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Existe alguma chave para cultivar o respeito e valorização do outro? /premium

Autor
  • Catarina Reis de Carvalho

É tempo de sermos mais pró-ativos a fornecer às gerações mais novas as ferramentas necessárias para que construam as suas relações com segurança, mas também com respeito e tolerância.

Qual a chave para um maior respeito e valorização do outro na nossa sociedade? Educação. A resposta a esta pergunta será sempre “educação”, e uma das que pode fazer a diferença é a educação sexual.  A importância desta não é novidade e a temática chegou recentemente à multimédia com a estreia na Netflix de uma série (Sexual education) que aborda precisamente os medos e dúvidas dos jovens que anseiam por esclarecimentos e aprendizagem nesta área.

A sexualidade representa um dos grandes eixos de mudança da sociedade. Desde a emancipação feminina e a revolução no planeamento familiar, trazida em grande parte pela pílula contracetiva, à crescente luta pelos direitos da comunidade LGBT e pela igualdade de género, têm vindo a acontecer constantes redefinições da sexualidade. Esta verdadeira “revolução sexual” tem ocorrido cada vez mais rápido, por vezes quase indisciplinadamente, frequentemente toldando o nosso discernimento, e quase sempre acompanhada de uma grande dificuldade em controlar a quantidade e qualidade da informação que nos chega. E se isto é assim para adultos, o que será para as nossas crianças e jovens?

No meio desta “revolução”, são preocupantes as crescentes notícias de violência doméstica e crimes sexuais. Um crescimento que é real, já que o relatório da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima publicado em 2017 descreve um aumento percentual de 93,5% dos crimes sexuais em Portugal entre os anos 2013-2017.

Em Portugal, desde 2009 que a educação sexual nas escolas tem um carácter obrigatório (embora esteja prevista na legislação há muito mais tempo, desde 1984). Desde então, muito de positivo se fez nesta área. Somos dos países da Europa onde esta começa mais cedo (aos 6 anos), apesar de a maioria das escolas só introduzir esta temática aos 10-11 anos. Na verdade, o “quando” e “como” da educação sexual é controverso, e daria para grande discussão. Vários têm ainda questionado a importância do “porquê” desta abordagem, mas para quem, como eu, tem contacto direto com problemas relacionados com a sexualidade – desde abortos, doenças sexualmente transmissíveis, distúrbios de distorção da imagem corporal, abusos sexuais,e outros – a pertinência não podia ser mais gritante. Que mais poderemos nós fazer senão preparar os nossos jovens com informação de qualidade e transmitir-lhes os valores corretos? Neste processo, não é de descurar a grande importância dos encarregados de educação e as famílias no geral. São elas que estão numa posição privilegiada para acompanhar as suas crianças e adolescentes, e entender quais as suas principais necessidades e dúvidas. Obviamente que este trabalho se deve fazer sempre em sinergia com as escolas. Atualmente, do Estado partem linhas orientadoras dos conteúdos, mas as escolas têm autonomia (decreto-lei da Flexibilidade Curricular) para decidir como e que temas vão abordar. O problema é que a maioria dos programas curriculares se centra apenas nos aspetos biológicos e não nos aspetos relacionais e sociais da sexualidade. Sem dúvida que a aprendizagem biológica tem tido frutos positivos, como a diminuição da gravidez não desejada e da transmissão das doenças sexualmente transmissíveis. No entanto, da maneira como a entendo, a educação sexual é mais do que a instrução da anatomia e fisiologia sexual e da reprodução. Deveria cobrir uma pletora de opções como o desenvolvimento sexual saudável, identidade de género, relações interpessoais, afeção, desenvolvimento sexual, intimidade e imagem corporal.

Para além disso, como têm alertado tantos professores, quem dá esta formação sexual, e quem lhes dá formação para isso, também está pouco definido. Idealmente, tendo em conta a multiplicidade de dimensões da sexualidade, também o ensino deveria vir de várias fontes.

Frequentemente, no exercício da minha profissão, contacto com adolescentes com problemas na área da sexualidade e não deixo de pensar o quanto ainda é necessário debater estes temas e alargar a abrangência da nossa abordagem à sexualidade. Assim, poderemos capacitá-los a desenvolver um relação amorosa e respeitosa, a aceitar e respeitar as diferenças, e a valorizarem-se a si próprios e aos outros. Desenvolver uma sexualidade saudável é pedra basilar para o desenvolvimento de todas as crianças e adolescentes, e por consequência para o futuro da nossa sociedade, de forma a evoluirmos e a diminuirmos os nossos índices de intolerância, violência nos relacionamentos e crimes sexuais. É tempo de sermos mais pró-ativos a fornecer às gerações mais novas as ferramentas necessárias para que construam as suas relações com segurança, mas também com respeito e tolerância.

Catarina Reis de Carvalho tem 29 anos e é médica da área de Ginecologia e Obstetrícia. Paralelamente, é assistente convidada na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Pertence ainda à Ordem dos Médicos e ao Conselho Nacional de Médicos Internos. Juntou-se aos Global Shapers Lisbon em 2017.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.

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