A pergunta que se impõe é de uma brutal simplicidade: a UE quer ser apenas consumidora da revolução tecnológica alheia, ou vai finalmente reivindicar um papel de liderança?

O discurso de Mario Draghi (18 Fev) no Parlamento Europeu não foi apenas uma constatação da decadência competitiva da Europa. Foi um grito de alerta. Um daqueles momentos raros em que o realismo brutal se alia a um apelo inequívoco à ação. A premissa de Draghi é clara: o tempo está contra nós. A cada dia que passa, a fronteira tecnológica afasta-se. No setor da IA, por exemplo, a Europa praticamente não existe: 8 dos 10 maiores LLM’s foram desenvolvidos nos Estados Unidos, os outros dois na China. E o problema não é só a inovação, é o que está em jogo com esta dependência tecnológica: soberania, segurança e relevância geopolítica.

Uma Europa Atraente para a Inovação ou um Museu Regulamentado?

Draghi apontou o que muitos já sabem, mas poucos têm coragem de admitir: a Europa não é um espaço competitivo para inovação. A fatura energética continua insustentável, os preços da eletricidade são duas a três vezes superiores aos dos EUA. Os custos de cumprimento regulatório sufocam a criação de novas empresas, e a fragmentação do mercado interno transforma a União Europeia num arquipélago económico, quando deveria ser um continente de oportunidades. Se há um momento para cortar a burocracia, é agora. O peso das barreiras internas, segundo estimativa do FMI, equivale a uma tarifa de 45% sobre a indústria transformadora e a uma tarifa de 110% sobre os serviços dentro da própria União. Num mundo de guerras comerciais, a UE não precisa de inimigos externos porque, como bem notou Draghi, “somos muitas vezes o nosso pior inimigo.”

O Desafio Energético: A Europa Não Pode Continuar Refém

A energia é o combustível da inovação e do crescimento. E a Europa continua refém da sua própria inação. O exemplo recente dos preços da eletricidade na Alemanha (dispararam mais de 10x) é uma metáfora perfeita para a crise energética do continente: dependência excessiva de fontes intermitentes, falta de coordenação na infraestrutura e preços proibitivos que afugentam investidores e indústrias. O problema não é apenas técnico, é político. Sem energia barata e abundante, não há reindustrialização. Sem reindustrialização, não há autonomia estratégica. Sem autonomia estratégica, a Europa será sempre um peão no tabuleiro global.

Investir ou Estagnar: O Que Falta Para uma Revolução Europeia?

Os números apresentados por Draghi são avassaladores. A Europa precisa de 750 a 800 mil milhões de euros por ano em investimento para recuperar a sua competitividade. E não é por falta de capital, é por falta de confiança. As poupanças europeias continuam a fluir para fora do continente porque os investidores não encontram oportunidades suficientemente atrativas aqui. Os entraves vão desde um mercado financeiro fragmentado até regulamentações que penalizam quem quer crescer. O Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR), por exemplo, aumentou os custos das empresas em 20%. Enquanto os EUA e a China financiam ativamente a revolução da IA, a Europa está ocupada a debater cláusulas e subcláusulas de proteção de dados, muitas delas desenhadas sem qualquer visão estratégica.

Não se trata de abdicar de princípios, mas de perceber que não há competitividade sem escala, nem inovação sem liberdade para criar.

Uma Escolha Existencial: União ou Declínio

A Europa está perante uma escolha existencial: agir como uma verdadeira união ou aceitar o seu declínio como potência global. Draghi foi claro ao dizer que “devemos atuar como se fôssemos uma única nação.” Mas esse princípio choca com a realidade política de um continente onde o consenso é um exercício de lentidão institucional. O tempo médio para aprovar legislação na UE é de 20 meses. No ritmo atual, quando uma reforma entra em vigor, já está obsoleta. A defesa da competitividade europeia exige algo mais do que boas intenções: exige velocidade, escala e coragem. O ponto mais controverso do discurso de Draghi, e talvez o mais decisivo, foi o apelo a uma decisão histórica sobre mercado único, dívida comum e união dos mercados de capitais. Se dissermos não a estas três alavancas estratégicas, o que estamos realmente a dizer é que não temos ambição de competir com os Estados Unidos ou a China.

E então, para que serve a União Europeia?

A Última Oportunidade

No final do discurso, alguém perguntou a Draghi se a Europa tem realmente capacidade para mudar após décadas de indecisão. A resposta foi brutal: “Não temos alternativa.” Este é o momento de claridade absoluta. Ou agimos agora, ou resignamo-nos a um futuro de irrelevância. A Europa tem a escala para vencer, mas só o conseguirá se abandonar a complacência. E, para isso, não basta reconhecer o problema. É preciso enfrentá-lo com reformas radicais, urgentes e inegociáveis. Porque o futuro não espera por ninguém.