“E o burro sou eu?”
(Luis Filipe Scolari, antigo selecionador nacional)
Burro nem é das piores coisas que normalmente ouvimos chamar a Donald Trump. É confortável para estruturarmos as nossas opiniões acerca das suas ações, cuja compreensão exigiria esforços que muitos não estão dispostos a fazer.
Será que ele é mesmo um burro? Será a Gronelândia um fetiche? Será por esperar o aquecimento do ártico, logo ele que nem acredita nas alterações climáticas? É apenas lunático? Ou devíamos mesmo esforçarmo-nos mais para tentar compreender o que não vemos nem queremos ver?
Ora Xi Jiping disse recentemente que a reunificação com Taiwan é essencial antes de 2049 (ano do centenário da República Popular da China). Quando? Ninguém sabe. No entanto, há relatórios do Pentágono e da CIA a dar-nos conta que pode ser já em 2027.
Claro que nós, os espertos, nunca iríamos dar qualquer importância ao que diz Xi Jiping, a CIA ou o Pentágono. E mesmo que levássemos a sério a ameaça (coisa que há mais de 20 anos temos apontado como uma possibilidade, mas sempre uma coisa longínqua, mais uma hipótese académica que uma ameaça real), como somos espertos, não fazíamos nada.
Já o Trump convenceu-se, porque é burro, que isto é para levar a sério porque, mais cedo ou mais tarde, vai acontecer. E para cúmulo da burrice, em vez de nada fazer a respeito, está-se a preparar para a guerra!
Mas mesmo nessa perspetiva, nós, os espertos, temos dificuldade em compreender Trump: alguma vez iríamos olhar para o Canal do Panamá como possível passagem chinesa? Só um burro o faria. Intervir na Venezuela para cortar recursos aos chineses? Mas que burrice. Apoiar Israel e enfraquecer o Irão (ao ponto de incitar à revolução)? É preciso ser muito burro para pensar que haja por ali recursos para a China ou que o Canal do Suez também tenha importância estratégica.
E no que respeita à Gronelândia, obviamente que só um burro como Trump acharia vital para a defesa dos EUA uma ilha de gelo povoada por focas e ursos-polares.
Bem, aqui ainda ouvimos alguns analistas dizerem que não é burro porque com o degelo provocado pelas alterações climáticas irá tornar o ártico navegável e as terras raras gronelandesas exploráveis. Mas quando será isso? Há quanto tempo é que andamos com estas previsões de que o gelo desaparecerá ou os ursos polares se vão extinguir, e os anos vão passando e nada de substancial acontece (no caso dos ursos, paradoxalmente, os números até têm aumentado – nem só com o clima as espécies sofrem ameaças)?
Como tal, nunca as alterações climáticas – apesar do que alguns mais histéricos nos querem fazer pensar com termos como “crise” ou “emergência” – seriam um motivo de curto prazo. Já a defesa, das passagens de navios ao Golden Dome, é urgente da perspetiva americana de preparação para uma guerra com a China. Ou burrice do Trump, igualmente partilhada pelos chineses que andam a comprar navios quebra-gelo… são tão burros que não percebem que no Mar Amarelo estes navios não lhes fazem falta nenhuma.
Enfim, espertos somos nós, é isso? Tenho muitas dúvidas. Parece é que vivemos apenas com a bênção da ignorância, que nos leva a chamá-lo burro, inclusive publicamente há um ano, no decurso das eleições americanas, sem pensar que ele podia ouvir e não gostar, e que ganhando as eleições, podia dar-nos o troco (logo ele que já no primeiro mandato tinha mostrado não ser grande adepto da NATO, que é sobretudo essencial para a nossa segurança, não para a dele(s)). Pior, tal ignorância pode-nos custar mais ainda no futuro, por não vermos o que ele(s) – Trump e não só – pode já ter visto há muito tempo.
E o burro é ele?