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Literacia em saúde, capacitação do cidadão, e porque isto importa

Autor
  • Catarina Reis de Carvalho
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As plataformas de informação a que teremos acesso a partir de Janeiro de 2019 são uma ótima notícia. Numa linguagem simples e acessível, são uma importante ferramenta para os cidadãos.

Recentemente, a Ordem dos Médicos e o Ministério da Saúde assinaram um protocolo que vai permitir,a toda a população portuguesa, o acesso a quatro plataformas de informação científica internacional.  O benefício deste protocolo para os profissionais de saúde é indiscutível, sendo louvável o investimento realizado em prol da formação profissional contínua. A celeuma instalou-se na questão do “acesso a toda a população”, com uns a defender os riscos associados ao livre acesso de informação, e outros a argumentar os benefícios da informação de qualidade. Importa, portanto, discutir a literacia em saúde.

De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), literacia em saúde é o conjunto de competências que determinam a motivação e a capacidade de indivíduos terem acesso, compreenderem e usarem a informação de forma a promoverem uma vida saudável.  Este conceito é uma preocupação atual. Existem, aliás, vários estudos disponíveis na literatura que concluíram que os doentes com baixos níveis de literacia têm maiores taxas de hospitalização, mais idas à urgência, maior mortalidade, menor taxa de participação em rastreios e maior gasto económico em cuidados médicos.

Deste modo, a literacia em saúde é uma ferramenta crucial de capacitação da população. Cidadãos mais informados gerem melhor a sua saúde e fazem uso adequado da informação que lhes é fornecida para um benefício pessoal e social. Infelizmente, o nível mundial de literacia em saúde é baixo, e Portugal não é uma exceção. De acordo com o relatório “Literacia em Saúde em Portugal”, publicado em 2016 pela Fundação Calouste Gulbenkian, 49% da população portuguesa apresentava níveis de literacia em saúde inadequados ou problemáticos, o que está abaixo do panorama na restante União Europeia.

Então, queremos doentes informados? Sim, mas bem informados!

Nos dias de hoje, informações sobre a saúde multiplicam-se pela internet, sem qualquer controlo no que diz respeito ao seu conteúdo e respetiva qualidade. O famoso Dr. Google (quem nunca o consultou para uma opinião rápida?) condicionou uma alteração da relação entre médicos e doentes, nuns casos para melhor, facilitando a comunicação, mas noutros para pior.  É agora frequente que os doentes se apresentem com ideias preconcebidas, nem sempre benéficas ou corretas.

Mas como será que podemos melhorar o conhecimento sobre saúde?

O conceito da literacia médica não se esgota nas plataformas de informação. O enfoque deve ser dado numa melhoria da comunicação médica e na abertura para o esclarecimento. Também são importantes, neste caminho, as campanhas, ações de formação e o papel das escolas. Um estudo norte-americano do Institute of Medicine National Academics refere que metade das pessoas têm dificuldade em entender a informação médica, quiçá devido ao modo como esta lhes é transmitida.

Claro, nem tudo é assim tão linear. Põe-se a questão: será que demasiada informação pode ser mais prejudicial do que benéfica? Um estudo publicado no “An International Journal of Medicine” revela que nove em cada dez doentes pretende ter o máximo de informação possível. Às vezes, são os próprios médicos que não estão completamente convencidos disto. Seremos ainda demasiado paternalistas? Muitos médicos acham-se no dever de proteger os seus doentes de informações que consideram preocupantes ou desagradáveis. No entanto, não está provado o benefício desta atitude. Um outro argumento é o do receio que os doentes se autodiagnostiquem, o que irá certamente conduzir a muitos diagnósticos incorretos e a ansiedade evitável. E depois, é necessário também dizê-lo, a pressão da vida diária nos cuidados de saúde, o número de utentes e o pouco tempo disponível para cada um deles, torna impossível a dedicação necessária para um diálogo completo e esclarecedor.

Em conclusão, as plataformas de informação a que teremos acesso a partir de Janeiro de 2019 são uma ótima notícia. Cada uma destas plataformas tem uma secção que se destina ao doente, numa linguagem simples e acessível, e acredito que deve ser preferencialmente esta a ser disponibilizada para a população geral. Um cidadão bem informado, com acesso a ferramentas que veiculam essa informação, é benéfico para toda a população portuguesa e preferível a um doente que se vê forçado a procurar resposta às suas dúvidas em locais de credibilidade discutível.

Catarina Reis de Carvalho tem 29 anos e é médica. Paralelamente, é assistente convidada na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Pertence ainda à Ordem dos Médicos e ao Conselho Nacional de Médicos Internos. Juntou-se aos Global Shapers Lisbon em 2017.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes. Irão partilhar a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade, como aconteceu com este artigo. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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