Na noite de 18 de maio de 2025, assistiu-se à debacle da esquerda. Só o Livre se salvou e graças ao eleitor urbano que não padeceu da virose do voto útil para o PS. Verificou-se algo que já se adivinhava. A esquerda está em crise no mundo Ocidental e não é de conjuntura, é estrutural. Os partidos sociais-democratas, ao adotarem a designada terceira-via nos anos 90, abandonaram parte do seu eleitorado mais à esquerda, entregando-o à esquerda radical e à extrema-esquerda. Passaram a disputar exclusivamente o eleitorado mais centrista com a sua contraparte, os partidos de centro direita, os conservadores-liberais, democratas-cristãos ou conservadores, dependendo do país.
Com o avanço das pautas progressistas, os partidos pós-modernos de esquerda, como o Bloco de Esquerda, foram vítimas do seu próprio sucesso e ficaram sem programa e plataforma política após as suas conquistas, leia-se, por exemplo, a legalização do casamento homossexual e a legalização do aborto. Restou apenas a sua radicalização dessas mesmas visões ditas progressistas, aproximando-se de um progressismo intolerante e, amiúde, insensato e desfasado cabalmente da opinião maioritária da população. Neste sentido, o BE deixou de falar para o seu povo de esquerda, os mais desfavorecidos, os marginalizados, os descontentes dos subúrbios. Passaram a falar de questões risíveis como o famigerado Cartão de Cidadania em detrimento das matérias socioeconómicas. Quanto ao PCP, ficou preso no PREC e no mundo bipolar entre EUA – os malvados – e a URSS – os bons, porque estavam contra os EUA.
Desta feita, chegou a vez do PS, que não tem projeto, não tem mensagem para uma fatia considerável do eleitorado. Dirige-se aos pensionistas, reformados, funcionários públicos e pouco mais. Sucintamente, a esquerda não aborda os temas que preocupam a minha geração e os que vieram um pouco depois, isto é, entre os têm 18 e 35 anos. Somos uma porção da população que, ou está a terminar os estudos e a ingressar no mercado de trabalho, ou que se quer emancipar de casa dos pais, constituir família e não consegue. Sobram os projetos da AD e da IL, sobretudo, para os que têm mais instrução e, naturalmente, ambição e que, justamente, querem ver recompensado o seu investimento e esforço ao terem prosseguido estudos superiores.
Quanto aos demais portugueses, indignados, sem esperança no futuro coletivo, no seu futuro, no futuro dos seus filhos e, ao sentirem o seu país sob ameaça de uma imigração desregrada – mesmo que a realidade não corrobore esta narrativa trágica fomentada pelo CHEGA – sente que este partido de direita radical ou extrema-direita – tal classificação deixarei ao seu critério – é a única solução para sanar os problemas que flagelam a sua vida diária, que está estagnada há décadas. Para alguns, está inclusivamente estagnada desde abril de ‘75. Ainda sobre a imigração, ressalte-se que não se invalida o sentimento destes eleitores, bem como a necessidade de o país ter uma política de imigração regulada, humanista e ponderada – não é despiciendo referir que Portugal integra o Espaço Schengen.
Em suma, quem vota Chega não é todo fascista, nem racista, nem machista, nem homofóbico, nem xenófobo. Invariavelmente, há quem o seja e votam em todos os outros partidos também, pelo que há dialogar com estes eleitores, de forma a compreender o seu ressentimento e abordar os problemas que os afetam, sem qualquer receio de ferir sensibilidades ou o considerado politicamente correto.
O eleitorado do Chega não é homogéneo e parte dele – mais do que se quer admitir – votou no PS de António Costa e no PS de Pedro Nuno Santos. Tal como nos EUA, o povo que votou Trump tinha votado Obama. A Maria e o Manuel não se tornaram fascistas de 2022 para 2024 ou 2025. Tornaram-se abandonados. Tal simplificação é preguiçosa, falaciosa e perigosa. Conduz somente à morte paulatina duma esquerda que não se endireita.