O leitor começará por perdoar as incongruências, mas está, lamentavelmente, perante um ser humano que, no arranque do segundo quarto do século XXI, ainda tem mais dúvidas do que certezas, sabe o que quer para si e tem poucas ou nenhumas ideias sobre o que quer para os outros, e ainda aprecia abordar vários assuntos de forma que subsista a dicotomia, “por um lado, isto, por outro lado, aquilo”. É lamentável, bem sei, mas talvez não lhe soe estranha a confissão.

Devo, pois, dizer, por um lado (cá está), que não me incomoda absolutamente nada a existência de grandes empresas. São necessárias, não vale sequer a pena fingir o contrário. Geram escala, reduzem preços, criam eficiência, produzem rendimento, oferecem emprego. Ou, pelo menos, tudo isto em tese, a maioria das vezes verificada. Confesso, também, que se me reviram automaticamente os olhos sempre que alguém lamenta o encerramento de alguma loja, cinema ou outra coisa qualquer, cuja frequência havia (como a esmagadora maioria das pessoas, e vai daí a falência) abandonado há anos. É certo e fatal como o destino que atrás de cada lamento pelo fecho da “loja histórica” (quase sempre alguma coisa fundada durante o Estado Novo e que só é histórica na memória de um país de velhos que acham que o mundo nasceu com eles, e sem futuro algum) vem uma mão alapada à carteira dos outros, exigindo subsídios pagos por todos para que se mantenha aberto um estabelecimento que não é frequentado por ninguém.

Por outro lado (como não podia deixar de ser), começo a acusar um cansaço, talvez já crónico, de uma cidade em que o pequeno comércio serve essencialmente para vender barato o importado chinês, para vender quinquilharia a turistas ou bons produtos a quem os pode pagar, e tudo o mais deve ser procurado em grandes plataformas, incluindo parafusos, mesas de cabeceira ou sacas de betume. Sim, tenho saudades de ver drogarias nos bairros, e talhos e mercearias onde se pode ir a pé, onde se pode falar português e, sobretudo, onde não tenho pela frente um funcionário robotizado que repete slogans de empatia corporativa sem que saiba exactamente o que está ali a vender e muito menos saiba resolver um problema.

Agustina escreveu que «os supermercados são os palácios dos pobres», sem qualquer tipo de condescendência, mas com a intuição de quem sabia ler o tempo. Nos centros comerciais, ou nas grandes superfícies onde todos compramos as mesmas coisas que toda a gente compra, com a ilusão da exclusividade, há de tudo: clima controlado, escadas rolantes, cheiros calibrados, segurança invisível, música ambiente, iluminação ajustada, comida formatada, e uma sensação de pertença que traz consigo a promessa da normalidade. «São as catedrais da conveniência, dão a ilusão de que o sol quando nasce é para todos e que a cultura e a segurança estão ao alcance das pequenas bolsas», como dizia Agustina Bessa-Luís. Dir-me-ão que é democrático, e talvez seja. Uma ilusão, de facto.

E eu, que não sofro do mal de achar que o mundo de antigamente era melhor do que este – na medida em que são todos positivamente maus –, aqui me exponho ao ridículo de ter este sentimento ambíguo que é o de achar que estes palácios dos pobres são o melhor que a humanidade já alcançou e, simultaneamente, acreditar que uma cidade feita dos seus hábitos locais de comércio, dos negócios familiares, da importância do legado e do conhecimento de uma casa, é uma cidade melhor. Talvez não sejam mundos incompatíveis, concedo. Mas às vezes parecem.

Ou terei porventura passado demasiado do meu tempo nas últimas semanas a escutar, de fio a pavio, LUX, o justamente afamado álbum de Rosalía, um disco que nos faz querer voltar a ouvir um disco de ponta a ponta, que parece rezar num tempo em que já não se sabe o que é rezar, mas também num tempo em que o nosso mundo ocidental parece querer voltar a não ter vergonha de rezar, um disco que é como que um espectáculo litúrgico feito por quem se cansou da carne e quis tocar nas coisas que ardem para lá do corpo, um disco que nos faz querer despedir-nos do mundo e, ao mesmo tempo, salvá-lo. LUX é isso mesmo, um desejo de luz. Uma espécie de revolução. Conservadora, mas uma revolução. Bem melhor do que a que temos vindo a assistir.

Tenha o leitor um feliz ano de 2026.