Custa a acreditar que as nossas elites continuem século após século a preferir ser grandes mas vassalas do que pequenas mas livres e portanto que continuem a trabalhar incansavelmente para entregar a pouca autonomia estratégica que nos resta em sectores críticos a empresas estrangeiras.
Foi preciso aliás um estrangeiro para vir documentar copiosamente nas páginas deste jornal o controle crescente de cada vez mais sectores críticos da economia portuguesa por empresas do seu país, tal é hoje em dia o embaraço das nossas elites com o tema, face ao qual quando interpeladas, o que acontece raramente, se limitam sempre a papaguear uma vulgata europeísta mal aprendida, não vão os seus interlocutores estrangeiros habituais, sejam eles patrões, sócios, clientes, credores, homólogos, confrades, congéneres, parceiros ou sócios, ofender-se e zangar-se.
O último caso é mais uma vez eloquente: ao anúncio da intenção de entrega da nossa única refinaria a uma empresa estrangeira, mais uma vez sob o manto diáfano de uma alegada fusão, as elites reagiram com o elogio público da putativa grandeza que daí resultaria ou com o silêncio envergonhado perante os eleitores, a tal ponto que um assunto desta dimensão nem sequer aflorou na campanha presidencial.
E no entanto podíamos socorrer-nos do exemplo que nos dá o Reino da Dinamarca onde os sectores críticos da economia, a começar pela banca, continuam nas mãos de empresas dinamarquesas controladas, muitas vezes há mais de um século, por fundações privadas, que reservam para si a maioria dos direitos de voto ainda que detenham uma minoria do capital, às quais o estado reconhece utilidade pública não lhes cobrando impostos sobre a aplicação dos respetivos rendimentos em finalidades sociais, científicas, culturais ou filantrópicas.
Um EM da UE que, para o efeito da salvaguarda da sua autonomia estratégica apesar de não ter recursos naturais abundantes de natureza mineral, nem mais do que 6 milhões de habitantes, também nunca abdicou da sua própria moeda nem de níveis reduzidíssimos de dívida pública, sempre abaixo de 30 por cento do PIB, o que lhe confere uma extraordinária liberdade no cotejo, e ou no confronto, com países bem maiores, quer dentro quer fora da UE.
E um EM da UE com um nível elevado de coesão social interna, baseada na famigerada flexi-segurança, que habilita os empresários a dispensar rapidamente trabalhadores de acordo com a evolução conjuntural do mercado em troca da sua formação prolongada até encontrarem emprego de novo, modelo que em tempos a CE assumiu e propôs aos outros EM, sem grande sucesso no nosso caso vá-se lá saber porquê.
Não admira pois que seja nesta retaguarda nacional muito sólida que radiquem empresas dinamarquesas fortíssimas que o mundo inteiro reconhece entre as melhores.
Já vamos atrasados, mas seria ainda bom, e patriótico, que as nossas elites empresariais, académicas, políticas e jornalísticas aprendessem com as lições que outros estados-nações europeus soberanos tão antigos como nós nos dão e parassem de alienar o património de autonomia estratégica nacional que o nosso país herdou.
Procurando e encontrando, de preferência no espaço atlântico, e designadamente no mundo lusófono, soluções imaginativas que garantam o controle por portugueses das decisões nos sectores críticos da nossa economia, e da nossa sociedade em geral, a fim de que as gerações vindouras continuem a ser livres.