De uma forma simples, na linguagem corrente, paciente é um adjetivo que se refere ao indivíduo que tem paciência ou, do ponto de vista clínico, ao que está doente e/ou sob cuidados clínicos. Neste texto vou concentrar-me mais na segunda dimensão, mas tendo sempre em conta a primeira.
Genericamente diz-se que uma pessoa é paciente, que tem paciência, se evidencia a serenidade e a tranquilidade como virtudes fortes. E é caracterizada genericamente por ser calma, saber esperar e perseverar com maturidade as suas atitudes.
Para os mais dramáticos na apreciação da vida, “paciência é o que faz suportar com resignação a maldade, as injúrias, as importunações, com perseverança e constância”. O significado de Paciência na Bíblia envolve também muito os conceitos de resistência, perseverança, bondade e condescendência.
Mas é no significado de “paciente” para pessoa doente ou em cuidados de saúde que me irei concentrar tendo em conta que, para alem da falta de saúde, um doente/paciente é alguém que tem de ter muita paciência quando confrontado com o relacionamento humano com cuidadores (médicos e enfermeiros em especial), com os sistemas de tratamento e acompanhamento por familiares e amigos numa Sociedade como aquela em que vivemos e com serviços de saúde a prestar cuidados muitas vezes de forma pouco efetiva.
No enquadramento social, político, económico, mas também cultural, em que vivemos neste conturbado século XXI, o cidadão (paciente) está sempre no centro do discurso e/ou diálogo no que toca a saúde e bem-estar, dando num País como Portugal muito lugar à famosa frase “a saúde é o nosso maior bem”. E que até é constitucionalmente bem enquadrada.
Por outro lado, a própria Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afeções e enfermidades”. Mas, “bem vistas as coisas”, a realidade fica muitas vezes longe do que é comunicado, feito e sobretudo das perceções que ficam.
Em nenhuma destas referências de enquadramento macro, a paciência comum e a condição de paciente em saúde são explicitadas como de “fusão permanente” no mundo em que vivemos. Um Mundo de exigências mais do que só necessidades e preferências. E de relações, mais do que só utilidade e valor, em termos genéricos no particular da saúde e bem-estar.
Há alguns anos estudei muito o tema “comportamento do consumidor” e ao longo dos anos sempre procurei manter-me atualizado relativamente ao seu desenvolvimento de uma forma holística na era das tecnologias (mas também do vazio…). E procurei fazê-lo de forma muito aplicada à área da saúde e bem-estar. Com uma conclusão que me é clara: temos de ser cada vez mais pacientes sobretudo quanto “pacientes/doentes”.
Mesmo com o muito “digital” a marcar os comportamentos, a verdade é que a paciência na generalidade, e na saúde em especial, enfrentam novos desafios, mas também muito necessidade do “back to basics” focada na dimensão “acesso” e “qualidade” dois cuidados.
E é aqui que pode arrumar-se objetivamente o declinar do titulo deste texto, sumariando muitas leituras que tenho feito e debates em que tenho participado (muitas delas de Ordens Profissionais da Saúde e Associações de doentes) dando continuidade ao conteúdo do meu anterior texto neste jornal ,“Reformar a quanto obriga” (em saúde):
O Sistema Nacional de Saúde (com o Serviço Nacional de Saúde no centro de muita impaciência individual e coletiva) depois da pandemia vivida, requer muita paciência exigente para ser melhorado à luz do princípio “o doente no centro do sistema”.
Porque necessariamente é preciso ajustar a dose de paciência sistémica a partir do “paciente” em quatro grandes áreas ou eixos de atuação (paciente se quisermos):
- A participação do doente e dos seus apoios familiares e sociais, no processo técnico e relacional nos momentos de diagnóstico, tratamento e acompanhamento clínico e social, é cada vez mais crítica e mandatória.
- O sistema de relacionamento/interação dos pacientes com todos os elementos de contacto em cada momento assistencial (médicos, enfermeiros, farmacêuticos, técnicos de saúde vários, assistentes técnicos e administrativos) precisa ser crescentemente sincronizado. Neste domínio vale a pena ter em conta o conteúdo de uma excelente publicação/livro da Ordem dos médicos no final de 2019 – A relação médico-doente.
- O conjunto de suportes físicos (instalações, equipamentos, sistemas de interação com o paciente) necessita de permanentes investimentos e manutenção cuidada.
- A visão integrada e holística do sistema de aferição da qualidade de vida e do bem-estar pelos vetores da qualidade técnica e comportamental de uma prestação de cuidados de saúde baseados no valor para o doente necessita de ser mais monitorizada e pedagogicamente orientada em sede de literacia em saúde.
E, de uma forma muito sintética, que cada um dos atores nos processos assistenciais “pacientemente” tenha sempre presente que há limites para a paciência.
Mesmo na aceção Bíblica do que é ser Paciente.