Já leu “Project Hail Mary” de Andy Weir? Se ainda não, devia fazê-lo, no género de ficção foi o melhor que li em 2025.
O romance centra-se na personagem do Dr Ryland Grace, um professor de ciências que acorda desmemoriado, no espaço a bordo de uma nave espacial. Está isolado, sem companhia e todo o envolvimento é para ele um incompreensível mistério. Sem memória de quem é, ou quais os acontecimentos que o ali levaram, todas as questões existenciais que coloca tornam-se metafísicas – não tem como lhes dar resposta. O seu mundo limita-se àquele espaço e aos factos que observa.
O livro mistura de uma forma admirável mistério, humor inteligente, uma amizade improvável e um domínio notável de áreas tão díspares como física, astronomia, engenharia e biologia. Ao engenho descritivo associa ainda um rigor científico sem a vulgar e enfadonha prosápia académica. Se gosta de ciência, ficção e mistério, este é um livro a não perder.
Porém, o intuito de o citar – vi recentemente o filme de Christopher Miller e, resumidamente, leia o livro – é o de sublinhar um aspeto particular da história.
O Dr Ryland Grace, acorda numa nave espacial sem memória, sem saber o porquê da sua situação. Andy Weir utiliza este momento como ponto de partida de um enredo que desenvolve em paralelo. Na história do presente deixa-nos em suspenso com a sucessão de acontecimentos, a segunda desenvolve-se à medida que recupera a memória. Neste processo vai recordar um passado que lentamente se expõe e lhe dá as respostas que necessita para compreender o porquê da sua presença, o objetivo da missão e quais as ferramentas disponíveis para a desempenhar. Sem memória, sem informações do passado, estaria condenado a um pequeno espaço, um mundo que não iria compreender além do que o minúsculo cubículo permitiria.
Se já leu outros textos meus, vai pensar que estou a regressar à alegoria de Platão. E tem razão em pensar isso. O aspecto que pretendo realçar prende-se exatamente com os limites do conhecimento e de que forma um limite pode ser usado no controlo da própria sociedade.
O maior limite ao conhecimento não é a ignorância. É a sensação de que já sabemos o suficiente. Enquanto sabemos que não sabemos, procuramos. Quando julgamos que tudo sabemos e nada mais há a compreender, deixamos de ver para lá do horizonte da evidência. O mundo do Dr Ryland Grace, era assim, escasso e limitado. Sem acesso a uma visão exterior, no romance representado pela memória, não tinha como interpretar a sua realidade.
Alinhando com um texto anterior, sem conhecimento exterior a um processo de que fazemos parte não temos como o compreender. Falta sempre algo que complete e dê sentido ao conhecimento. Como defende Kurt Gödell, um sistema fechado não consegue garantir verdades absolutas. Sem a “metalinguagem” de Alfred Tarski não podemos garantir se a verdade não é apenas algo enviesado, quando não mesmo, um engano. Sem o conhecimento exterior, estamos vulneráveis. E quando algo de novo surge, espantamo-nos com o que nunca tínhamos imaginado – os cisnes negros, The Black Swan de Nassim Nicholas Taleb. São sempre “Cisnes Negros” o que decreta o funeral de muitas verdades axiomáticas. Porém, tudo se renova, e um novo conhecimento edifica-se à luz de uma nova verdade. Verdades que descortinamos numa encadeada sequência de questões e surpresas.
As novas abordagens, as novas perspetivas, não trazem apenas conhecimento, são a origem da instabilidade de quem nunca tem como chegar à derradeira verdade. Porém, quem pela primeira vez aborda os problemas de fora não mais consegue viver dentro novamente.
Há no cinema boas descrições desta realidade. No filme Matrix dos irmãos Larry e Andy Wachowski, para além de leituras mais rebuscadas – uma visão “liberal” da identidade, há uma outra mais literal, a de um mundo de duas realidades onde só quem tem acesso ao exterior tem a capacidade de conhecer o significado do que é viver dentro do Matrix. Quem limita o conhecimento e o restringe ao que decorre dessa realidade, está limitado pela ausência de uma “metalinguagem” adequada, uma visão aqui protagonizada pela “pílula azul”.
Contudo, desiluda-se se pensa que saber significa felicidade. Há sempre quem como Cypher, prefira as “pílulas azuis”, não porque este seja um mundo de verdade, mas porque pelos seus critérios de satisfação é aquele que lhe permite viver na ilusão, e com ela, em felicidade. Não importa que seja um mundo falso, sem “metalinguagem”, é o da sua verdade! É assim que funcionam as mentes “ideológicas”. Dispensam visões exteriores e apenas encontram satisfação no que se adequa à “sua verdade”. Saber tudo pode ser incompatível com a felicidade e a plenitude poderá ser incompatível com a vida.
Há por isso sempre quem dispense “metalinguagem” e viva confortável e seguro na pequenez de um mundo que controla. Todavia, trocar liberdade por segurança é sempre um risco. Um pequeno passo para formas mais explícitas de subjugação. Quando se abdica de liberdade, quando se a troca por felicidade, entregamos, quase sempre o destino nas mãos de um tirano. Nunca temos a certeza se nos iremos arrepender de não ter escolhido a “pílula vermelha” quando isso ainda era possível.
Muitas histórias se ficcionaram onde a escolha da “pílula azul”, a troca de liberdade por segurança, construiu mundos que à luz do leitor e de uma visão exterior parecem incompreensíveis e bizarros. Contudo, são sempre possíveis!
No mundo da cultura, a relação entre controlo e conhecimento, entre o que é permitido e o que é distópico, produziu muitas das mais cativantes ficções. Em Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley a “Soma”, curiosamente também ela uma pílula, simboliza a opção pelo prazer e ignorância “antes uma grama que um drama”! Escrito nos anos trinta, esta obra surge como crítica às sociedades e novos contextos políticos que despontavam no primeiro quartil desse século. Estas realidades assumiam tendências e aspectos “hobbesianos” onde a teleonomia tecnológica era tida como ferramenta de uma autoridade que melosamente impedia qual forma de escolha.
Em 1984, de George Orwell, a “novilíngua” e o “duplipensar” surgem como ficções destinadas a limitar a realidade e sossegar as elites, enquanto aos “proles” se escondia a realidade intoxicando-os com jogos, álcool e lotaria, enquanto viviam num stress continuo induzido por um estado de guerra permanente – lembra-lhe algo?
Dentro ainda das distopias clássicas, recordo Fahrenheit (451) de Ray Bradbury, uma ficção onde o controlo do pensamento surge através de uma apropriada intoxicação televisiva – visionário também, não acha? Um mundo onde uma política de cancelamento e limite ao conhecimento era prosseguida incinerando livros, não porque fossem maus, mas porque eram “perigosos” e sempre desconfortáveis para alguém.
Na literatura, todos estes clássicos são ficções da realidade, mas muito próximos dela, e todos seguem uma lógica semelhante – a melhor forma de se estreitar o conhecimento é limitar a “metalinguagem” e as ferramentas que o tornam inevitável. O que não se conhece não constitui uma ameaça. Numa realidade que julgamos de completude, as emoções, e as suas interpretações conscientes, os sentimentos, são sempre o que nos inquieta e nos faz sonhar. Inebriados pelo que pressentimos procuramos a verdade como cura para todos os males. São os sentimentos a fonte da nossa inquietação. E essa, a inquietação, a fantasia, é a grande diferença entre o humano que se questiona e a lógica do mecanismo, da mecânica e do automatismo, protagonizada em todas as sociedades totalitárias, onde o controlo da pergunta é imprescindível para evitar a resposta.
A obra Nós de Yevgeny Zamyatin, de 1920 é apontada como a precursora das anteriores distopias. Escrita nos primórdios do regime soviético, descreve-nos uma autoridade que pretende uniformizar a sociedade com uma “engenharia social” que resulte em equidade absoluta e na negação da liberdade e do individuo. Esta obra foi inspirada no período do terror da revolução francesa e na lei dos “Suspeitos” – uma lei que condicionava as pessoas pondo-as em permanente perigo. Esta constante insegurança, é para o autor uma inevitabilidade de todas as revoluções. É um período onde os acontecimentos se desenrolam ao sabor do infortúnio e do aleatório e leva a que muitos fiquem disponíveis para prescindir de si. Porém, após um tirano, vem sempre um outro, uma sucessão onde não há garantia do segundo ser mais benévolo que o primeiro – quem troca liberdade por segurança, não merece nenhuma delas “Benjamin Franklin”.
As sociedades distópicas e totalitárias limitam o conhecimento, a curiosidade e enclausuram os cidadãos, limitando-lhes a indiscrição e um eventual … e se? Uma promessa de segurança “Hobbesiana”, é um jogo de soma zero onde a limitar a liberdade, visto de fora, assemelha-se a um absurdo Kafkiano.
Na obra de E. Zamyatine, estes aspectos são evidentes. Esta sociedade distópica surgiu após “o período da guerra dos duzentos anos”, período que o autor descreve como origem do Estado uniforme e totalitário que ficcionou. Um Estado que promovia a felicidade de todos limitando uma liberdade que, por ser prejudicial à felicidade, era dispensável e contraproducente. Este estado de negação tem o seu “clímax” quando aos cidadãos é aplicado a “fantasiectomia”. Uma cirurgia destinada a remover do cérebro o centro da fantasia e imaginação e, dessa forma, resguardar o individuo de qualquer expressão de individualidade.
O mundo de Zamyatine é um mundo mecanicista, onde o comportamento é previsível por simples equações, um mundo Laplaciano, onde tudo é calculado, programado, e onde equações absurdas como a da raiz quadrada de menos um, são oficialmente negadas e proibidas. Engenheiro de formação, o que se reflete numa obra que escreveu como um diário, onde a sociedade distópica fica evidente na interação de personagens, sem individualidade e apresentados como alfanuméricos. Uma sociedade onde os triângulos amorosos se desenvolvem e os sentimentos, quando expressos, surgem como preferências ou ciúme. Numa prosa por vezes onírica noutras, recorrendo à sua formação de engenheiro, Zamyatine descreve a sociedade como tecnológica, mas também num tom de crítica a um regime que então nascia e que o obrigou ao exílio. Globalmente é uma obra futurista, mas também uma crítica política, de contornos expressionistas, onde a distopia, a segurança e a felicidade são asseguradas com contornos Kafkianos – o que se não conhece não necessita ser temido! – e como nas distopias de que foi percursora, o controlo do conhecimento faz-se dentro do sistema limitando o seu universo ontológico.
Nem sempre os limites ao conhecimento decorrem de medos e constructos sociais. Muitos deles resultam de restrições intrínsecas à natureza da realidade, outros decorrem da biologia e da nossa fisiologia.
Como limite ao conhecimento, há quem aponte a linguagem como uma restrição significativa. Há sobre o tema um filme muito interessante, Arrival de 2016, realizado por Denis Villeneuve e baseado na obra Story of Your Life de Ted Chiang. A história baseia-se num enredo onde, oriundos de uma civilização alienígena, os “Heptapods”, ensinam à protagonista – Louise Banks, interpretada por Amy Adams, uma nova linguagem. Uma linguagem que lhe permite novas capacidades e dessa forma uma nova visão da realidade. Para a civilização dos “Heptapods” o tempo não é linear e possui uma circularidade pela qual é sempre possível aceder ao passado. Quem assimilasse essa linguagem e, por isso, essa forma de pensar, seria capaz de controlar o fluxo do tempo e aceder aos vários futuros possíveis.
A forma como se fala, como se organiza as ideias, molda a nossa visão e a própria realidade. Para Edward Sapir a linguagem não é apenas uma ferramenta para se expressar ideias, é também uma forma de organização do pensamento. Benjamin Lee Whorf extrema esta ideia e vai mais longe quando sugere que existe um determinismo linguístico onde a linguagem determina a arquitetura neuronal e o pensamento. Lee Whorf estudou o povo “Hopi” (Indígena do Arizona) e verificou que a estrutura temporal arquitetada pela linguagem diferia do inglês, e que isso se refletia na forma como esse povo via o mundo e o fluxo do tempo. A linguagem, tal como os axiomas é invisível enquanto funciona. A linguagem não limita apenas o que conseguimos pensar, protege-nos também do excesso de realidade. Sem esse filtro o mundo poderia ser incompreensível.
Um “cisne negro” pode estar fora da gramática conceptual disponível e a recusa pode ser estrutural e não apenas psicológica. Cada sistema de conhecimento funciona como se fosse completo. Só quando é confrontado com o exterior revela a sua insuficiência. Até lá, vive na ilusão de totalidade.
O conhecimento novo começa com uma fissura. Não é o acontecimento em si que inaugura o novo, mas a suspeita que o que parecia sólido talvez o não seja. Um desvio, um ruído fora de ritmo, uma incoerência quase impercetível e, de repente o que era evidente deixa de o ser. Analisar é interromper a evidência confortável, é separar o que parecia uno e introduzir uma distância entre nós e o mundo. Há limites, contudo, sem esse gesto, a realidade mantém-se funcional, mas opaca. Explica-se o contexto apenas porque não o interrogamos, e é por isso que a análise incomoda. Não porque acrescente conhecimento, mas porque retira inocência. Perder a inocência é um ato de rebeldia, de afirmação individual, mas é nesse desconforto que reside a possibilidade de se ver mais longe.
Limitados à “nossa tartaruga”, ver mais longe não significa estar certo e muito menos estar completo. Neste jogo infantil, cada resposta abre uma nova pergunta. Cada explicação revela novas camadas, novas questões que mal surgem, logo parecem óbvias. A análise não conduz à totalidade, conduz sim à consciência do inacabado. Entre a estabilidade da ilusão e a instabilidade da lucidez, o ser humano oscila e essa talvez seja a sua condição mais autêntica. No limite, não procuramos apenas respostas, procuramos a capacidade de continuar a perguntar. É por isso que temos de ser livres. Vamos ser sempre imperfeitos, mas nessa imperfeição reside a maior das nossas virtudes, um desejo genuíno e legítimo de sermos melhores, mais completos e mais cintilantes.