«Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Um homem vestido de roupas finas? Olhai que os que usam roupas magníficas e vivem no luxo estão nos palácios reais. Mas que fostes ver? Um profeta?» Lc, 7, 24-26

A viagem do Papa Leão XIV a França foi um êxito extraordinário. Por onde passou, arrastou multidões exultantes, mesmo no coração do laicismo europeu. Foram centenas de milhares, em Notre Dame, no Estádio de França, nos Campos Elísios, em Lourdes e em Metz. Pessoas de todas as idades, famílias, doentes, muitos jovens, todos esfuziantes com a presença do Papa. E quem olhava para Leão XIV percebia nele a comoção com aquilo que testemunhava. E tudo decorreu sem um incidente, apenas uma celebração de pura alegria pela presença daquele homem.

Mas que foram ver as multidões? Neste tempo de influencers, TikToks, filtros, frases curtas e ideias pequenas, por que saíram estas pessoas à rua? O Papa não é um artista, nem um jogador de futebol. É um boomer, que não resume as suas intervenções a 240 caracteres, nem grava vídeos de 30 segundos.

Para além disso, num tempo em que o debate público se encontra totalmente polarizado, o Papa tem feito da unidade e da concórdia um dos temas centrais do seu pontificado.

É fácil tentar reduzir o sucesso da visita do Papa a um ressurgimento da direita conservadora. Afinal, o Papa não teve qualquer problema em atacar com toda a frontalidade a aprovação da eutanásia em França. Mas também não teve qualquer problema em atacar quem ataca e reduz a dignidade dos imigrantes. Se Macron ficou de orelhas a arder nesta viagem, Le Pen também não terá ficado propriamente contente.

A presença do Papa vai claramente para lá das categorias ideológicas que hoje ocupam totalmente o espaço público. Não é woke, nem populista, nem conservador, nem socialista. Mas, como ele próprio disse no voo de regresso a Roma: «E pode haver políticos, de esquerda ou de direita, que, em situações determinadas, dizem: “Não! A religião deve limitar-se apenas à esfera privada. Deixem as pessoas fazerem o que quiserem por conta própria, mas, enquanto Estado, temos de nos manter separados”. Mas a verdade é que, indo à França, fui principalmente para pregar o Evangelho, para pregar a Boa Nova, para reafirmar o que o próprio Jesus Cristo diz quando afirma: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, ou seja, para proclamar a verdade que Jesus nos oferece.»

Num tempo dominado pela polarização ideológica, o Papa não vem propor mais uma ideologia, mas uma presença: Jesus Cristo, presente hoje. E foi isso que as multidões procuraram.

No tempo actual, onde o individualismo exacerbado criou uma sociedade árida, indiferente, de pessoas fechadas em si mesmas, procurando apenas a satisfação pessoal, as multidões acorreram a ouvir uma voz que clama no deserto. Um profeta, que anuncia que há resposta para o desejo do coração humano que a sociedade tenta cancelar, oferecendo cada vez mais soluções para que as pessoas estejam sempre entretidas, sem nunca pensar na vida.

Uma voz que clama que o desejo de amor, de paz, de felicidade, mas também a dor e o sofrimento, têm uma resposta. Uma presença que abraça os doentes, os frágeis, os descartados. É dessa presença que Leão XIV é sinal, é essa presença que as multidões que encheram as ruas de França desejam.

O momento central da visita do Papa Leão XIV foi a missa celebrada na Place de la Concorde. No mesmo local onde a guilhotina decapitou a velha França, ergueu-se o altar onde pareceu renascer uma nova França. Não a descendente da Revolução e do Terror — ou seja, não a França de Macron, Le Pen e Mélenchon, filhos desavindos da mesma mentalidade revolucionária —, mas o renascimento da França de São Luís e Joana d’Arc, a França das Catedrais, a França que fez nascer a Europa.

Não tenciono fazer adivinhação nem futurologia. Não sei quais serão os efeitos da visita de Leão XIV a França. Mas sei o que vi: um profeta e um povo que saiu à rua para ir ao seu encontro. E espero que isto seja semente para a construção de algo que possa florescer neste deserto do Ocidente, do qual a França é símbolo.