Há lugares onde o mar já começou a recuperar o que sempre foi seu. Ali, junto às falésias gastas  e ao cordão dunar ferido, as dunas recuam a cada inverno, derrotadas pela força das marés. As  raízes expostas de velhos pinheiros denunciam um território a perder a batalha, não contra o  tempo, mas contra a nossa negligência. Onde antes havia areal largo e seguro, hoje o oceano  avança sem pedir licença.

Esta imagem, que poderia ser de tantos recantos da nossa costa, e que observo da minha janela,  voltada para a linha da Costa da Caparica, é o retrato silencioso de uma realidade maior, da forma  como, indiferentes ou distraídos, assistimos à degradação do território que habitamos.

Estudamos, debatemos, alertamos, e, no entanto, a cada ano que passa, o plástico nas ondas, as  beatas no passeio, os sacos largados em campos verdes e trilhos esquecidos, lembram-nos que  o ser humano é, tantas vezes, o maior inimigo da sua própria casa.

Penso que é esta desconexão, entre o saber e o agir, que tem moldado também as cidades onde  vivemos. Falamos de inovação urbana, mas confundimos inovação com espetáculo, aplicações  que dizem o estado do trânsito sem resolver o trânsito, semáforos inteligentes que piscam mais  depressa, mas que não mudam comportamentos.

Na minha opinião, inovar deveria ser, antes de tudo, construir territórios mais resilientes, mais  habitáveis e, acima de tudo, mais respeitados. Quando desenho políticas públicas, começo pelos  alicerces, pela sustentabilidade urbana e ambiental.

É neste campo que os Planos de Ação Climática ganham relevância, embora tantas vezes  ignorados. Estes planos existem para preparar os municípios para um futuro onde fenómenos  como secas prolongadas, cheias súbitas ou ondas de calor deixarão de ser exceções. Ainda assim,  apesar de cerca de 45% dos municípios portugueses terem subscrito compromissos  internacionais como o Pacto dos Autarcas, apenas cerca de 30% têm hoje Planos de Ação  Climática aprovados e em vigor — um número modesto para quem já sente a força da natureza  a bater à porta.

Importa referir que, a nível europeu, existem compromissos voluntários, mas em Portugal não  há obrigatoriedade legal nem uma fiscalização sistemática, e, na minha opinião, esta ausência  de pressão oficial só agrava a falta de ambição com que tantas autarquias olham para o desafio  ambiental.

Aproximando-nos a passos largos de novas eleições autárquicas, é inevitável pensar que a  inovação urbana não se mede em inaugurações, prémios ou slogans de campanha. Mede-se na  capacidade real de antecipar problemas, de construir soluções sólidas, de agir com tempo e  visão, antes da tragédia, e não depois dela. O futuro joga-se onde a vida acontece, no bairro, na  rua, na decisão de plantar uma árvore, de recuperar uma duna, de construir um passeio que  absorva a água da chuva em vez de a empurrar para a próxima inundação.

Lembremo-nos que a natureza não espera, e o território que deixarmos para trás será,  inexoravelmente, o reflexo das escolhas que fizermos hoje.