Depois de ouvir atentamente o discurso de recandidatura do Professor Marcelo Rebelo de Sousa desta semana, quase fiquei à espera do cavalo branco. É que Marcelo parece querer ser isso mesmo: a miragem de D. Sebastião num dia de nevoeiro. Mas urge que não nos esqueçamos da verdadeira história do Rei desaparecido.

Entra supostamente sozinho na Versailles de Belém, fechada, como seria de esperar devido às restrições desadequadas que estão a matar a restauração. Não sei se tentava homenagear os restaurantes e cafés ao compelir a abertura daquela pastelaria só para si — e, tendo sido esse o caso, é grave, porque 1) nenhum português normal pôde ir à Versailles naquele dia de feriado à tarde, e 2) se quisesse homenagear e ajudar a restauração, não tivesse sido conivente com as medidas irresponsáveis do Governo.

Depois, iniciou o discurso tépido. E acho que a mensagem pode ser resumida em três fases:

1 O Desejado – tal como D. Sebastião, Marcelo tem-se em altíssima conta. Só ele poderia salvar Portugal em 2016, como muitas ilustres figuras do espectáculo português na altura assumiram. Só faltava mesmo Camões dedicar-lhe Os Lusíadas, como fez a D. Sebastião, num pedido desesperado para recuperar a honra portuguesa. E D. Sebastião, como Marcelo, desejado por todos, acarretou aos ombros o sonho do V Império (passo o anacronismo), porque lhe foi dito desde tenra idade que esse seria o seu destino. Fado parecido com o de Marcelo Rebelo de Sousa, que deve o seu nome, aliás, ao seu “padrinho”, Marcelo Caetano, que lhe ensinou a arte da política para que pudesse salvar a nação. Ambos desejados, ambos queridos pelo povo, ambos mártires da luta. Marcelo, nas suas palavras, é candidato à presidência porque “temos uma pandemia a enfrentar e uma crise económica e social para vencer”. Noutras palavras, diz que é o homem certo para liderar Portugal na batalha que se avizinha (é que Marcelo parece gostar muito das analogias de guerra, mas não tanto quando se fala em Tancos).

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2 O Encoberto – Marcelo justifica, no seu discurso, duas ausências: 1) justifica a ausência da sua candidatura até agora com o que me parece resumir-se a algo muito simples – separar ao máximo o Marcelo-Presidente do Marcelo-Candidato. Isto é, o Marcelo-Presidente arrumou a questão sensível do Estado de Emergência e, agora sim, recandidata-se “como cidadão”. É como dizer ao soldado de D. Sebastião que sim, El-Rei precipitou-se a entrar em Marrocos: foi contra tudo e contra todos. Mas isso foi enquanto rei. Agora que temos os inimigos à nossa frente e podes de facto morrer, D. Sebastião está ali enquanto comandante do exército. Uma divisão de personalidade que, em Fernando Pessoa, é genial, mas que, quando não há génio, parece só patológica.

A segunda ausência justificada é 2) a renúncia a ser um Presidente a sério. Diz que precisamos de um Presidente independente que estabilize, não que instabilize. Que una. Isto tem especial graça vindo de Marcelo que, nas palavras de Alberto Gonçalves, destruiu o cargo para o qual se candidata. Mas não faz mal. Marcelo é o salvador. O encoberto. Ele tem a missão (mui católica) de cumprir o seu dever de consciência. Garantiu-nos a todos, esta semana, que não fugirá às suas responsabilidades. Fará antes a caminhada exigente e penosa, qual Herói Romântico.

3 O Regresso d’El-Rei. Como o futuro se compreende melhor com uma análise do passado, vejamos os feitos do inigualável Marcelo Rebelo de Sousa para projectarmos o seu regresso.

O próprio lança-se a essa tarefa, num discurso que quase parece mea culpa, mas que na verdade é uma manobra de distorção da narrativa. Ora, agradece aos portugueses a compreensão dos momentos difíceis do seu mandato. Fala desde logo dos incêndios. Acho que foi aí que Marcelo desapareceu mesmo pela primeira vez, qual D. Sebastião em Alcácer Quibir. Foi a Pedrogão, abraçou-se às pessoas em sofrimento profundo, e prometeu que ajudar as vítimas dos fogos seria o objectivo do seu mandato. O pobre senhor Manuel, de quem Marcelo se aproveitou para fazer capas de jornal num abraço que parecia sentido, morreu sem ver uma ação de Marcelo ou do Governo. E sempre foi isto que Marcelo fez. Qual encoberto, comenta, diz, mas depois ausenta-se na execução. Mais tarde, quando tantas crianças ficaram sem ensino devido à pandemia, elogiou o Primeiro Ministro por se ter conseguido que uma final de futebol se realizasse em Lisboa. Cúmulo dos cúmulos — o elogio foi feito no Palácio de Belém, numa festa em plena pandemia, no dia 17 de junho de 2020. Exactamente 3 anos depois da tragédia de Pedrogão.

Mas Marcelo justifica todas as suas falhas com a necessidade de unir o país. A não recondução de Joana Marques Vidal, em 2018, também foi para não entrar em choque com o PS. Até porque toda a gente sabe que “quem se mete com o PS leva” (Jorge Coelho, 2001). Por isso é melhor mesmo ficar melhor amigo do PS. D. Sebastião, quando caminhou para Alcácer Quibir e nos deixou depois às mãos dos espanhóis, também o fez para unir o país. Também o fez por bem. Mas fê-lo, sobretudo, de forma irresponsável.

Com o desaparecimento de D. Sebastião, ficámos entregues aos espanhóis. Com o desaparecimento de Marcelo, ficámos entregues ao PS. Não esquecer que, 500 anos depois, continuamos à espera…