Era uma tarde chuvosa. O vento soprava lá fora com força impiedosa. No ar agitavam-se folhas e ramos, ora bramidos em rugidos bruscos, ora em redemoinhos gigantes que tudo devoravam no caminho.
Na sala, afogadas no conforto, as duas amigas assistiam no sossego do sofá à impetuosidade do temporal, quando de repente uma rajada abriu a frágil janela e quase todo o ar do mundo entrou por aquelas portadas.
Um pequeno copo, esquecido em cima da mesa, não resistiu à mão invisível do “Adamastor” e estilhaçou-se no chão. Tão rápido quanto pôde, Consciência, que se encontrava a meditar sobre a natureza e o incómodo dos seus maus humores, levantou-se e correu à janela, fechando-a sem demora. A calma regressou à sala. Do outro lado, lá fora, a intempérie continuava, indiferente e sem sossego aparente.
Consciência e Lógica eram duas amigas inseparáveis que há muito habitavam aquele modesto sótão. Com o tempo, Consciência ficara mais introspetiva e melancólica, enquanto Lógica mantinha uma irritante vivacidade e juventude, ainda que sem as mesmas certezas de outrora. Eram amigas inseparáveis, mas muito diferentes nos modos e atitudes perante a vida.
Consciência era empática e dependente. Muitas vezes não segura das decisões e, quase sempre, carregava uma culpa que lhe dobrava os ombros e arqueava as costas. Em não raras ocasiões, quando a situação lhe parecia difícil, ou a escolha incerta, nessas demandas mais atribuladas, recorria à sua amiga, de quem quase sempre recolhia bons conselhos. Lógica era diferente. Tinha perante a vida uma outra atitude. Vivia num mundo de aparente apatia, de onde emergia só quando solicitada e adequadamente estimulada. Porém, estava sempre disponível e nunca ninguém lhe ouvira uma recusa ou um frugal não sei. Tinha sempre soluções. Acusavam-na de não ser empática e viver num mundo que raramente se abria. Contudo, para quem a conhecia como Consciência, Lógica estava sempre presente e disponível. Apenas não gostava de se intrometer.
Naquela tarde, as duas amigas continuavam tomadas por um mutismo e um temor próprios da incerteza do momento. Pelo menos assim pensou Consciência, que, afundando-se de novo no sofá, olhou de soslaio para a sua amiga e disse:
— És sempre a mesma coisa! Tens-te por muito fina, mas és incapaz de mexer uma palha!
Lógica, que se encontrava entretida a nada fazer, respondeu com serenidade. — Estava perdida no meu vazio, num limbo sem passado, presente ou futuro.
Para Lógica sempre fora assim. O tempo eram ranhuras no calendário, pequenos traços impessoais, todos iguais, sem um ontem, um hoje ou um amanhã. Com um “olhar bovino” fixou a sua amiga e tentou um diálogo. – Se me perguntares, posso calcular com facilidade qual a força do vento que abriu a janela e fez tombar o copo, ou qual a força necessária para quebrar qualquer outro objeto aqui na sala. Se te incomodas com aquele copo partido, talvez eu te possa ajudar calculando a probabilidade de caírem cadeiras, virar a mesa ou mesmo partir-se o espelho onde passas horas a “mirar-te”. – Sabias que os humanos dizem que quando um espelho se parte ocorrem sete anos de “azar”? Queres que te calcule para os espelhos que se partiram desde sempre, quantos anos acumulados de desgraças os humanos ainda têm de penar? perguntou Lógica, que nunca antevia os limites da sua inconveniência.
— Que me importa que consigas esses cálculos – replicou Consciência, se não te apressas a corrigir o que está mal? Que me interessa que sejas exímia em contas se não percebes que, com a janela aberta, outras coisas se podem partir? Coisas que nos fazem falta! Tu distraída como és, parece que nunca dás valor, ou que tudo te é indiferente. Gostava que fosses mais interventiva, que interferisses com o curso dos acontecimentos e não te limitasses a essa estúpida matemática da desgraça.
Lógica, se tinha algo de bom, era nunca se incomodar com o que lhe diziam. Mesmo que fossem agressivas, ou lhe apontassem um qualquer erro, seria sempre um erro estatístico, nunca uma outra história ou uma nova narrativa. Para ela, a força do vento abrira a janela, o copo caíra e partira-se. Tudo se resumia a uma sequência de cálculos, impessoais, intemporais e sem outro propósito que não de causa e efeito. Como reforçava frequentemente, façamos os cálculos que fizermos, eles serão sempre intemporais, sem passado, sem futuro.
Para Consciência, o mundo não era assim tão linear. Havia histórias, sentimentos, narrativas, maneiras de o ver. O ontem era imutável, o presente estreito e o futuro era sempre incerto. Para Consciência, o mundo era causal, mas para ter sentido teria de ser lido numa causalidade retrógrada.
O presente só tinha sentido porque ela, Consciência, era testemunha, tinha memória, passado e história. O copo estava partido porque ela assim o sentia. Consciência, tal como Lógica, a sua amiga, conseguia encontrar um nexo causal nas coisas, mas também tinha a capacidade de refazer os acontecimentos, e em retrospectiva, de lhes dar contexto, narrativa e propósito. Algo que Lógica, numa análise fria e impessoal, nunca seria capaz de fazer.
Para Lógica, qualquer acontecimento era sempre um resultado inevitável de variáveis físicas, algo que se podia antecipar sem que nisso alguma vez houvesse intenção de interferir. Para a sua amiga, todo o acontecimento exigia interpretação, reconstrução, memória e antecipação. Era nisso que se distinguiam e completavam.
Consciência continuava com os olhos presos aos cacos no chão, como que ensimesmada entre o objeto partido e o seu significado.
— Vês? — disse, sem olhar. — O copo partiu-se. Vejo – respondeu Lógica, que como era habitual tinha sempre uma leitura literal dos acontecimentos — um artefacto de vidro falhou estruturalmente após impacto com o solo. Era previsível.
— Um artefacto…, repetiu Consciência, com um meio sorriso cansado. — Para ti, talvez. Levantou-se, aproximou-se do monte de cacos e ajoelhou-se. Pegou num fragmento maior, ainda reconhecível, e segurou-o com cuidado.
— Sabes quando recebi este copo?
— Não, e também não vejo qual a relevância da informação.
— Aquele copo foi-me dado pela minha avó quando tinha dezasseis anos. Deu-mo no dia em que disse que já era adulta que bastasse para tomar conta das coisas. Via-me como uma cuidadora capaz de zelar por algo frágil como um copo. Disse-me sussurrando, como só ela fazia quando se queria fazer entender, que no mundo há coisas frágeis, coisas que importam e de que é preciso cuidar.
Eu sei, continuou Consciência, que nunca tiveste infância, que para ti tudo o que é passado são espectros no presente, objetos imateriais com que é impossível interagir. Nunca te vai pesar a memória do passado.
— A origem do objeto não altera as suas propriedades físicas e materiais — observou Lógica.
— Altera o que se partiu — respondeu Consciência enquanto passava o dedo pela aresta irregular do vidro. — Era o copo de que mais gostava. Usava-o sempre que precisava de me aconchegar na lembrança da minha avó, do cheiro da cozinha, das tardes longas, ou de uma infância em que o tempo não corria como agora.
— Essas associações são subjetivas. Não fazem parte do objeto, dizia Lógica que nunca entendia as conversas quando estas divagavam e perdiam o foco.
— São histórias que fazem parte de mim. Aquele copo, por muito irrelevante que parecesse, era em mim que existia.
Houve um breve silêncio. O vento continuava a investir contra o vidro fechado com uma força que oscilava entre a meiga carícia e os rugidos de quem encontra na resistência uma necessidade de afirmação.
— Do meu ponto de vista — retomou a Lógica — nada foi perdido. Um objeto foi destruído. Pode bem ser substituído por outro equivalente.
A Consciência deixou escapar uma gargalhada seca. — Por outro equivalente! Diz-me se quando algo se parte não se esfuma também a memória da presença? Diz-me o que é para ti recordar algo?
— Recordar é recuperar dados do seu ponto de armazenamento.
— Não, recordar é um peso, corrigiu Consciência, enquanto colocava de novo o caco no chão, e o fazia como quem devolve algo a um lugar que exige cuidado.
— Este copo não caiu apenas. Levou consigo uma tarde, uma voz, uma mão envelhecida. Levou alguém que já não pode dar-me outro.
— Estás a atribuir causalidade excessiva a um simples evento físico.
— Estou a reconhecer consequências. Nem todas as consequências têm expressões matemáticas. Para ti, no teu mundo binário e causal, toda a consequência tem uma causa. Pois deixa-me que te diga que muitas vezes, demasiadas vezes, não é assim. Uma causa pode ter uma ou várias consequências, tudo depende do contexto. O contexto é que determina o valor das coisas, nunca as coisas em si.
Já há muito, continuava Consciência, que sempre se empolgava quando falava destes assuntos, há demasiado tempo, deixamos de ser condicionadas por causas e efeitos. Quando as causas são múltiplas e interferem entre si, perde-se a razão e a lógica direta e, uma causa que aparentemente deveria ter uma só consequência, passa a ter uma multiplicidade delas, uma mole tanto maior quanto mais complexas são as interações. E algumas, as mais importantes, as que só se sentem, não têm como ter expressão matemática. E isso é algo que nunca vais entender.
— As consequências emocionais não alteram o encadeamento causal, respondeu uma Lógica que nunca entendia a diferença entre ser e sentir.
— Não, mas alteram quem sobra, quem fica depois dele, respondeu Consciência, que se levantou e foi até à janela, certificando-se de que estava bem fechada. Ficou ali alguns instantes, a mão pousada no vidro frio.
— Há uma coisa com que tu nunca vais ter de lidar.
— Apenas uma?
— Uma, principalmente – a entropia.
— Essa é boa, respondeu Lógica que se via sempre enciclopédica no conhecimento. – A entropia é uma variável física bem definida. Posso descrevê-la, medi-la, ou incluí-la em equações. Posso usá-la como preferires!
— Não é dessa entropia que falo. Refiro-me à entropia que é importante para quem tem de fazer pontes, e tu nunca fazes pontes. Nunca ligas o passado ao futuro. Para ti, todos os estados são permutáveis. Nada se perde, nada se acumula.
— Os sistemas físicos acumulam sempre entropia independentemente do que se ache deles, respondia uma Lógica para quem a entropia lhe dizia muito mais de que os sentimentos.
— Mas tu não a carregas. Eu carrego o que já não pode ser reorganizado. O ontem pesa. O futuro ameaça. O presente é estreito porque está comprimido entre os dois, dizia Consciência enquanto olhava para o que sobrava das suas memórias.
— Isso é uma interpretação subjetiva do tempo.
— É o preço de estar nele.
— Se quiseres, posso também calcular processos irreversíveis. É só dizeres as premissas e variáveis, e dar-te-ei o resultado, dizia Lógica sempre orgulhosa das suas capacidades.
— Pois, mas não tens de viver com eles. Cada erro teu pode ser apagado. Para ti, não há desgaste.
Houve uma pausa longa.
— A entropia, para mim, não é desordem — disse Consciência. É aquilo que não pode voltar a ser como era. É a seta que me obriga a contar histórias em vez de repetir cálculos.
— As equações funcionam em qualquer direção do tempo, disse a amiga.
— Exatamente. E é por isso que nunca saberás o que é perder algo.
O silêncio que se seguiu não era ausência de som, era só ausência.
A Lógica por fim falou:
— Posso fazer uma pergunta?
— Entre amigas não há permissão, diz lá o que incomoda, respondeu Consciência que persistia em pensar que todos viam o mundo da mesma forma que ela.
— O sistema continua operacional. A janela está fechada. Nenhuma função essencial foi comprometida. No entanto, deteto uma diferença que não consigo quantificar, e aqui a minha questão, será que se pode perder algo quando tudo continua a funcionar?
Consciência fechou os olhos por um instante. — Perde-se o que não pode ser substituído. O que não tem equivalente funcional. O que não volta a caber em lado nenhum.
— O que deixou de ser possível depois disto? — tentou reformular a Lógica.
Consciência abriu os olhos e olhou-a de frente. — É impossível morrer na memória de alguém. Aquele copo ajudava-me a recordar isso. Nada mais foi dito.
Passados minutos, Consciência levantou-se devagar, pegou num pano e, com gestos lentos, recolheu os cacos. Colocou-os num saco como se os pretendesse preservar.
A Lógica observou.
— Vais guardar os fragmentos?
— Não sei — respondeu Consciência, mais tarde decidirei. E, sem mais justificações, colocou o saco num armário alto, onde se guardavam objetos que não se sabe se ainda são úteis. Depois abriu a gaveta de baixo e retirou um copo novo, intacto. Ficou a olhá-lo por um instante, como quem encara uma nova personagem, e voltou a pousá-lo.
— Não é para hoje, disse melancolicamente.
A sua amiga nada perguntou.
Consciência regressou ao sofá. O vento continuava lá fora e a janela mantinha-se fechada. Pela primeira vez desde que o copo se partira, a sala parecia maior. Não por ter ganho espaço, mas por ter perdido algo para sempre.
Lógica retomou o silêncio, e Consciência ficou a construir pontes entre a memória e o desejo.
# Escrito em Florença, em época natalícia, numa esplanada junto ao Arno, entre “flutes de Prosecco” e boas memórias. Boas Festas