1 Há por aí muito boa gente incapaz de ver a realidade. Ou porque não consegue mesmo, não estando bem informada, ou porque está e prefere a ilusão, ou a mistificação, à realidade. O caso paradigmático na semana passada foi o acordo ainda frágil em direção à paz em Gaza e a putativa atribuição do Nobel da paz a Donald Trump. Este acordo permitirá esta semana o cessar-fogo, a troca dos reféns israelitas por prisioneiros palestinianos, e o recuo da zona ocupada militarmente por Israel. Libertar os reféns capturados no ataque terrorista do Hamas e ao mesmo tempo terminar o massacre perpetrado pelo governo israelita em Gaza, são boas notícias e abrem uma janela de esperança. Porém, faço parte dos céticos. Com os reféns libertos, nada deterá Netanyahu de outra aventura militar. Pretextos não faltarão enquanto estiver à frente do governo de Israel.
Aquilo que verdadeiramente surpreende é como os media internacionais e nacionais foram atrás de mais uma ideia megalómana de Donald Trump, a de que poderia ganhar o Nobel da Paz. Para além de não ter as características pessoais de coragem e integridade para o receber — como referiu, sem o dizer, o Presidente do comité Nobel — Trump foi o grande apoiante das guerras que diz ter terminado. Teria Israel atacado o Irão sem o apoio da inteligência e do armamento americano? Teria invadido Gaza contra a opinião americana? Certamente que não. Em relação à guerra da Ucrânia, que prometeu acabar em 24 horas antes de ser eleito, têm-se visto os diversos volte-faces que tem assumido nas relações ora amigáveis ora hostis com Zelensky e Putin, e na posição sobre as concessões territoriais ucranianas. Com este histórico e as características pessoais alguém acreditaria que pudesse ganhar o Nobel?
2 Quem também não consegue ou não quer ver a realidade, são os políticos franceses. Com a esperança de vida a aumentar, algo tem de mudar no sistema de segurança social. Uma das possibilidades é aumentar a idade de reforma que em França era de 62 anos até 2023. Só nesse ano foi aprovada uma reforma para aumentar progressivamente a idade de reforma ao longo dos anos de forma a atingir os 64 anos. Mesmo assim situando-se bem abaixo da idade estatutária na maioria dos países europeus, incluindo Portugal. Mas mesmo esta lei está a ser contestada pelos partidos de direita, os mais à esquerda e mesmo pelo partido socialista francês que também se recusa a ver a realidade. Enquanto isto, a França tem défices excessivos desde a pandemia, um peso da dívida pública que não pára de aumentar, numa trajetória insustentável das finanças públicas. Acresce uma grande instabilidade política com a demissão do primeiro-ministro Lecornu que Macron decidiu renomear, num gesto que foi considerado uma provocação pelos partidos à esquerda e à direita. Qualquer que seja o resultado da votação da moção de censura anunciada para hoje, a França é o grande candidato a país responsável por mais uma crise das dívidas soberanas na Europa, pela sua dupla incapacidade de equilibrar as suas contas públicas e de ter estabilidade política. Começa a ser altamente provável, sendo apenas uma questão de tempo.
3 Se os políticos franceses não conseguem, ou não querem, perceber o que se está a passar em França, nomeadamente com as pensões, é importante que em Portugal se percebam duas coisas essenciais. A primeira, é que seremos muito provavelmente afetados, dentro de alguns anos, por uma crise financeira de um grande país da zona euro e, por isso, é essencial prosseguirmos a trajetória de consolidação orçamental e de redução do peso da dívida. A segunda, é que o Orçamento de Estado de 2026, que acaba de ser apresentado, diminui esse esforço de consolidação, que pode bem até não existir, abranda o ritmo de redução da dívida pública e pode significar o início de uma rampa descendente nas finanças públicas. Conforme tive ocasião de explicar aqui, o nosso quase equilíbrio orçamental esconde um défice da administração central que exige um aumento da emissão de dívida pública. Este défice prevê-se que se agrave significativamente para o ano, para quase sete mil milhões de euros e para o cobrir já nem chegará o excedente da segurança social, como neste ano. Será necessário também o excedente da administração regional e local. Estamos numa tendência de agravamento das contas públicas sem justificação macroeconómica, pois a economia continua a crescer e o desemprego está a níveis historicamente baixos. Só não o vê quem não quiser ver.