Muitas lágrimas foram choradas nos últimos anos por as redes sociais se terem substituído ao jornalismo. Por toda a parte as redes sociais são devolvidas à categoria de forças maléficas. Nalguns casos mais atrevidos são até denunciadas como causas exclusivas do que hoje se diz ser, com assomos de novidade histórica, a “crispação” ou a “polarização”, trazendo o grande Satã de volta sob a figura do maligno “algoritmo”. Quanto à novidade histórica da “polarização” ou da “crispação” não vale a pena perder dois segundos. Só pode afirmar uma coisa dessas quem possui a consciência histórica de uma pedra da calçada e passa tempo a mais nas redes sociais. Mas a rivalidade fingida entre o jornalismo e as redes sociais fez subir à superfície uns quantos equívocos. Nuns momentos, por ingenuidade; noutros, por má-fé.
O jornalismo é superior às redes sociais porque a estas falta, diz-se, uma superior mediação. Ora, a mediação, quando praticada segundo velhos padrões de racionalidade e objectividade, é um recurso precioso na compreensão da realidade e permite perceber como a apresentação pseudo-bruta dos “factos” insinua outras tantas ilusões e mentiras. Sucede que chegámos a um momento da nossa experiência democrática em que a traição à missão nobre da mediação jornalística autêntica excedeu tudo o que podia ser assimilado como ruído estatístico acidental ou simples e compreensível erro profissional.
Desde a tentativa de fundação de um regime de liberdades individuais no Ocidente que a imprensa desempenhou um papel insubstituível. Não é arriscado dizer que esse regime das liberdades não é sequer viável sem uma imprensa livre e plural. De resto, as liberdades de que esse regime – o nosso regime – é o paladino têm no seu centro a liberdade de consciência. Tanto a liberdade de expressão, como a liberdade de imprensa são duas das sua declinações directas. Porém, a concretização da missão indiscutível da imprensa livre e plural trouxe duas confusões.
A primeira era a de que sendo um elemento liberal nesta nova sociedade – uma sociedade que sucessivamente ia abolindo as sedes de formação da autoridade desde a família até ao altar –, a imprensa não se afastava dos seus parâmetros. Isto é, a imprensa livre e plural com o seu potencial e historial de agitação, na política e nas crenças, não dependia da conservação da ideia da autoridade. Historicamente, parecia que todas as sedes de autoridade – o padre, os líderes sociais, o chefe de família, os políticos – caíam pela pena da crítica da imprensa livre e plural, e que só esta permanecia de pé. Na verdade, a imprensa consolidou-se e alicerçou-se como elemento fundamental do regime de liberdades porque conseguiu formar-se como mais uma sede de autoridade. Era simples perceber porquê. Se as pessoas dependiam para o seu acesso à verdade sobre as coisas da fidedignidade das instituições que constituíam sedes de autoridade, à medida que estas foram falindo sobrava a imprensa como sede social de formação do que era verdadeiro e falso. Para que esta autoridade seguisse intacta era crucial, entre outras coisas, que o jornalista-mediador praticasse a sua arte com o único e exclusivo compromisso da publicação da verdade objectiva dos factos.
Muitas foram as mudanças que fizeram com que a expressão “verdade objectiva dos factos” soasse hoje a ingenuidade infantil. Afinal de contas, tanta gente se arvorou em altifalante de Nietzsche e do seu famoso aforismo anti-positivista “não há factos, só interpretações.” Mas há um aspecto que se tornou um lugar-comum aparentemente irrepreensível que vale a pena perceber. Chamemos-lhe a nossa segunda confusão.
Trata-se da ideia de que o jornalista-mediador é um “guardião da democracia” e que é segundo essa bitola que deve pautar a sua actividade enquanto jornalista. A resposta a esta perturbação da consciência jornalística é simples: não deve. Nem vou perder tempo com a observação repetida que o jornalista é uma pessoa como as outras e, portanto, também tem as suas preferências partidárias. Nem isso é uma objecção, como ignora que a vocação jornalista tem a sua dimensão mais nobre precisamente quando a actividade é dedicada à revelação da verdade objectiva dos factos – e essa revelação sacrifica o seu lado partidário. Por exemplo, o jornalista de esquerda que revela os podres de um governo esquerdista que provavelmente ajudou a eleger. Ou o mesmo vindo de um jornalista de direita. É esse brilho e essa responsabilidade que densifica a nobreza da imprensa. Tal não é difícil perceber para quem precisamente não julgue que a vitória do partido é a derradeira justificação e redenção dos seus actos.
No entanto, o título de “guardião da democracia” que o jornalista atribui a si mesmo acaba por conduzir a negações flagrantes da missão do jornalista-mediador e, no final das contas, a destruir a autoridade da imprensa livre e plural. O equívoco vem de uma interpretação errónea do lugar da imprensa livre e plural como baluarte do regime de liberdades e da função do jornalista nela. Mas defender a democracia não é um propósito e um valor universais no nosso regime de liberdades? Sem dúvida. O problema é que as declinações e concretizações dessa defesa no quotidiano do jornalista vão força-lo a julgamentos que serão tudo menos universais. Serão contestáveis e infinitamente discutíveis. O que é, no caso concreto, a “defesa da democracia” para uns, não o é para outros – na escolha dos temas, do ângulo de cobertura e análise, no silenciamento dos actores, na propagação dos acontecimentos. Atesta-o à saciedade a implosão da credibilidade jornalística de instituições globais, que em tempos gozaram de uma autoridade infalível, e que hoje a destruíram em nome da “defesa da democracia”, como a BBC. É que a defesa do regime das liberdades depende do conjunto da cidadania – que se quer esclarecida e habituada a julgar na posse dos factos em toda a amplitude que for possível. Não há jornalista-mediador que se possa encarregar a si mesmo de dispensar os seus leitores ou espectadores de o fazer. Muito menos o conjunto das instituições de produção e divulgação de informação.
Os tempos são exigentes para todos. Mas arriscamo-nos a agravar a sua dificuldade se retirarmos a guarda da democracia das instituições especificamente políticas e da consciência cívica dos cidadãos para a transferir para as instâncias de divulgação da informação. Se é de transferências que queremos falar, então que se transfira ânimo generoso das boas intenções do jornalista-mediador para a exigente e nobre missão de informar.