Nos últimos tempos muito se tem enfatizado e endeusado a “liderança servidora” — um conceito que propõe que o verdadeiro líder seja aquele que serve primeiro, coloca as necessidades dos outros à frente das suas e conduz as organizações com humildade, empatia e altruísmo. Perfeito. A ideia, popularizada por Robert Greenleaf nos anos 1970, é bonita, inspiradora e, à primeira vista, parece ser o caminho último para uma gestão mais humana e mais eficaz.

Mas será que, no mundo real, é possível praticar liderança servidora de forma plena? Ou estaremos diante de mais um conceito deslumbrante, muito embora impraticável nas organizações correntes? Sejamos honestos e vejamos:

Olhe-se a realidade inescapável dos números
As empresas são, antes de tudo, negócios. Devem gerar riqueza (só é possível distribuir riqueza quando ela é gerada o que, para uma boa maioria de pessoas, criar riqueza é um conceito absolutamente desconhecido – na teoria como na prática), pagar salários, aumentar salários, satisfazer investidores, sustentar operações. Um líder pode ser compassivo, mas nunca pode esquecer que tem obrigações financeiras a cumprir – e isso faz parte, também, da sua responsabilidade social. Quando a sobrevivência da empresa está em jogo, servir o bem-estar individual de todos pode tornar-se totalmente inviável. Decisões difíceis, muitas vezes impopulares, terão de ser tomadas — e não são para ferir, são, antes, para preservar.

Olhe-se a natureza imperfeita das pessoas

Pessoas são pessoas e por definição falham. E falham muito. Trazem para as organizações as suas vaidades, medos, inseguranças, ambições, queixas, frustrações. Um líder servidor, que abre espaço para a escuta ativa e para o crescimento de todos, enfrenta, muitas vezes, abusos de boa-fé, tentativas de manipulação e resistências constantes, entre outros. Servir genuinamente, num ambiente humano e competitivo, exige uma resiliência emocional quase sobre-humana. Completamente impossível em permanência.

Olhe-se à dificuldade de equilibrar serviço e liderança
Liderar é, inevitavelmente, tomar decisões. Também há quem não saiba isto. Porém, liderar é mesmo decidir assumindo as responsabilidades pelos resultados. Mais uma vez, temos de olhar à realidade prática das coisas e ao que é esperado de uma empresa. E isso implica, muitas vezes, dizer “não”. Liderar é assumir o compromisso com e por entre escolhas que nem sempre agradarão a todos. O serviço puro é, muitas vezes, incompatível com a necessidade de guiar, de corrigir, de impor limites, de travar. Servir sem liderar é abdicar do papel de condutor; liderar sem coragem de desagradar é ficar refém de uma ou várias equipas ou da organização.

Olhe-se ao mito porquanto temos de ficar pela prática possível
A liderança servidora é muito mais bem compreendida como um ideal — uma bússola ética, moral, que inspira comportamentos mais humanizados, mas que, dificilmente, pode ser vivido na sua forma mais plena. Bons líderes podem adotar princípios servidores: ouvir genuinamente, apoiar o desenvolvimento dos outros, reconhecer necessidades individuais. Aliás devem. Claro que sim. Mas também precisarão ser firmes, pragmáticos e, às vezes, tomar decisões solitárias e contrárias ao que os outros entendem por serviço.

Olhe-se à verdadeira dimensão do desafio
O verdadeiro desafio da liderança não é ser apenas um servidor ou apenas ser um comandante. É ser ambos, na medida certa, reconhecendo a tensão permanente entre serviço e liderança. Saber quando servir é liderar e quando liderar nem sempre é servir é uma arte e a arte do equilíbrio. Quem julga que está (estará!) sempre a servir não tem noção real, prática, do que se passa à sua volta na organização.

O reconhecimento humano do que não é possível, muito embora ambicionável em várias circunstâncias, faz-nos caminhar para o melhor. Mas é bom que não nos ponhamos no papel pleno da assunção das características servidoras universais. Precisamente porque uma organização paga salários e tem famílias e pessoas na sua esfera, não podendo nunca dar-se ao luxo de apenas servir. O resto, bom, o resto é marketing pessoal para líderes. E os líderes gostam que se diga deles o quão bons são a servir. Oh, se gostam! Mas é ou será essa a realidade? Sejamos honestos!