Marcelo Rebelo de Sousa

Guerra das Estrelas: Cristina contra-ataca

Autor
  • Henrique Pinto de Mesquita
315

Não volte a pensar, caro leitor, que é apenas de uma mera mensagem pessoal de força. É diplomacia outra vez. É a mensagem conducente do assentar da poeira. É a conclusão da visita às três capelinhas.

Minhas senhoras e meus senhores, cabe-me notar-vos uma notícia importante. Se leem este texto e estão de boa saúde considerem-se uns sortudos. Saíram vivos daquela que foi a primeira grande guerra dos programas televisivos das manhãs portuguesas. Viveram um momento nobilíssimo da nossa História! Procurem recordar-se bem dele, pois os vossos netos irão querer saber.

A primeira semana de 2019 em Portugal dá pano para mangas. Será para sempre cristalizada como tendo servido de palco ao titânico embate entre Manuel Luís Goucha e Mário Machado (duplas improváveis) contra Cristina Ferreira e o Senhor Presidente da República. O objetivo da batalha é simples e direto: conquistá-lo a si, caro leitor. Basicamente, todo este afiar de espadas serviu para que de manhã decida, ainda ensonado, se quer ver a SIC ou a TVI enquanto toma o seu café e engole umas bolachas à pressa.

Como qualquer grande guerra da história mundial, também esta nossa guerrinha televisiva portuguesa tem conjuntura histórica imprescindível de entendimento para compreensão do fenómeno por inteiro. Ora vejamos: corria o Verão de 2018 quando Cristina Ferreira — sempre mui leal à casa de Queluz — decide marchar a Sul e ir pousar a Carnaxide. À época, um escândalo. Tiragens e tiragens de papel cor-de-rosa impresso. Contudo, como qualquer assunto referente a matérias cor-de-rosa, rapidamente empoeirou e foi retomada a nossa ordem de interesse nacional: o futebol.

Semanas e meses se passaram sem que a população percebesse que a batalha se avizinhava. Chega o mês de Dezembro e Marcelo Rebelo de Sousa concede a entrevista “Natal em Belém” a Manuel Luís Goucha — o último grande acontecimento antes do rebentar da nossa guerra. A 2 de Janeiro de 2019, a TVI faz a sua avançada e convida o neonazi Mário Machado para o seu programa, alegando estar a servir palco para a pluralidade ideológica que deve existir numa democracia. Debates éticos e popperianos à parte, foi bem-sucedida. A tinta correu. O público comentou. O que nós, meros civis, não sabíamos, era que a SIC estava mais que preparada para a beligerância de Manuel Luís Goucha e o seu novo amigo.

A 7 de Janeiro de 2019 (e sabemos que as datas são importantes nas guerras) Cristina contra- ataca. Era dia de estreia do seu novo programa matinal. Estava nervosa. A independência perante Manuel ainda não era bem vista perante a população cética. Contudo, o telefone toca. Era o Chefe de Estado. O seu velho amigo e também Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Deseja-lhe boa sorte. Em direto. Para todo o país. Desenganem-se caros leitores que creem a chamada de Marcelo como um mero simbolismo de amizade e confiança. É mais que isso. É diplomacia. É o reconhecimento público de que pode haver uma Cristina soberana e independente para lá de Queluz. É conferir legitimidade ao seu movimento de libertação. Serviu, por isso, Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República de todos os portugueses e portuguesas, como mero instrumento de desenlace ao glorioso contra-ataque de Cristina.

O povo, sereno, não saiu à rua, mas atacou o teclado através das redes sociais. Acusaram o Chefe de Estado de parcialidade, populismo e extravaso das suas funções. Não fosse o Presidente Marcelo ágil como é, estava claro que ia bater à última capela para pôr fim à Guerra. É nesse sentido que surge novamente como Herói da nação, no programa da tarde da RTP, e deixa uma mensagem de apoio a um Roberto Leal doente. Não volte a pensar, caro leitor, que se trata apenas de uma mera mensagem pessoal de força. É diplomacia outra vez. É a mensagem conducente do assentar da poeira. É a conclusão da visita às três capelinhas. Marcelo sela, assim, a caixa de pandora dos programas da manhã e, numa guerra entre os três canais, sai como o grande vencedor.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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