1 Foi um exercício delicado, levar alguns dias a escrever sobre a História recente com a embaraçante impressão de que muito poucos conhecerão essa História, perceberão o que conto, ou se interessarão sobre o que evoco. Falo sobre Francisco Sá Carneiro, no ano em que se cumprem 40 anos sobre a sua morte, a poucos dias da data do seu aniversário natalício, e escrevi a convite da “Brotéria”, para a próxima publicação da revista. Mas escrevi embalada pela estranheza. No plural: a estranheza de, falando sobre algo que me foi muito próximo – quase íntimo, de tão vivido profissionalmente no meu quotidiano -, ter como destinatária uma plateia que se teme semi-esquecida, ou se antevê semi-desinteressada. A estranheza mais embaraçante ainda, de eu estar a rever algo que essa mesma plateia tenderá a “ler” como pouco tendo a ver hoje, em 2020, com o que é evocado sobre o “ontem” da década de 70, do século passado. E afinal… não só tem mais a ver do que suspeita, como ela deve muita coisa a Sá Carneiro. Não foi só Mário Soares que trouxe a liberdade, o Estado de Direito, o modelo de democracia onde vivemos, a Europa. Foi essencialmente Soares, mas foi também Sá Carneiro. Não posso, seriamente, evocar mais nenhum outro líder civil com a mesma decisiva importância nesses tempos de guerra e não terá sido por acaso que cada um deles, a seu modo e em seu lugar, iniciou essa guerra antes de Abril de 1974. Nenhum esperou pela data, nem que os militares lhe abrissem a porta.

Sá Carneiro, portanto: vale a pena voltar a falar dele, na impossibilidade de lhe agradecer a sua parte de responsabilidade no modo como vivemos.

E, finalmente, a última estranheza: mesmo militando eu contra os que “choram sobre o leite derramado” e não me costumando pendurar no passado, confesso a mais triste das estranhezas: a da comparação com a política produzida nesses anos e os infectados dias que correm. Não, não falo da infecção Covid, falo do vírus que parece ter atacado -mortalmente? – a política que hoje se faz, o modo como se faz e com quem se faz. Chega-se à deprimente conclusão de como, apesar do tumulto e das chamas daqueles anos iniciais da liberdade, a política era inteiramente compatível com a coragem, a frontalidade, o combate, a palavra, a vontade, a verdade. Com a decência, por outras palavras.

Mas isso talvez já sejam outras histórias. Hoje fico-me pela estranheza. No plural.

2 Um deleite. Intelectual, político, civilizacional. Deleite português (e será aí que quero chegar). Foram horas diante do computador, com a curiosidade acesa e o interesse avivado, ouvindo as palavras escolhidas para recordar José Cutileiro. Escolhidas para que melhor se encaixassem, melhor se aproximassem, mais luz despejassem sobre um merecedor de luz como ele era (e haverá, certamente, poucas coisas tão jubilosas quanto lidar com as palavras). A iniciativa era partilhada pelo Instituto de Defesa Nacional (IDN) e o Instituto Diplomático, (ID),  que assim honrava um dos seus mais invulgares servidores, e a ideia partiu, se não estou em erro, de Ricardo Alexandre, jornalista da TSF, que durante anos conversou semanalmente com o embaixador Cutileiro sobre o Mundo e a vida e não se esqueceu do que ouviu. Não se podia deixar José Cutileiro morrer de vez, em Portugal morre-se sempre de vez.

3 Foi dentro dos acanhados quadradinhos dos ecrãs onde hoje nos confinamos (e provamos que existimos), que os homenageadores deixaram a memória correr ao encontro do homenageado: o Ministro dos Negócios Estrangeiros e quatro embaixadores lembraram o “diplomata” (o painel foi moderado com a particular, aguda, subtileza de que o embaixador Freitas Ferraz parece ter o segredo);  académicos, governantes e intelectuais evocaram o “estratega”, conduzidos pela professora Helena Carreiras, directora do IDN;  Isabel Lucas conversou com gente das letras, conhecedores e habitués do “intelectual” que escrevia sempre bem (o seu penúltimo livro, Abril e outras Transições – Dom Quixote -,  sobre o qual trocámos, ele e eu, deliciosa correspondência electrónica, é uma pequena obra prima).

Felizmente, a ninguém ocorreu escolher se Cutileiro brilhou mais como intelectual, serviu melhor como diplomata, ou foi mais indispensável como estratega. Importava reter, mais do que escolher, e foi nesse sentido que falei em deleite. O deleite de ouvir um naipe de eleitos (a lista é, hélas, demasiado longa) radiografar um cavalheiro que decompunha o seu próprio génio e depois o utilizava com a mesma inteira e intacta aplicação nas tão diversas vidas e missões com que a vida o interpelou (ou deveria dizer o brindou?).  O deleite, enfim, do que se foi ouvindo. E por isso, apenas duas breves notas: uma sobre Manuel Lobo Antunes, nosso actual representante em Londres, cuja evocação me tocou especialmente: a aguarela que pintou de José Cutileiro expôs, num mesmo traço, a tonalidade delicada do sentimento e as cores graves da razão (não era qualquer um, mas falamos de um Lobo Antunes). A outra para Carlos Gaspar, que se “ocupou” do fino, lucidíssimo estratega que foi Cutileiro. A sua análise, porventura nunca antes assim exposta – a influência da visão estratégica de “estrangeirados” como Cutileiro, Cunha Rego, Manuel Lucena, Medeiros Ferreira, Pulido Valente no (bom) rumo do país a caminho de uma democracia pluripartidária, ocidental, integrada na Nato e na União Europeia – mereceria segundo episódio, isto é, bem-vindos desenvolvimentos: pelo contributo ainda pouco, digamos, manuseado para a leitura da História recente, o interesse que esta tese suscita e quem sabe, a controvérsia que suscitará.

4 Se tudo isto foi bom de ouvir, se a ideia se aplaude e a iniciativa se louva, à medida, porém, que a jornada escorria, uma estranheza – outra! –  meio constrangida ia tomando conta do ecrã e perturbando o meu entendimento: que Portugal era aquele que, de repente, tanto destoava do que nos servem nos telejornais? E que não “cabia” no exausto e exaustivo perímetro onde se agitam, omnipresentes, as nossas “autoridades” e os seus vexatórios faux-pas? Dará certamente que pensar esta coexistência, difícil de definir e ainda mais de explicar.

Com esta, já eram duas estranhezas que afinal eram tristezas. Para um só dia, havia pelo menos uma a mais.

P.S.: O aeroporto da capital está transformado num covil de bandidos e no lugar mais temível de Lisboa?  Após a história obscena do assassínio de um ucraniano, ainda mal contada e nunca esclarecida, agora há também ladrões à solta? Com ambos – bandidos e ladrões – fardados?