Há não muito tempo atrás, apresentei aqui algumas reflexões sobre o fenómeno da candidatura de Gouveia e Melo e sobre a possível rota do Almirante para Belém, não obstante o meu cepticismo inicial. Gouveia e Melo tinha (e ainda tem) a seu favor o potencial de corporizar de forma relativamente benigna e abrangente a saturação de boa parte do eleitorado português com os dois principais partidos tradicionais do centro: PS e PSD. Beneficia também do contraste de personalidade e postura com Marcelo e da fraca concorrência nestas presidenciais. Perante o panorama pouco estimulante da concorrência que enfrenta, continuo convicto do potencial da candidatura do Almirante mas a verdade é que a campanha de Gouveia e Melo tem deslizado e ficado aquém desse potencial.
A excessiva colagem ao sistema – patente no destaque dado a alguns apoios relativamente aos quais se recomendaria pudor assim como no discurso ensaiado de redentor do sistema – desbarataram parcialmente o principal activo da candidatura do Almirante. Aparecer rodeado de algumas das figuras menos recomendáveis do regime ao longo das últimas décadas não é bom cartão de visita para ninguém – muito menos para quem pretende capitalizar a insatisfação sentida por muitos portugueses com o rumo desse mesmo regime. Não é demasiado tarde para corrigir a rota mas a candidatura terá de fazer mais e melhor do que fez até agora para concretizar a chegada a bom porto do Almirante. Numa outra frente importante, o distanciamento excessivamente marcado face ao Chega conjugado com algumas críticas desnecessárias reduziram a margem de André Ventura para não ir a jogo nas presidenciais. Ao mesmo tempo, esse posicionamento reforçou a já referida colagem de Gouveia e Melo ao sistema, uma colagem que a candidatura do Almirante deveria ter como prioridade evitar a todo o custo.
Com o cenário de uma vitória esmagadora do Almirante logo à primeira volta mais longe do horizonte e perante um quadro de candidaturas com pouco peso, o campo para as próximas eleições presidenciais apresenta-se bastante aberto. É neste contexto que a já confirmada candidatura presidencial de João Cotrim Figueiredo deve ser enquadrada. A seriedade e comprometimento de Cotrim no anúncio público da candidatura em directo na SIC foram sinalizados pelo (invulgar no seu caso) uso da gravata – uma opção que Trump e outros observadores atentos das formalidades da indumentária masculina certamente aprovariam.
Indo além do plano simbólico, importa salientar que João Cotrim Figueiredo é inequivocamente um candidato presidencial bem mais forte do que seria a anteriormente pré-anunciada Mariana Leitão, entretanto aclamada como nova líder da IL. Enquanto uma candidatura presidencial de Mariana Leitão valeria neste momento com elevada probabilidade menos do que o peso da IL, uma candidatura presidencial de João Cotrim Figueiredo deverá ambicionar valer bem mais do que o actual peso do partido, tendo como legítimo objectivo conquistar eleitorado muito para além desse horizonte partidário. A reconhecida capacidade performativa de Cotrim, a sua excelente imagem mediática e a experiência política entretanto acumulada todas reforçam o potencial da candidatura apoiada pela IL.
Nesse sentido, os dois dígitos devem ser perspectivados como um objectivo mínimo para a candidatura de João Cotrim Figueiredo. Perante a ausência de candidatos fortes e com um cenário de forte fragmentação, o objectivo principal – difícil mas certamente não inalcançável – deve ser claramente o de passar à segunda volta. É certo que a candidatura tem algumas fraquezas. Não abdicar da posição no Parlamento Europeu é uma decisão compreensível mas que abre a porta à crítica de ser um “candidato em part-time” como prontamente se referiu a Cotrim o Almirante Gouveia e Melo. E pode também ser apontado a Cotrim o facto de ser candidato a (quase) tudo num intervalo de tempo relativamente curto, fazendo dele na prática uma espécie de Ventura à escala da IL. Mas o que Cotrim precisa mesmo de evitar nas actuais condições é ter falta de ambição. Como bem salientou Rui Albuquerque na sua (significativa) declaração de apoio pública a Cotrim: “(…) não pode falar em “ambição” e previamente dizer que se chegar aos dois dígitos já será muito bom. Vai-se a eleições para ganhar, ou pelo menos para tentar ganhar, senão não há incentivo para o voto. Por que motivo votaria num candidato que anuncia que já sabe que vai perder? Por último, esteve muito bem em declinar a intervenção presidencial em políticas sectoriais executivas, mas o Presidente da República Portuguesa também não é a rainha de Inglaterra. Precisa de afinar melhor esse discurso. E se quer representar a ambição de um país melhor, essa ambição terá de começar nele próprio.”
Num campo tão fragmentado, é perfeitamente possível que um resultado em torno dos 20% seja suficiente para passar à segunda volta e isso deve estar certamente no horizonte de João Cotrim de Figueiredo, ainda para mais considerando que já neste momento existem sondagens que colocam a sua base de apoio de partida nos dois dígitos. Além de constituir uma oportunidade única para lançar a IL para voos eleitorais mais altos, a candidatura de Cotrim coloca também sérios problemas tanto a Marques Mendes como a André Ventura. Ao candidato apoiado pelo PSD por Cotrim poder previsivelmente entrar muito bem em boa parte do eleitorado de centro-direita, particularmente no mais jovem e urbano. Ao líder do Chega por aumentar substancialmente o risco de ver um candidato apoiado pela IL ficar à frente do candidato apoiado pelo Chega – o que constituirá um impulso adicional para que Ventura se sinta mesmo obrigado a avançar (uma vez mais) como candidato, de forma a mitigar esse risco.
A candidatura de Cotrim seria potencialmente mais interessante para Seguro que, com a maior fragmentação à direita, vê aumentar a possibilidade de passar à segunda volta – mas também já se percebeu que a extrema-esquerda e a esquerda radical (uma parte da qual no interior do próprio PS) farão tudo que estiver ao seu alcance para impedir esse cenário.
A verdade é que estamos perante umas das eleições presidenciais mais abertas do último meio século e a candidatura de Cotrim é simultaneamente um sintoma e um factor impulsionador dessa abertura e imprevisibilidade. Gouveia e Melo continua a ser o favorito mas tudo está em aberto: seja relativamente à passagem à segunda volta, seja quanto ao vencedor final. Neste cenário, Cotrim pode e deve sonhar, pelo menos, com a passagem à segunda volta. Assim não lhe falte a ambição para imaginar a possibilidade de Portugal ter um liberal em Belém.