Desde a saída de cena de figuras como Angela Merkel ou Mario Draghi, sinto a Europa órfã. Não uma orfandade qualquer, mas a ausência profunda e desesperante de políticos com dimensão, daqueles que comandam respeito, que se sentam à mesa com gigantes mundiais sem complexos nem subserviência. Julgo que se tornou evidente que a União Europeia perdeu rumo, e pior ainda, perdeu voz.
Ursula von der Leyen é, para mim, o exemplo acabado de falta de critério e coerência. Entre polémicas como a opacidade nos contratos com a Pfizer ou a incapacidade de definir prioridades estruturais, parece mais gestora de danos do que líder visionária. E isso, para quem lidera a Comissão Europeia, é grave.
António Costa, reconheço, é uma exceção num deserto de mediocridade política. É hábil, sabe jogar o jogo com mestria, tem carisma e instinto de sobrevivência. Mas, e aqui falo com a franqueza de quem observa sem ilusões, representa tudo o que está errado com a política de aparelho. Além disso, convenhamos, a dificuldade crónica com o inglês sempre o impediu de verdadeiramente brilhar no palco internacional.
E depois há Emmanuel Macron. Ah, Macron… O eterno candidato a herdeiro de De Gaulle, mas sem o estofo nem a humildade. Tenta liderar a Europa do alto da sua retórica inflamada, mas soa a distante, elitista e, acima de tudo, desconectado da realidade. Diria até que Macron sofre de um mal culturalmente enraizado, confundir inteligência com superioridade.
É por isso que olho para Giorgia Meloni com atenção, e com alguma esperança. Porque, goste se ou não do seu posicionamento ideológico, a verdade é que ela entrou no “jogo dos crescidos” com uma naturalidade desconcertante. Herdou uma Itália estagnada, economicamente frágil e socialmente descrente. O desemprego estava nos 9%, a pobreza extrema atingia mais de 5 milhões de italianos e a dívida pública parecia imparável.
Hoje, os números contam outra história: o desemprego desceu para 5,9%, o défice caiu de 7,2% para 3,4% do PIB, e até a perceção externa da Itália melhorou. Julgo que isto não se explica só com sorte ou contexto europeu favorável. Explica-se com liderança.
Mas talvez o momento mais simbólico do seu percurso recente tenha sido o encontro com Donald Trump. Ali, onde muitos perderam a compostura ou a dignidade (muito por culpa do anfitrião), Meloni saiu por cima. Quando disse, com aquele sorriso frio e olhar firme, algo como “estou aqui a representar a Itália, não tenho legitimidade para representar a Europa. Quando me visitar em Roma, veremos se Bruxelas quer recebê-lo”, Meloni não estava apenas a traçar limites diplomáticos, estava a enviar um recado à Europa, se não querem liderar, eu lidero. Se não querem estar à altura do jogo global, então deixem passar quem quer jogar.
E é por isso que, na minha opinião, Meloni já é, de facto, a próxima grande figura da política europeia. Não porque seja perfeita, quem sou eu para julgar a perfeição de alguém. Mas porque tem aquilo que falta aos outros, coragem, clareza e uma noção pragmática do mundo como ele é.
Gostem dela ou não, concordem ou não com a sua agenda, há um facto que ninguém pode negar: ela ocupa o espaço que os outros deixaram vazio. E talvez esteja na altura de a Europa assumir essa realidade. Porque sim, Giorgia Meloni já chegou. E está a dar cartas. E muitos ainda nem perceberam que o jogo já começou.