Nos EUA, os inimigos do presidente não acertaram logo com a maneira de usar o vírus contra Trump. Ao princípio, prepararam-se para o acusar de menosprezar a crise, como fizeram a George W. Bush durante o furacão Katrina. Supunha-se que Trump esperava ser reeleito à boleia da economia; logo, seria de esperar que inicialmente tentasse varrer para debaixo do seu tapete demagógico tudo o que pudesse baixar o emprego. Trump, porém, não obedeceu ao guião. Em vez de subestimar a crise, dramatizou-a. Há uma semana, proibiu os voos com origem na Europa. Disse até que a vida é mais importante do que a bolsa de valores. Os anti-trumpistas foram obrigados a variar de abordagem. Chegaram a insinuar que o presidente, afinal, exagerara, hostilizara aliados e causara prejuízos à economia.

Que poderia ter feito Trump, que os seus adversários não achassem mal? Nada. A esse respeito, o caso de Trump é exemplar da encruzilhada dos governos ocidentais no começo da crise do coranavírus: ir adiante dos acontecimentos, tocar a rebate, e correr o risco de afogar a economia numa recessão; ou, pelo contrário, esperar para ver, ir a reboque, e permitir que a epidemia alastrasse e causasse o colapso dos serviços de saúde? Escutar os especialistas era só meia solução. É que, como de costume, há sempre especialistas com opiniões para todos os gostos. Eis, portanto, uma daquelas situações em que os governos têm de exercer a autoridade sem todas as certezas, isto é, liderar, ir literalmente à frente. Ora, há muito tempo que, no Ocidente, governar não é isso.

Não o percebemos, por causa da generalização do tom apocalíptico em política. Uns passaram os últimos anos à espera que o Syriza subvertesse o capitalismo, e outros que Trump fizesse o mesmo à democracia. Tudo isso escondeu os limites de uma governação amortecida por equilíbrios de poderes, constrangimentos financeiros e compromissos sociais. Os governos estão à frente de máquinas enormes, que lhes permitem interferir em tudo, gerar clientelismos e limitar liberdades. Mas não têm licença para rever contratos sociais ou obrigações financeiras. Apertada entre os mercados de capitais e o Estado social, a classe política é simultaneamente intrometida e medrosa. A sua arte está toda em evitar riscos e fugir a responsabilidades.

Como se tomam decisões num sistema destes? Através das correntes e marés do oceano das emoções colectivas, tal como são registadas em redes sociais, na comunicação social e através de sondagens de opinião. Foi o que se viu com o Covid-19. Ao princípio, tudo pareceu longínquo: mais um surto epidémico destinado a ficar pela Ásia. A discussão, relativamente abstracta, centrou-se na economia. O vírus pareceu apenas mais um ingrediente na velha história de uma recessão com origem no arrefecimento económico da China, que muitos especialistas esperam há anos. Em duas semanas, porém, tudo mudou. Com a Europa transformada no principal foco mundial do vírus, o receio de expor os limites dos serviços de saúde criou um ambiente de guerra, em que a economia deixou de ter importância. Os governos foram arrastados para fazer parar os países. A fleuma inicial pareceu imprevisão e irresponsabilidade.

Estamos nesta fase. Mas não é difícil prever outra: a que resultará da consciência das consequências económicas e sociais de uma paragem prolongada. Haverá dinheiro para pagar o ócio forçado de tantas empresas e trabalhadores? E por quanto tempo? Não é impossível que o pânico da falência, do desemprego e da solidão ainda faça com que os rigores agora tão aplaudidos pareçam apenas outra forma de imprevisão e de irresponsabilidade. O que nunca haverá é um plano consistente. Estamos entregues à última emoção.