Vivemos um tempo em que o crescimento do conhecimento e da informação atinge uma velocidade sem precedentes. O que antes se acumulava em séculos agora transforma-se em meses; o que exigia estudo e transmissão inter-geracional cabe num ecrã e renova-se diariamente. Apenas através da Inteligência Artificial é possível acompanhar, em tempo real, as ideias, os dados e as descobertas que emergem a cada instante. A pesquisa passiva, tal como a conhecíamos, a pergunta seguida da resposta, a busca seguida do resultado, tornou-se obsoleta. O Google envelheceu como envelheceu a enciclopédia: ambos substituídos por um novo tipo de relação com o saber: interactivo, dialógico, dinâmico.
A Inteligência Artificial aumenta, neste sentido, a idade da reforma. Não a reforma administrativa, mas a reforma cognitiva. Quem não entrar no trilho da IA, quem não a utilizar como ferramenta de estudo, pesquisa e desenvolvimento, ficará inevitavelmente para trás. Se o problema do século XX foi o do info-excluído (aquele que não possuía literacia digital), o desafio do século XXI é o do excluído cognitivo: aquele que abdica da possibilidade de aceder ao conhecimento dinâmico e em permanente mutação. O saber já não se acumula: flui. E quem não aprender a fluir com ele deixará de pensar em tempo real, tornando-se anacronismo vivo num mundo em aceleração.
Como em todas as revoluções tecnológicas, funções e profissões desaparecerão. Não por colapso do trabalho, mas por mutação do seu fundamento cognitivo. As tarefas rotineiras serão absorvidas pela automação; as intelectuais, reconfiguradas pela simbiose homem-máquina. Os que se adaptarem, os cogno-incluídos, continuarão a ser os profissionais do futuro: os mesmos de hoje, mas evoluídos, expandidos, ampliados pela IA. Os que resistirem permanecerão fora da nova ecologia do saber, tornando-se cogno-excluídos, incapazes de acompanhar a complexidade do real.
A história do conhecimento humano mostra que cada salto tecnológico corresponde a uma mutação mental. Durante séculos, o saber foi oral, sustentado pela memória colectiva. Com a escrita, tornou-se fixo, mas restrito a minorias letradas. A imprensa de Gutenberg, no século XV, multiplicou os livros e abriu a primeira grande democratização do saber. O Iluminismo e a Enciclopédia tentaram organizá-lo racionalmente; a Internet universalizou o acesso. Agora, a Inteligência Artificial inaugura uma nova viragem: já não pesquisamos, dialogamos com o conhecimento.
Em mil anos, passámos de uns poucos megabytes manuscritos (todo o conhecimento registado pela humanidade caberia, hoje, numa simples pen) para, em 2000, 5 exabytes de informação por ano, o equivalente a um DVD de dados por cada habitante do planeta. Hoje, são cerca de 180 zettabytes anuais de informação produzida, 36 mil vezes superior ao volume de informação criado por ano, 25 anos atrás. Este salto, porém, não é apenas quantitativo, ele é ontológico. A informação deixou de ser estática, registada e finita; tornou-se dinâmica, auto-geradora, interactiva. Produz-se, interpreta-se e reconfigura-se em tempo real. Já não acumulamos dados: vivemos dentro deles. E só a Inteligência Artificial é capaz de ler, sintetizar e devolver ao ser humano um sentido coerente nesse oceano de complexidade.
Por isso, a IA não ameaça o homem, mas prolonga-o. Prolonga a sua capacidade de aprender, de criar, de permanecer mentalmente activo. Aumenta, portanto, a verdadeira idade da reforma: não a do corpo, mas a do espírito. No passado, o trabalhador reformava-se quando o corpo já não acompanhava o labor físico; depois, quando o conhecimento técnico se tornava obsoleto. Hoje, o que envelhece é o método de aceder ao saber.
Quem se desligar da nova inteligência partilhada, quem permanecer fora deste ecossistema cognitivo, arrisca-se a uma reforma antecipada do pensamento. A exclusão já não se mede em idade, mas em desactualização. A geração que aprender a dialogar com as máquinas que aprendem (machine learning), a questioná-las e a utilizá-las como extensão da própria consciência, continuará a pensar, a criar e a contribuir. O verbo “trabalhar” poderá transformar se, mas o verbo “compreender” permanecerá.
Estamos, pois, perante uma revolução epistemológica (ou, pelo menos, está a desencadear-se uma transformação estrutural no modo de saber, verificar e utilizar conhecimento): a primeira em que o próprio conhecimento se torna interlocutor. Não é uma revolução de ferramentas, mas de linguagem; não substitui o espírito humano, antes o expande. O homem que integrar esta nova consciência híbrida será mais longevo intelectualmente: um incluído cognoscente numa inteligência colectiva que cresce, aprende e se renova consigo.
A idade da reforma, afinal, deslocou-se do domínio biológico para o domínio cognitivo. Reformar se será desistir de aprender; permanecer activo será continuar a pensar com as novas ferramentas da mente. A Inteligência Artificial não nos rouba o futuro, devolve-nos o futuro, mais longo e mais lúcido.