Termino hoje a tradicional série de livros para férias com sugestões dedicadas a autores portugueses.

Começo por Guilherme d’Oliveira Martins, Coordenador em Portugal do Ano Europeu do Património (2018). O seu mais recente livro intitula-se Ao Encontro da História: O culto do património cultural  (Gradiva, 2018). [ ]

Numa recensão deste livro para a revista Nova Cidadania, Miguel Real recordou que, num inquérito à comunidade educativa, três turmas da Escola Secundária de Mem Martins obtiveram os seguintes resultados: Cristiano Ronaldo tornou-se o “Sr. Desporto”, António Damásio o “Sr. Cientista”, Eduardo Lourenço o “Sr. Filósofo”… e Guilherme d’Oliveira Martins (GOM) o “Sr. Cultura”. “Nada de mais justo”, observou Miguel Real, e este novo livro de GOM confirma a justeza do resultado do inquérito.

A minha segunda escolha vai para Marcello Duarte Mathias e a reedição de A Memória dos Outros, publicado inicialmente em 2001 e distinguido com o Prémio Jacinto Prado Coelho, da Associação Internacional de Críticos Literários, e com o Prémio D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus. A nova edição tem o título Vozes e Percursos: A memória dos outros I (D. Quixote, 2018). Trata-se de uma estimulante colecção de textos sobre temas e autores dispersos, onde destaco os textos sobre Raymond Aron, Jean-François Revel e o incontornável Albert Camus — que Marcello Mathias apresenta como sua referência crucial.

Maria Filomena Mónica acaba de publicar mais um livro instrutivo e inspirador. Trata-se de Os Ricos: Da revolução de 1820 até hoje (Esfera dos Livros, 2018). O tema parece decorrer logicamente do tema do seu livro anterior: Os Pobres (Esfera dos Livros, 2016). E ter-lhe-á sido sugerido, precisamente na altura do lançamento do anterior, por Fátima Bonifácio e Rui Ramos. Foi uma boa sugestão, que nos proporcionou um estudo notável sobre três grandes grupos de “ricos”: (1) os fidalgos antigos, (2) os milionários do liberalismo e (3) os capitães da indústria do século XX.

Rui Ramos terá sido também co-responsável pela publicação do mais recente livro de Vasco Pulido Valente: O Fundo da Gaveta: Contra-Revolução e Radicalismo no Portugal Moderno (D. Quixote, 2018). Trata-se de um livro desenvolvido a partir de dois ensaios inicialmente apresentados pelo autor, em 1989 e 1990, no Instituto de Ciências Sociais. O autor entretanto perdera os textos e veio a descobrir que “Rui Ramos era a única pessoa que tinha guardado um cópia, um salvamento que lhe agradeço do coração” (p. 12). O salvamento foi merecido e deu origem a dois estimulantes ensaios sobre o século XIX português.

A direita e as direitas, de Jaime Nogueira Pinto (Bertrand, 2018), é uma edição revista e ampliada do original de 1996. Inclui nomeadamente um longo texto inicial (pp. 11-57) sobre o que se passou no mundo — sobretudo nas direitas, mas não só — de 1996 para cá. Jaime Nogueira Pinto possui um olhar atento e bem informado, não prestando obediência ao politicamente correcto. São todas razões que recomendam a leitura de mais este livro de um autor sempre estimulante.

O leitor poderá reparar, no entanto, que a grelha de análise do autor sobre “a direita e as direitas” exclui quase por completo a tradição conservadora-liberal de língua inglesa — cuja especificidade menciona apenas nas páginas 100-101 (ainda que inclua um capítulo interessante sobre Ronald Reagan). Talvez esta quase completa exclusão possa contribuir para explicar a intrigante e repetida simpatia do autor pela “importante descoberta de Marx” sobre “o carácter subversivo do capitalismo, enquanto máquina imparável movida pelo dinheiro e pela fome do lucro” (p. 32, entre muitas outras).

PS: Talvez este tópico me autorize a concluir esta crónica sobre livros de autores portugueses com um livro recente de um autor inglês — o deputado conservador Jesse Norman. Autor de um excelente livro sobre o chamado “pai do conservadorismo”, Edmund Burke, acaba de publicar um novo livro, desta vez sobre o chamado “pai do capitalismo”: Adam Smith: What He Thought and Why it Matters (Allen Lane, 2018).