Nas últimas semanas, Portugal esteve em transe. Enquanto o país ardia, as televisões dedicaram-se a fazer uma espécie de reality show sem o mínimo interesse informativo. É importante manter as populações informadas, sinalizar onde está o fogo e passar as mensagens das autoridades. Mostrar chamas a devorar mato e floresta horas a fio é simplesmente irrelevante. Esta crónica, todavia, não é sobre fogo em Portugal, acontecimento, de resto, tão recorrente que tenho a certeza de que, dentro de um, dois, três ou mesmo quatro anos, poderei dedicar-me a dissecar a incapacidade política do governo de turno. Tudo estará na mesma. Posso, portanto, deixar este tema em descanso e falar do que verdadeiramente importa.
Segundo os melhores especialistas, fui diagnosticado recentemente com TDS: Trump derangement syndrome, uma doença que aflige uma bela parte da população mundial que, de acordo com os ditos especialistas, faz com que nós, os infectados, falemos injustamente mal de Trump, caricaturando as suas posições políticas e, no fundo, não entendendo o bem que está a fazer pela humanidade. Há quem diga, de resto, que o senhor eventualmente poderá estar na mira de Oslo para arrecadar o Nobel da Paz.
Mas voltemos ao tema central desta crónica, começando pelos problemas da TDS na apreciação da estética em Donald Trump. A fotografia número 1 foi tirada no dia do encontro na Casa Branca com os líderes europeus e Zelensky. Seguindo os preceitos dos vendedores de feiras e romarias que, durante o mês de agosto, fazem as delícias de emigrantes e locais mostrando os seus produtos e oferecendo múltiplas promoções, vemos o presidente dos Estados Unidos a mostrar a Stubb, Zelensky e Macron a sua prateleira com chapéus MAGA, com múltiplos dizeres, todos enaltecendo, naturalmente, o Benfeitor da pátria, nome pelo qual, curiosamente, era conhecido Trujillo, ditador dominicano que, tal como Trump, era germofóbico. A capacidade de os líderes mundiais manterem a compostura perante uma figura evidentemente tão ridícula é notável. Assim como é notável que, em 2025, o ministério da Agricultura tenha decidido pôr, no centro de Washington, um enorme retrato do Benfeitor a relembrar – se fosse necessário – quem guia a pátria. A estética de tudo isto varia entre a fancaria de uma feira de província, no caso dos chapéus, e de um regime ditatorial onde o culto da personalidade impera. Mas, lá está, isto sou eu que sofro de TDS.
Claro que o principal problema da democracia americana vai muito para lá da estética. É fundamentalmente ético. Senão vejamos. Nas últimas semanas, Trump decidiu utilizar abertamente o aparelho de Estado para perseguir politicamente pessoas que o incomodam. John Bolton – seu antigo conselheiro de segurança nacional, agora transformado num grande crítico do presidente nas televisões – viu a sua casa invadida pelo FBI sem qualquer razão substantiva. Bolton tem sido muito vocal acerca de Trump, recebendo, por isso, em troca uma visita de intimidação, um movimento clássico de regimes que estão longe de ser democracias. Para além disso, Trump decidiu que o Smithsonian – um dos maiores e mais importantes museus do mundo – deveria rever as suas múltiplas exposições para que, e cito, “estivessem em linha com os valores da administração”. A ideia de que uma administração política dita a política de gosto de um museu é, no mínimo, assustadora.
Para último guardei, claro, a cimeira com Putin e, depois, com a Europa. Não há outra maneira de pôr isto: a cimeira com Putin foi uma humilhação total, avaliação que não é nossa, dos que, (in)felizmente, sofrem TDS, mas, sim, da Fox News e de múltiplos influenciadores de direita que cirandam em redor de Trump. Putin conseguiu algo que há muito almeja: num momento de claro declínio dos Estados Unidos, o líder russo conseguiu – pelo menos do ponto de vista cinemático, algo a que Trump é particularmente sensível – aparecer lado a lado com Trump, recordando os velhos tempos da União Soviética, quando os dois países eram as maiores potencias do mundo. Que Trump seja um líder Republicano, partido que sempre foi ferozmente anti-Rússia é irónico. No entanto, para um homem mentalmente pequeno, e que nunca ultrapassou verdadeiramente o trauma das elites de Manhattan o percepcionarem como um novo-rico da construção civil de Queens, Trump mostra uma adulação inexplicável perante Putin.
Não é por acaso que é um homem desta extracção social a sentar-se na Sala Oval com os líderes europeus como Trump o fez. Trump é fraco com os fortes e forte com os fracos. Na cabeça de Trump, a Europa é um continente de fracos, em declínio, onde as classes altas educadas – que Trump detesta – gostam de vir passear no verão. A fotografia 3 é o retrato de uma época, época essa que fica marcada por um momento perplexizante: os Estados Unidos decidiram suicidar-se e deitar fora oitenta anos de liderança do Ocidente e do seu soft power. Não é a primeira vez que acontece na história. A ideia de que um indivíduo do calibre intelectual e mental de Trump está a dar uma lição não só aos líderes europeus, mas também a uma bela parte da sua administração, que se vê por detrás, é risível.
Há poucas coisas sobre as quais tenta tantas certezas, mas estou absolutamente convencido de que a administração Trump é uma tragédia não só para os Estados Unidos mas também para o Ocidente. Todos ficaremos mais pobres, menos prósperos e com um futuro pior. Ver a China a lutar pela manutenção da Organização Mundial do Comércio e das suas regras enquanto sustentáculo da globalização enquanto os Estados Unidos as querem destruir foi algo que eu nunca pensei assistir. Mas, lá está, tudo isto sou eu que sofro de TDS.