Dia 11 foi dia de greve geral.
Foi também dia de várias manifestações, um pouco por todo o país, para contestar, e bem, o pacote laboral do Governo. Muitos portugueses concordam com a greve e as suas reivindicações. Mas os que não confundem trabalho com ideologia, entre os quais me encontro, não aceitam que a esquerda se aproprie do direito à greve e do próprio direito ao descontentamento.
Ora vejamos: à frente da Assembleia da República, durante a tarde, multiplicavam-se os cartazes sobre imigração, erguiam-se bandeiras da Palestina, voavam garrafas, queimavam-se cartazes e ouviam-se insultos dirigidos a polícias — também eles trabalhadores.
Quem, no seu perfeito juízo, se quer associar a isto? Que raio têm a Palestina, a imigração e o arremesso de garrafas a ver com os direitos dos trabalhadores? Quem é que, mesmo concordando com os receios legítimos sobre as alterações ao código do trabalho, quer fazer parte de manifestações que trazem a reboque a agenda da esquerda, enfiada à má fila no meio de um debate laboral? Quem pode simpatizar com indivíduos de cara tapada, vestidos à moda hippie, característica de determinadas franjas da esquerda, onde o ar boémio cuidadosamente encenado funciona quase como um uniforme?
Foi também possível ver deputados da ala mais extremista do Partido Socialista a passear entre os manifestantes, solidários com a sua luta e as suas palavras de ordem. Mas não podem, certamente, simpatizar com os atos de violência perpetrados por estes militantes — perdão, “manifestantes”. Porque, convenhamos, basta imaginar o que aconteceria se uma manifestação idêntica, com o mesmo nível de violência, fosse organizada por um grupo de direita — não só não chegavam perto da escadaria da Assembleia, como os partidos do lado esquerdo do hemiciclo viriam logo a correr relembrar os perigos do “fascismo” e a exigir mão duríssima contra todos os envolvidos.
É pena que uma reivindicação legítima, que deveria ser de todos os portugueses, seja usada para fazer passar mensagens partidárias da esquerda que nada têm a ver com os interesses de quem trabalha.
É lamentável que os indivíduos que foram à manifestação tenham a arrogância de achar que, para alguém se manifestar contra o pacote laboral, seja obrigado a apoiar a causa palestiniana, ser a favor de uma imigração descontrolada, ter de estar sindicalizado e, pelo caminho, gostar de insultar e atirar coisas aos polícias.
A maioria dos portugueses é afastada das reivindicações laborais, não porque quer, mas porque a esquerda assim o exige: aproveita a promessa de retirada de direitos para promover agendas que não interessam ao país. Os restantes distanciam-se, porque não querem cair nos braços de certos sindicatos, alguns controlados pelo Partido Comunista, nem nas prioridades delirantes da esquerda radical.
Quem esfrega as mãos de contente é o Governo: divide et impera.