Impossível não voltarmos à lendária música da telenovela “Gabriela”, quando ouvimos Joacine Katar Moreira declarar publicamente que nasceu para estar no Parlamento. Estranha declaração, esta.

Gabriela, a inesquecível Gabriela, aparecia diariamente nos écrans sempre ao som da mesma música: “eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim”. Agora o mantra parece aplicar-se também a Joacine.

Na personagem que Sónia Braga encarnou, o refrão sublinhava a sua originalidade, a sua inclinação natural para ser insubmissa, selvagem, provocadora e sensual. No caso de Joacine ficar-me-ia pela insubmissão e pela provocação, pois nem o palco político-partidário se presta a devaneios românticos, nem a assistência espera grande sensualidade da parte dos políticos.

Espera, isso sim, coerência, verticalidade, transparência, espírito de serviço e sentido de missão. E muito trabalho, claro, um trabalho árduo e constante na defesa dos valores e dos princípios nos quais os eleitores puseram toda a sua confiança e em função dos quais deram o seu voto. Tudo isto com desapego ao poder.

E é aqui que nos despedimos de Gabriela e a deixamos ficar num passado que só volta na memória de quem a lembra.

Joacine, não sendo atriz nem personagem de novela, consegue ser e parecer uma coisa e outra. Ou as duas ao mesmo tempo. Se, por um lado, a sua atitude insubmissa e provocadora desperta consciências e amplifica vozes de quem, porventura, sente que não é ouvido, por outro lado o facto de usar e abusar do estilo, faz dela uma atriz de novela.

A prova é o folhetim que inaugurou nos media e redes sociais mal pôs os pés na Assembleia da República. Ela, que foi eleita por um partido (embora prefira achar que não) e ganhou palco, visibilidade e microfone para dar voz a quem votou nesse mesmo partido, passou a usá-los de forma desconexa e por vezes incompreensível. Fez-se ouvir e fez-se notar, mas nem sempre pelos melhores motivos.

Abstraindo da performance pessoal do seu porta-voz, que desfilou ao seu lado no dia inaugural, chamando também ele, e para ele, todas as atenções, as cenas que se desenrolaram nos écrans das nossas televisões e gadgets pessoais foram de novela barata, daquelas que apostam em poucos cenários e em apenas uma ou duas personagens principais que vivem do diálogo e do ‘diz que disse’.

Joacine deixou de ser a mulher que ao longo da campanha eleitoral se mostrou livre de complexos, desassombrada, entusiasta, apostada em desfazer preconceitos, em construir uma sociedade mais aberta e inclusiva e, ainda, em acrescentar valor à política e aos cidadãos, para ficar refém de um papel que não lhe assenta. A sua ira, a sua inacessibilidade, a sua presunção, a sua mania da perseguição, as suas acusações constantes e a atitude negativa com que passou a apresentar-se transformaram-na numa personagem que continua a captar as atenções, mas agora num palco transformado em arena de leões, daquelas em que a assistência gosta de ver sangue, feridos e mortos.

De um dia para o outro as conversas mudaram e as expectativas também. Dentro e fora do partido, de norte a sul do país (continente e ilhas) as pessoas focaram a sua atenção no desfecho de cada cena. E Joacine aproveitou mal este protagonismo e este super foco sobre a sua ação. Achou que a sua pessoa é que interessava e passou a falar de si e por si. De tal forma que inventou para si mesma a ideia de que foi eleita apenas por ser quem é.

Sabemos que em política tudo é efémero e a memória é curta, mas os eleitores não são parvos e não gostam que os façam passar por tal. E Joacine ilude-se mais uma vez quando insiste que está acima do partido e vale mais que o partido. Usa agora o derradeiro argumento dos eleitores que confiaram nela, para vir proclamar que estes não lhe perdoariam por “não estar onde deve estar” (referindo-se ao seu assento parlamentar), mas está redondamente enganada, porque entre os votantes do Livre são muitos os que passaram a vê-la como usurpadora e não como legítima representante dos seus interesses e dos valores do partido.

É pena que Joacine tenha desperdiçado uma oportunidade de ouro para se fazer ouvir e para dar voz àqueles que realmente precisariam da sua voz. É pena que esteja tão agarrada ao poder (agora muito relativo) de ser deputada. É pena que não tenha parado para ouvir os que confiaram nela. É pena que tenha ficado obsessivamente focada em si mesma. É pena que tenha gritado da maneira como gritou. É pena que não tenha sabido gerir prazos e timings. É pena que não tenha sabido manter a calma suficiente para esclarecer o que devia ter esclarecido. É pena que tenha ficado tantas vezes indisponível e zangada. É pena que permaneça na Assembleia da República como deputada não inscrita, em vez de pôr o lugar à disposição do Livre, partido pelo qual foi eleita.

Finalmente, é uma pena que alguém acredite que nasceu para estar no Parlamento porque uma crença desta natureza, enraizada no pensamento e na ação, limita a liberdade, reduz a margem de manobra a qualquer um e não augura nada de bom a ninguém.