Gouveia e Melo defende que Portugal precisa de um Presidente da República “isento e independente de lealdades partidárias”. No seu recente artigo, o almirante sustenta que “nenhum Presidente pode ser verdadeiramente «de todos» se estiver claramente associado a uma fação política”. Em teoria, soa como a receita perfeita: um líder totalmente neutro, pairando acima da política mesquinha (em que grupo parlamentar de “não políticos” já ouvimos isto?).
A tese de Gouveia e Melo esbarra num fato básico da natureza humana: ninguém está verdadeiramente isento de afinidades e inclinações políticas. O próprio autor, ainda que militar na reserva, admite situar-se “politicamente entre o socialismo e a social-democracia, defendendo a democracia liberal como regime”. Ou seja, mesmo quem clama por independência total traz na bagagem preferências ideológicas (no caso dele, uma simpatia pelo centro-esquerda liberal). Esperar que um presidente surja como uma tábula rasa ideológica é tão realista quanto esperar que um árbitro de futebol não tenha tido uma equipa do coração na sua infância. Todos temos background, valores e visões de mundo que inevitavelmente influenciam nossas decisões. Gouveia e Melo por exemplo tem uma forte ligação às instituições militares e terá certamente ideias bem formadas sobre o financiamento da defesa. Acreditar no mito do político completamente neutro é ignorar que até a escolha de “não ter lado” já é, em si, tomar um lado.
Vamos entrar no reino do sarcasmo (moderado como Gouveia e Melo, claro) para testar a tese. Gouveia e Melo quer um chefe de Estado sem ligações políticas domésticas — impecavelmente neutro. Ora, se levássemos essa lógica ao pé da letra, a solução “óbvia” seria importar um Presidente, não? Em vez de escavar internamente por alguém supostamente isento, poderíamos seguir exemplos históricos. Lembremos que a Roménia do século XIX literalmente importou um monarca estrangeiro: em 1866, os romenos trouxeram Carol I, um príncipe alemão, para ser seu rei com a nobre justificação de que um forasteiro não estaria enredado nas disputas locais nem preso a facções nacionais. O México também já teve experiência similar, quando Maximiliano de Habsburgo, arquiduque austríaco, foi entronizado imperador “externo” com apoio francês
Em ambos os casos, a ideia era clara: alguém de fora seria supostamente neutro, acima das querelas intestinas.
O caso do Rei Carol I na Romênia até trouxe estabilidade e modernização, mas ele certamente não era neutro; tinha seus próprios interesses (e os da Prússia) em mente, além de precisar construir alianças locais para governar. Já o experimento mexicano com Maximiliano foi um fiasco sangrento: o austríaco, escolhido por suposta neutralidade (mas leal a Napoleão III), acabou visto como fantoche estrangeiro e enfrentou resistência interna até ser deposto e fuzilado. Ou seja, a equação “vindo de fora = isento” não fecha. Um presidente importado de fora da politica chegaria eventualmente sem vínculos partidários locais, sim, mas traria inevitavelmente sua bagagem cultural, suas ideologias e possivelmente lealdades (no caso de Gouveia e Melo ás instituições militares).
A neutralidade absoluta, portanto, é uma panaceia duvidosa – mesmo que seja com um “português de bem” – “acima de partidos”;
Diria mesmo que o clamor por um presidente totalmente isento parece ignorar como funcionam as sociedades e as democracias. Para começo de conversa, qualquer pessoa que ascenda à posição de Presidente chegará lá com apoio de alguém – de eleitores, de grupos, de ideias políticas que ressoaram com a população. Esse apoio já indica alinhamentos. Gouveia e Melo afirma, corretamente, que o Presidente “não está ao serviço dos partidos, está ao serviço dos portugueses”. Porém, servir ao povo não exige obliterar todas as convicções pessoais – exige, isso sim, colocar o interesse coletivo acima dos interesses partidários imediatos. É bem diferente de fingir que o presidente não teve, não tem e nunca terá preferências.
Ao ler o texto de Gouveia e Melo, fica a impressão de que se busca um Santo Graal político – um presidente impoluto, imune a simpatias partidárias, flutuando acima dos mortais e suas querelas mundanas. Se levarmos esse sonho a sério, teríamos que importar um presidente ou talvez criá-lo em laboratório, já que em solo pátrio todos têm história e preferência. E mesmo o importado ou fabricado viria com algum “chip” ideológico pré-instalado.
A via para ter um bom presidente é reconhecer que, sim, o Presidente deve buscar ser equidistante e justo, mas jamais será um ser apolítico. Democracia de verdade se faz com transparência de posições e compromisso com o bem comum, não com a negação fantasiosa de que afinidades existem. Portugal não precisa de um príncipe vestido de branco no seu cavalo lusitano para salvar a donzela; precisa de líderes conscientes de suas tendências e com experiência política necessários para agir com imparcialidade dentro do possível. Isso sim é honrar a democracia!!!