Estas eleições presidenciais têm algo de paradoxal. São as primeiras desde 2000 em que há sérias dúvidas sobre o vencedor e, quase seguramente, as primeiras desde 1986 em que haverá segunda volta. Isto deveria fazer destas eleições as mais interessantes em várias décadas, mas — e é aqui que entra o paradoxo — devem ser as que menos entusiasmo geram no mesmo período.

A causa para este desinteresse é bastante simples: a razão da segunda volta não é a abundância de candidatos de peso; pelo contrário, haverá segunda volta porque não existe nenhum candidato capaz de convencer suficientemente o eleitorado.

Não quero com isto dizer mal dos candidatos. É estimável que, num tempo em que o debate político vai descendo de qualidade, e se confunde escrutínio com devassa total da vida privada, ainda haja pessoas dispostas a concorrer a um cargo público. Mas, por mais estimáveis que os candidatos possam ser, não há nenhum com o carisma de Mário Soares ou Marcelo Rebelo de Sousa, com a gravitas de Jorge Sampaio ou Cavaco Silva, e nem vale a pena começar a procurar alguém com o heroísmo de Ramalho Eanes.

No meio de toda a incerteza, apenas dois factos me parecem certos. O primeiro é que, apesar de tudo o que dizem as sondagens, André Ventura irá passar à segunda volta — e não me espantaria que ficasse à frente de todos os outros candidatos na primeira. E aposto que, apesar da confiança que em público vão depositando nas sondagens, a maior parte dos candidatos pensa o mesmo. Por isso, é bastante tentador, para os restantes, passarem a primeira volta a tratar André Ventura como o alvo a abater.

Essa tentação é um erro, porque o segundo facto que me parece certo é que André Ventura irá perder na segunda volta contra qualquer candidato que o acompanhe. E ele sabe disso — e é justamente por causa disso que concorre. André Ventura não tem qualquer interesse em ser Presidente da República; mas tem todo o interesse em dominar o espaço público até Janeiro, ganhar projecção com um bom resultado e passar meses a fazer-se de mártir do sistema, que se uniu para o atacar. É disto que ele vive.

Todos sabemos que os restantes candidatos não gostam de Ventura, que são contra o Chega, que consideram os seus cartazes ofensivos, etc. Mas, considerando que a primeira volta será a única ocasião que os candidatos que realmente querem ser Presidente da República terão para debater, seria importante que usassem a campanha para discutir os temas que realmente importam.

Por exemplo, seria importante que partilhassem com o país a sua visão sobre os poderes do Presidente da República, o que tencionam fazer para promover a estabilidade política — considerando que os últimos ciclos foram demasiado curtos — e como pretendem promover pactos de regime num cenário político cada vez mais fragmentado.

Também seria importante conhecer as posições dos candidatos sobre Portugal, sobre a sociedade e sobre vários temas determinantes da nossa vida colectiva: desde as restrições das liberdades individuais durante a pandemia, até ao futuro de um país com cada vez menos nascimentos, passando por assuntos como a defesa da vida, da família, da liberdade de educação, a regulação das redes sociais, a imigração, e tantos outros. Porque o Presidente, mesmo sem poderes executivos, tem, para além do veto, uma enorme influência política.

Num tempo de grande instabilidade geopolítica, é essencial conhecer o que pensam os candidatos sobre a política internacional portuguesa, área em que o Presidente pode ter grande importância. Desafios como a integração europeia, a participação na NATO, a guerra na Ucrânia, o conflito na Terra Santa, a relação de Portugal com os Estados Unidos e a China, e — mais importante ainda — com os países lusófonos, deveriam estar no centro do debate presidencial.

Sei bem que atacar André Ventura dá mais visualizações e tempo de antena, porque ele é um belíssimo produto televisivo. E sei ainda melhor que fazer o papel de defensor das virtudes cívicas contra o Chega resulta bem na comunicação social. Mas para isso haverá toda uma segunda volta!

Posso estar errado, as sondagens podem estar certas e Ventura não passar à segunda volta. Mas creio que nada perderíamos se, mesmo nesse cenário, uma eleição em Portugal — para variar — não fosse sobre o Trump de Mem Martins, mas sobre o país real.