Há debates que nunca parecem morrer em Portugal. O das freguesias é um deles. Fala-se de  proximidade, identidade local, tradição, bairrismo. Mas raramente se aborda o que realmente  importa: serviços públicos eficientes e sustentáveis. No meio da espuma dos dias, esquecemos o  essencial – não é o número de freguesias que melhora a vida das pessoas, mas sim a forma como  são geridas.

A recente decisão do governo de avançar com a desagregação de freguesias, mesmo após o veto  presidencial, reacende uma questão crucial: estamos a priorizar estruturas políticas ou a verdadeira  eficiência no serviço público?

As freguesias, originalmente unidades eclesiásticas, evoluíram para estruturas administrativas que,  durante séculos, fizeram sentido num país de difícil mobilidade e comunicação limitada. Contudo,  antes de 2013, Portugal contava com mais de 4.000 freguesias, muitas delas demasiado pequenas  para garantir uma gestão eficaz. Esta fragmentação resultou em redundâncias, burocracia e  ineficiência. Enquanto outros países europeus consolidavam as suas administrações locais, Portugal  mantinha um mapa territorial desatualizado, mais preocupado com equilíbrios políticos do que com  uma gestão moderna.

Em 2013, a reforma administrativa reduziu o número de freguesias de 4.259 para 3.091, numa  tentativa de otimizar recursos e melhorar os serviços prestados aos cidadãos. No entanto, a recente  aprovação parlamentar para desagregar 135 uniões de freguesias, recriando 302 novas autarquias  locais, levanta questões sobre a coerência e eficácia destas decisões. O Presidente da República  vetou este diploma, apontando dúvidas sobre a sua implementação a tempo das próximas eleições  autárquicas e questionando a transparência do processo legislativo.

Este regresso ao passado foi impulsionado por uma petição pública. Ora, uma petição é um  instrumento legítimo de participação cidadã e serve precisamente para levar um tema a discussão  no Parlamento. Mas discutir não é sinónimo de decidir. Muito menos significa que uma decisão deve  ser tomada apenas para cumprir uma agenda política, sem qualquer reflexão séria sobre os impactos  reais na gestão dos serviços públicos. Transformar um mecanismo de consulta num cheque em  branco para refazer políticas públicas sem critério é, no mínimo, irresponsável.

Se olharmos para o resto da Europa, percebemos rapidamente que este é um debate desnecessário.  Em Espanha, os cerca de 8.000 municípios têm uma lógica diferente da nossa, porque muitas das  suas autarquias equivalem às nossas freguesias, mas com uma gestão mais descentralizada nas  comunidades autónomas. Em França, as mais de 35.000 comunas foram sendo agrupadas em  “intercomunidades” para ganhar escala e eficiência, um caminho que também foi seguido pelos  países nórdicos. A Alemanha, com mais de 80 milhões de habitantes, funciona com cerca de 11.000  municípios, cada um dotado de elevada autonomia e capacidade de decisão. Já na Suécia, os 290  municípios, apesar de serem menos que os nossos concelhos, têm uma autonomia financeira e  operativa que lhes permite gerir os serviços públicos sem a necessidade de um número excessivo de  subdivisões locais. Em todos estes países, a tendência tem sido para consolidar e fortalecer as  unidades territoriais, não para as pulverizar.

A identidade local e o bairrismo são frequentemente utilizados como argumentos contra a fusão de  freguesias. Embora a tradição e a cultura locais sejam valiosas, não podem servir de pretexto para  manter estruturas ineficientes que não respondem às necessidades dos cidadãos. A verdadeira  proximidade não se mede pelo número de freguesias, mas pela qualidade dos serviços prestados.  Um cidadão quer ter ruas limpas, espaços públicos bem geridos, atendimento rápido e eficaz. O  nome da freguesia pouco lhe diz se os serviços forem ineficazes.

A decisão do governo de avançar com a desagregação, mesmo após o veto presidencial, levanta  preocupações legítimas sobre a coerência das políticas públicas e a eficácia na gestão dos recursos.  O foco da administração local não deve ser manter cargos políticos, mas sim garantir um serviço  público de qualidade, com uma gestão moderna e eficiente.

Uma administração local forte e eficaz não se define pelo número de freguesias ou cargos políticos,  mas pela capacidade de servir os cidadãos de forma eficiente e sustentável. O que está em causa  não é a proximidade administrativa, mas sim a qualidade da governação. Reduzir a máquina  burocrática não significa afastar os serviços das populações – pelo contrário, significa concentrar  recursos onde realmente fazem falta, garantindo que as estruturas existentes são capazes de  responder às necessidades das comunidades que servem. Afinal, a boa gestão faz-se com estratégia  e visão, não com mais papelada e mais cadeiras políticas para ocupar.