Há um número crescente de adolescentes e jovens que não estudam nem trabalham e que se afastam da vida social. Passam o tempo isolados nos seus quartos, ligados à internet, a jogar online e a fazer scroll infinito nas redes sociais. São chamados hikikomori.

Em 1998, o psiquiatra japonês Tamaki Saito introduziu pela primeira vez o termo hikikomori, referindo-se a um fenómeno de isolamento social extremo e prolongado, principalmente entre adolescentes e jovens adultos japoneses do sexo masculino. Saito define esta condição clínica como uma situação em que o indivíduo se retira voluntariamente da vida social durante pelo menos seis meses, permanecendo confinado em casa, frequentemente apenas no seu quarto, evitando contacto social, escolar e profissional.

Mais do que uma curiosidade clínica japonesa, o hikikomori tornou-se um sinal inquietante do nosso tempo: uma sociedade hiperligada que, paradoxalmente, pode deixar muitos jovens cada vez mais sós. Inicialmente estes casos tiveram pouco impacto na comunidade médica, levando a supor que se tratava de situações clínicas restritas ao Japão, sendo considerados como síndromes psiquiátricos ligados à cultura. Mas, posteriormente, foram descritos casos semelhantes em países como Coreia do Sul, Índia, EUA, Espanha, incluindo Portugal, sugerindo que estamos perante um fenómeno global.

Tomemos o exemplo de Charlie. Ele tinha 15 anos quando a sua vida, de forma inexplicável, se reduziu ao espaço da cama de baixo do beliche no pequeno apartamento da família em Hong Kong. Tudo começou após uma discussão com um professor e por ter ouvido críticas de colegas. No início ainda tentou continuar a ir à escola, mas acabou por se fechar completamente no quarto, onde permaneceu em reclusão durante vários meses. Não respondia às mensagens dos amigos, nem desabafava com ninguém, pois sentia que ninguém o compreendia.

Os pais ainda o incentivavam a sair ou a regressar à escola, mas acabaram por se habituar à sua reclusão. Passava os dias deitado na cama, onde comia, só se levantando para ir à casa de banho ou levar os pratos à cozinha. Como muitos jovens nesta condição, dormia durante o dia e acordava ao anoitecer. À noite, enquanto a família dormia, ficava acordado durante horas a fazer scroll no telemóvel.

Este caso ilustra o facto de que este fenómeno não é exclusivo do Japão. Existem numerosos relatos publicados na imprensa mundial que revelam que este isolamento social extremo afeta jovens em vários países, cada um com a sua própria trajetória de sofrimento e solidão.

O hikikomori tem sido  associado ao uso problemático de redes sociais e jogos. A solidão atua como mediador importante entre o uso indevido dessas tecnologias e os traços desta condição de isolamento extremo, sugerindo que o envolvimento excessivo em jogos e redes sociais pode tanto ser consequência como fator de manutenção do isolamento social.

De qualquer modo, a  natureza deste quadro clínico parece ser multifatorial, com elevada comorbilidade, já que cerca de metade dos indivíduos têm outras doenças psiquiátricas (perturbações do humor, da ansiedade, do controlo de impulsos ou relacionadas com o abuso de substâncias). Este é um bom exemplo de como as novas tecnologias, quando se tornam refúgio permanente e substituto da relação humana, podem agravar vulnerabilidades psicológicas pré-existentes e dificultar a reintegração social.

Estes casos têm de ser compreendidos e acompanhados adequadamente, não devendo ser confundidos com preguiça ou com uma simples dependência da internet. Caso contrário, o fenómeno pode perpetuar-se, tornando-se uma “adolescência sem fim”, levando à diminuição das competências sociais e profissionais desses jovens. A família tem um papel importante na reabilitação. Por isso, o tratamento deve envolver todos os seus membros, favorecendo a escuta empática e privilegiando a reintegração gradual do jovem no convívio familiar, antes de tentar a reinserção social mais ampla.

Assistimos a um aumento de casos de pessoas jovens com isolamento social extremo, fechadas numa espécie de caverna digital. Este é um assunto que deve merecer a atenção de todos. Convém não esquecer o seguinte: o que torna humana a vida é o facto de esta ser passada na companhia de outros seres humanos. Sem o outro talvez possamos sobreviver, mas não poderemos viver humanamente.