A realidade, amiúde, é crua e árdua. A direção do PS e boa parte das bases vivem numa bolha mui própria, típica de qualquer partido catch-all, com apetência para conquistar o poder. Entre Seguro, Vitorino e, até há pouco tempo, Centeno, não há putativo candidato proveniente do espaço socialista minimamente carismático e capaz de mobilizar o país. Nem o próprio partido, diga-se. Neste sentido, as sondagens recentes corroboram o que os ventos da opinião pública pareciam indicar. Gouveia e Melo penetra no eleitorado centrista – PS e PSD –, suplantando qualquer um dos hipotéticos candidatos que se perfilam advindos, quer do PS, quer do PSD. É o candidato a candidato com a menor taxa de rejeição – 39% – e maior potencial de votação – 57% –, e, numa segunda volta, derrotaria todos – com Guterres, a história seria possivelmente distinta –, inclusive, Passos Coelho à direita.
À esquerda, no PS, a preferência do seu eleitorado é por Gouveia e Melo em detrimento de Vitorino e Seguro – e Centeno. À direita, no PSD, Gouveia e Melo bate Marques Mendes. Não obstante Gouveia e Melo ter um perfil militar, usualmente mais conotado com a direita e as preferências sociopolíticas desse mesmo eleitorado, é no PS onde, surpreendemente, granjeia um apoio considerável, sobretudo quando comparado com os demais candidatos da sua área política, a julgar pelas sondagens. É, aliás, o candidato que os próprios eleitores socialistas entendem que o partido deve apoiar – 43% –, não dando a remota hipótese aos outros candidatos da órbita socialista. No seio laranja, pese embora haja maior divisão da preferência do apoio, esse valor ascende aos 48%, sendo algo expectável.
Nesta esteira, o aviso está dado ao PS e a Pedro Nuno, mais concretamente. Se o PS quiser efetivamente ir a jogo nas eleições presidenciais e não perder por falta de comparência como tem sido apanágio nas últimas eleições, terá de apostar as fichas no cavalo vencedor. Spoiler alert: não é nenhum pintado a cor-de-rosa. Caso não faça uma rotação de 180º e apoie Seguro, Vitorino ou outro que se apresente, a derrota será copiosa face à vitória praticamente assegurada do Almirante Gouveia e Melo. O PS não quererá ser humilhado, certo? No lado oposto da barricada, Marques Mendes, a candidatar-se, será com a chancela do PSD e corre igual perigo. No partido do Largo do Rato, poderão continuar a navegar à vista e sem enxergar terra presidencial por mais uma década. A confirmar-se, serão 30 anos ininterruptos sem ocupar Belém. O partido que quer roubar o título de ‘partido mais português de Portugal’ ao PSD não se pode dar ao luxo de mais uma chacota, de nova falta de comparência por cobardia e incompetência. Não se pode dar ao luxo de ter um jovem turco como secretário geral, mas jogar pelo seguro e contentar-se com vitórias poucochinhas nas Europeias. Costa, certamente, faria diferente, seja por taticismo político e instinto de sobrevivência, seja pelo orgulho de se poder gabar de ter devolvido Belém ao Rato. Pedro Nuno Santos não é Costa e Gouveia e Melo é o seu candidato, mesmo que doa.