez planetário. A esta visão, é legítimo acrescentar-se, ainda e igualmente, pelo menos no plano teórico, uma outra curiosidade geopolítica: tendo em vista a menção explicita, no tal documento estratégico, do Hemisfério ocidental como área do interesse direto de Washington, somos de imediato seduzidos, não obstante todas as diferenças, pela ideia de uma possível inspiração retirada da filosofia das zonas de influência defendida e concretizada em Ialta.

Paralelamente, os Estados Unidos deixariam cair no lixo da história todas as preocupações de tipo ético até agora inerentes ao seu agir enquanto primeira potência mundial e ´de farol no alto da montanha`- segundo a célebre fórmula da ex-Secretária de Estado, Madeleine Allbright.

Naturalmente, e para além da retórica, há que atentar não só na imprevisibilidade do atual morador na Casa Branca, como na sua capacidade em vir a passar, com sucesso, o teste de popularidade das eleições intercalares que se aproximam: este volte-face brusco de Trump no capítulo das relações internacionais é certamente facilitado pela situação confortável de que os republicanos gozam neste momento no Congresso, mas inclusive no interior do GOP ( ou do que resta dele) há vozes discordantes que poderão vir a aumentar na próxima reconfiguração das 2 câmaras. E porventura aconteceria, nesse caso de figura, uma qualquer alteração, talvez substantiva, (também) na política externa.

Obviamente, haverá igualmente e sempre nuances na prossecução das diversas tarefas conducentes à imposição de uma nova ordem internacional agora necessariamente mais indefinida e conjuntural, além de que um outro fator maior no quadro geral das relações internacionais virá inevitavelmente pesar no futuro do planeta e na consequente e indispensável reavaliação : a República Popular da China. Sem ela, nada de importante e decisivo será resolvido.

Do ponto de vista europeu, manda o bom-senso reconhecer o acerto de algumas das críticas americanas, malgrado a forma como o desenvolto Presidente as expressou, e retirar desde já uma conclusão: com a atual administração norte-americana, a Europa perdeu a sua vantagem relativa sobre os demais países e espaços do planeta, que se baseava numa íntima comunidade de valores e princípios que, a montante, tudo regia. No presente, e segundo a ótica expressa no mencionado plano estratégico, seremos agora e sobretudo, um continente em decadência, e só uma conversão profunda nos salvará enquanto entidade económico-comercial e militar: esta opinião catastrofista não surpreende, já que faz parte do modus operandi do morador na Casa Branca, a paredes-meias com os superlativos que não dispensa sobre as suas próprias ações enquanto líder do país mais poderoso do planeta. Mas saibamos reter contudo a porção de verdade que a repreensão contem.

Por outro lado e inversamente, é evidente o dislate da administração norte-americana quando se arroga o direito de aconselhar paternalisticamente algumas democracias europeias a alterar o curso das suas políticas: esse abuso é tanto menos   aceitável quanto Trump advoga que, para a cura de tantos males, se venha a seguir a pertinente prescrição de alguns movimentos político-partidários de matriz  anti-europeia cujos membros são calorosamente recebidos em visitas aos EUA. A este propósito, destaco em especial a simpatia e apoio oferecido à germânica AFD tanto a nível oficial (Vance em Munique, em Janeiro passado), como privado (Elon Musk, em diversas ocasiões), devido à especial situação deste Partido no universo político-partidário alemão: encontra-se na mira dos serviços secretos alemães devido à sua comprovada intimidade com o poder instalado no Kremlin.

É claramente uma hora grave, aquela que os 27 e a  solidária Grã-Bretanha experimentam nestas vésperas de 2026 :  a intensidade das reuniões que se tem vindo a registar, a propósito do destino da Ucrânia, entre alguns dos líderes dos  mais poderosos e populosos membros da União Europeia, espelha limpidamente a urgência de manifestação de uma unida vontade de responder ao desafio norte-americano, aceitando nomeadamente o repto de um mais repartido esforço coletivo adentro da Aliança Atlântica: é um primeiro passo.

Depois, falta tudo o resto, e é muito. Mas nunca esquecendo que a Europa, mesmo com todas as suas deficiências, e quer agrade ou não ao presidente dos EUA, continua a ser, além de um lugar onde apetece viver, o segundo mais poderoso espaço económico da Terra. É por isso, afinal, que se mantém como o local onde tantos refugiados e emigrantes desejam chegar. Como sucede com os USA.